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PERDA NA ARTE

Edison da Luz não se limitava, transitando da escultura à pintura

Edison da Luz, força criativa com obra marcante na cena visual, morreu aos 83 anos

Chico Castro Jr.*

Por Chico Castro Jr.*

02/12/2023 - 10:56 h

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Registro de Edison fazendo uma gravura, técnica que dominava
Registro de Edison fazendo uma gravura, técnica que dominava -

Esta foi uma semana cruel para as artes visuais em Salvador – ela abriu com a perda do icônico Jayme Figura no último domingo. E, agora, fecha com a noticia da morte de Edison da Luz, um dos artistas visuais mais importantes de sua geração. Soteropolitano nascido Edison Benício da Luz, em 4 de abril de 1940, ele morreu na madrugada de ontem, 1 de dezembro, aos 83 anos, por complicações de um câncer no pâncreas.

O velório ocorreu hoje, às 10h, na sala 3 do Cemitério Bosque da Paz (R. Aliomar Baleeiro, 7.370, Nova Brasília). O enterro está marcado para 15h. Edison estava hospedado no Imbuí, em tratamento de saúde, aos cuidados do sobrinho César.

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“Ele estava com dificuldades de respirar, aí César chamou o Samu, que o levou para a UPA do Marback. Lá, faleceu”, relata Claudine Toulier, produtora cultural e enteada de Edison, do casamento com a lendária artista e crítica de arte Matilde Matos.

“Ele foi casado com minha mãe, Matilde, era meu padrasto, uma pessoa que eu tinha muito carinho. Ele fazia de tudo, gravuras, entalhes, telas, mandalas, tinha muita versatilidade. Ele formou várias pessoas, deu aulas para várias pessoas importantes que seguiram carreira com ele. Ultimamente, a artista Paola Publio era a pessoa mais próxima dele”, conta Claudine.

Doente, Edison havia se mudado de sua casa-atelier no bairro de Patamares para o apartamento do sobrinho no Imbuí. Claudine conta que ainda tentou ajuda-lo a produzir objetos com sua arte a fim de levantar fundos. “Tentei fazer alguma coisa, gravuras, impressão em camisetas. Só que ele estava fragilizado, numa situação difícil. Ele queria ficar lá em Patamares com as artes dele, mas realmente não deu. A gente pensou que ele era de ferro, que ia conseguir voltar a trabalhar”, lamenta Claudine.

Etsedron: vida e morte

Entre 1969 e 1979, Edson foi um dos artífices do Etsedron (Nordeste de trás para frente), um grupo multimídia de artistas que logrou um rompimento radical – e polêmico – com o chamado circuito oficial das artes plásticas, o qual, segundo a avaliação do grupo, era submisso aos modelos europeu e norte-americano.

”O Etsedron começou em Guajeruz (vila em Arembepe). Eu tinha um ateliê e estava trabalhando com uma comunidade pobre onde se faziam caçuás (cestos de vime ou cipó)”, lembrou Edison em entrevista para este repórter, em matéria publicada no jornal A TARDE de 26 de novembro de 2012.

Quem o levou até lá foi José Marques Castro, da antiga Galeria Bazar. “Ele levou a mim e Matilde Matos lá, aonde poderíamos trabalhar em um projeto contra a Tibrás (atual Tronox), que aliás, está lá até hoje, poluindo e destruindo tudo”, disparou.

“Ali começou a juntar tudo. O clique foi quando me deparei com uma árvore carregada de cipó caboclo. Chamei Palmiro (Cruz, outro artista do grupo) e tiramos o cipó. Quando eu o torci, vi que ele tomava formas. É isso, eu disse. Como não temos dinheiro para trabalhar com ferro, fomos de cipó”, relatou.

Figuras humanoides criadas por Edison com o cipó tinham estranhos contornos trágicos, pareciam implorar por alguma coisa. “Lembravam pessoas esqueléticas, famélicas: miseráveis do Nordeste”, lembrou Edison na entrevista. Em 1973, as figuras trágicas feitas de cipó, ossos, chifres, couro cru, pedras e cordas receberam o maior prêmio nacional da Bienal de São Paulo.

A premiação jogou o nome de Edison e outros membros do Etsedron nas alturas, chamando atenção de estudiosos e críticos do Brasil e de fora dele. O grupo, em diferentes formações e agregando artistas de música, dança e performance, voltou à Bienal em 1975 e 77, sempre despertando grande interesse.

Curiosamente, o Etsedron nunca conseguiu expor em Salvador. “A trajetória de polêmicas e de confrontos – inclusive no plano pessoal – do grupo e de alguns dos integrantes, particularmente de Edison da Luz, contribuiu para manter as portas fechadas”, escreveu Walter Mariano no artigo ”ETSEDRON, o avesso do Nordeste”. Walter escreveu esta dissertação de mestrado na Escola de Belas Artes da Ufba sobre o fascinante projeto.

Finalmente, em 1979, o Etsedron se desfez com um ritual de queima das peças remanescentes na praia de Jauá.

Irreverente

Paola Publio calcula que Edison deixou – só em telas – cerca de 10 mil quadros pintados. “Ele é uma lenda, deixou muitos discípulos, foi também um grande educador. Hoje sou artista plástica por causa dele. Ele mudou minha vida, graças à insistência dele. Edison tinha verdadeira compreensão da importância da arte”, afirma.

“E também tinha muita coragem. Era preciso ter coragem quando ele começou. A carteira de trabalho dele nunca foi assinada, e ele achava isso o máximo, porque viver de arte não é fácil, e ele viveu de arte com todas as dores que isso acarreta”, diz a artista.

Paola ainda conta alguns episódios pitorescos do tempo em que Edison frequentava a Escola de Belas Artes da Ufba: “Uma vez, ele prendeu todo mundo na escola, passou o cadeado mesmo. Em outra, ele pagou a uma pessoa para subir numa árvore. Ele cavou buracos botando os nomes dos professores em pequenas lápides. Era extremamente irreverente, com muita alegria e coragem de dizer o que ninguém dizia, e queria sempre repartir. Era um gênio, pintava um quadro por dia, se deixassem”.

No início do século, Edison casou com uma mulher alemã de nome Joana, com quem teve uma filha, e, segundo Paola, morou com elas por cerca de cinco anos na Alemanha. Depois, voltou a Salvador e morava em Patamares.

Legado a ser aproveitado

Admirado na cena das artes visuais baianas, Edison era, segundo Bel Borba, “um caso clássico de um artista que parte direto para as vias de fato, arrebentando conceitos em alta, sem medo de ser infeliz”.

E segue: “Provocador, na minha opinião um dos mais irreverentes artistas dos últimos 60 anos, mesmo que isso lhe custasse a própria cabeça. Tive a impressão que ele deu as costas ao pictórico, ao plástico e virtuoses, afim de partir para cima, contestando de frente, na cara do gol e/ou do juiz. Doa a quem doer, decidiu extrapolar, fez da oratória o principal gesto performático”.

Outro grande nome das artes visuais contemporâneas, Ayrson Heráclito, conta que o convidou para a Bienal da Bahia de 2014. “Ele começou como um dos grandes gravadores da Bahia. Tem um álbum de gravuras de 1968 que reúne ele, Emanuel Araújo e Hélio de Oliveira, como a vanguarda da gravura na Bahia, tem até prefácio de Carybé”, conta.

“Ele sempre foi um artista de vanguarda e um dos mais importantes artistas negros da arte baiana. Tristeza enorme perdermos ele na mesma semana em que perdemos Jayme Figura. Espero que a memória e as obras desses artistas sejam preservadas, toda a produção artística e cultural desses artistas precisa ser valorizada e preservada, para que as próximas gerações tenham ideia desse criadores da cena cultural baiana”, acrescenta.

Juarez Paraíso, outro importantíssimo artista baiano, lembra que Edison foi aluno dele: “Acompanhei a vida artística de Edison da Luz desde os anos 1960. Foi meu aluno de desenho no Ginásio Bahiano de Ensino. De lá, recomendei a ele cursar a Escola de Belas Artes . Fez parte do grupo da Escola Bahiana de Gravura, com José Maria, Hélio Oliveira, Sônia Castro, Glei Melo e outros, liderada por Henrique Oswald. Sempre contestador, Edison da Luz teve uma brilhante presença na história das artes baianas e brasileiras, principalmente com a criação do Etsedron, com Matilde Matos e outros importantes artistas”.

Outra importante artista baiana, Ligia Aguiar, lamenta tanto a morte quanto o pouco caso que foi feito do Etsedron em Salvador: “Deixa uma rica contribuição nas artes plásticas baianas com o projeto da arte nordestina pelo avesso: Etsedron, que precisa de novos olhares em torno dos seus conceitos de brasilidade e originalidade, em busca de um reconhecimento da Bahia cultural que deixou passar em branco esse consistente e original movimento nos anos 70”.

Professor da Escola de Belas Artes e colaborador de A TARDE, Luiz Freire lembra que o Etsedron, ainda que profundamente nordestino, estava afinado com o que havia de mais moderno na Europa: “O Etsedron teve uma repercussão maior na Bienal de São Paulo justamente por ter levado para lá uma manifestação artística diferente e afinada com movimentos da arte europeia da época, como a arte povera, e também porque levava a realidade do sertão nordestino, da seca, da fome, uma realidade que a ditadura militar não queria que escapasse para o mundo. E justamente através do Etsedron essa realidade escapa ao mundo dentro de uma linguagem de arte integrada, uma grande inovação no cenário brasileiro e mundial, em que os limites das artes plásticas eram quebrados, já que dança, performance e artes visuais atuavam em função de uma mensagem politicamente engajada, artisticamente engajada”, observa.

“É uma lacuna que vai ficar, embora tenhamos uma memória precária do que foi feito, temos apenas fotos em preto & branco. Mas o assunto foi estudado, tem uma dissertação de mestrado do Walter Mariano na EBA e lamentamos muito que ele tenha se findado”, disse Freire.

Paola Publio gravou diversos vídeos de Edson falando da vida e da arte. Confira alguns nas redes sociais de A TARDE. Em um desses vídeos, ele fala: “A gente não precisa ficar preso ao aqui e agora. O aqui e agora só funciona quando você está vivo. Mas quando você deixa a Terra, tem que deixar um legado. E todo mundo se aproveita desse legado”.

O legado de coragem e invenção que Edison deixa certamente será de grande proveito às próximas gerações.

*Colaborou Eugênio Afonso

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