Mães influencers compartilham vivências e rotina com filhos na web | A TARDE
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Mães influencers compartilham vivências e rotina com filhos na web

Segundo especialista, nicho de maternidade tem crescido nas redes sociais

Publicado sábado, 11 de maio de 2024 às 09:00 h | Autor: Bianca Carneiro e Matheus Calmon
Maíra Azevedo, a Tia Má, recebeu Portal A TARDE em casa para contar sobre as suas vivências no maternar
Maíra Azevedo, a Tia Má, recebeu Portal A TARDE em casa para contar sobre as suas vivências no maternar -

“Oi, eu sou a Hendyohara, tenho um bebê de um ano, e não sou uma criança”. A descrição pode até parecer inusitada, mas é assim que a jovem feirense, de 23 anos, costumava começar alguns dos seus vídeos, logo quando começou a gravar para a internet. Hoje, com seus três milhões de seguidores no Instagram (@hendyohara), ela segue compartilhando a rotina de mãe solo, ao lado do pequeno Dante.

Abandonada pelo ex-marido, sem emprego e com quase nada para comer em casa, Hendy não imaginava que seria através da internet que a sua vida iria mudar completamente. Seu primeiro vídeo de rotina postado em 2023, no Tik Tok, viralizou e foi compartilhado por celebridades como Bruna Biancardi e MC Loma. Em dias, a baiana viu seu perfil saltar de milhares para milhões de seguidores, o que lhe rendeu fama e convites, um deles para o aniversário da pequena Lua Di Felice, primogênita dos ex-BBBs Viih Tube e Eliezer.

Ao Portal A TARDE, ela conta que a ajuda que conseguiu nos primeiros posts a fez superar uma das situações mais difíceis que viveu com Dante.

Feirense Hendyohara acumula milhões de seguidores na web
Feirense Hendyohara acumula milhões de seguidores na web |  Foto: Divulgação

“O momento mais triste da minha jornada foi quando meu bebê desenvolveu pneumonia, e eu passei uma noite inteira com ele tossindo sem parar, sem dinheiro, sozinha e sem saber o que fazer. Eu me senti completamente inútil e incapaz, me senti culpada, chorei muito, entrei em desespero, até o momento que percebi que se eu não me fortalecesse eu não conseguiria cuidar do meu filho naquela situação. Pensei mais no que eu poderia fazer pra ele melhorar do que no problema em si e então fiz de tudo, cheguei até a postar um pouco desse momento nos stories, algumas pessoas muito boas me ajudaram nesse processo e eu consegui suporte para realizar exames e realizar o tratamento do Dante”.

Hendy integra um dos nichos digitais que mais vem crescendo: o das mães solo. Fundadora e CEO da agência Mynd, Fátima Pissarra diz que houve um aumento na procura por criadores de conteúdo considerados especialistas e que falam com um público específico.

“No caso da maternidade, sempre foi um assunto bastante explorado, mas ultimamente a subcategoria ‘mães solo’ ganhou destaque sim, mostrando um lado real, de quem coloca a mão na massa e participa ativamente da criação dos filhos, enquanto concilia vida pessoal e profissional. Acredito que esse nicho tenha muito espaço ainda para crescer, pois é relativamente novo nas redes sociais”.

Reaprender a maternar

Segundo Fátima, 30% dos agenciados pela Mynd têm alguma relação com a maternidade. Um dos seus nomes mais famosos, a jornalista, atriz, influenciadora e mãe, Maíra Azevedo, a Tia Má (@tiamaoficial), abriu as portas da própria casa, onde recebeu uma equipe do Portal A TARDE para contar sobre as suas vivências no maternar, enquanto ainda desempenha as outras funções.

Dividindo atenção com a nossa equipe de reportagem e os filhos Aladê Koman, de 15 anos, e Ayanna Luiza, de 3, Maíra lembrou que, quando iniciou sua trajetória nas redes sociais, já era mãe e não conseguia se identificar com quem já estava nas terras virtuais.

"A minha necessidade surge de ver pessoas com a cara igual a minha. A internet, quando eu comecei, era, ainda na sua maioria, por homens brancos do Sul, do Sudeste, e, de repente, eu comecei a ver e eu quero falar sobre essas coisas. Quem está falando sobre essas coisas que eu vivencio? Quais são essas mulheres de 30 anos falando das nossas necessidades? Pessoas que têm uma cara normal, eu quero pessoas com vida real. É aí que surge essa ocupação com as redes sociais e, de repente, a maternidade faz parte da minha vida".

Para Maíra, a necessidade de acompanhar as novas formas de maternar é “maravilhoso"
Para Maíra, a necessidade de acompanhar as novas formas de maternar é “maravilhoso" |  Foto: Denisse Salazar | Ag. A TARDE

Mãe de filhos com 12 anos de diferença, Maíra brinca que Aladê e Ayanna têm mães distintas.

"Aladê tinha uma mãe jovem, que tinha mais vigor, mais disposição física, realmente. Eu chegava do trabalho, depois de passar os dias fazendo matérias na rua, e ia brincar com o meu filho de luta, sabe? Eu me transformava na mulher tocha, na mulher fogo, mulher água, cada dia virava uma super heroína diferente. Aladê tinha essa mãe", diz Maíra.

"Ayanna tem uma mãe que hoje em dia tem uma certa visibilidade, que pode ofertar a eles uma segurança diferente da mãe de Aladê. A mãe de Ayanna já tem o dia seguinte, pelo menos, certo. Pelo menos uma semana garantida. Mas é muito diferente, porque é uma diferença grande de idade. Hoje em dia eu sou mais velha, eu tenho 43 anos, com uma filha de 3 anos, então eu sou uma mãe que está cansada, fisicamente cansada, porque é uma idade que o corpo começa a pedir socorro. Eu sinto dores físicas, eu tenho dor nas costas...", elenca.

Mainha tá on

Pesquisando nas redes por tags como “maternidade” e "mãe solo", é possível se deparar com conteúdos diversos, entre os quais, vlogs de rotina, lancheiras enfeitadas, dicas de criação, looks, e até situações humorísticas envolvendo as mães e seus filhos.

Hendy diz que apesar de ser um bebê ainda, Dante aproveita bastante a produção do conteúdo para “traquinar”. “Ele ainda é muito novinho, não entende muito do que acontece ao redor, foi um bebê prematuro e tem algumas questões. No entanto ele se diverte muito, é hiperativo, alegre, gosta muito de sair, de brincar e toda essa mudança de vida fez ele ficar muito feliz, pois agora ele pode explorar muito mais coisas e brincar bastante, conhecer novos locais, ter experiências divertidas, ele ama”, diz.

Para Maíra, a necessidade de acompanhar as novas formas de maternar é “maravilhoso". Quando a criança era ela, os pequenos eram menos respeitados, o que vem mudando com o passar do tempo e novas formas de pensar.

"Eu tinha que ouvir o choro e saber que às vezes a minha frustração, a minha tristeza, não era levada em consideração. São processos diferentes. Entre meus filhos tem uma geração, eu já percebo que tem uma outra forma de educar e que eu preciso, inclusive, reaprender a maternar, o que para mim é um grande desafio, mas é um desafio maravilhoso".

Fátima destaca ainda que, para além de apenas mostrar o dia a dia com os filhos, as mães podem usar as redes para motivar outras mulheres em outros aspectos. “Com o empoderamento feminino, muitas mulheres buscam inspiração, principalmente ao criarem seus filhos. Mesmo as mães que possuem parceiros podem aprender com as que conseguem construir uma rede de apoio por conta própria e fora do considerado ‘usual’”.

Se fosse meu filho…

Mas sendo a internet um espaço onde todos tem espaço para falar, é claro que as mães influencers não conseguiriam escapar de ler os famosos “pitacos” não solicitados. Com sua longa experiência no ambiente virtual, Maíra aprendeu a conviver com a idealização da maternidade, muitas vezes expressa por quem sequer tem filhos.

"Cada maternar é único. A maternidade é desafiadora exatamente por isso, você vai precisar aprender a lidar com um indivíduo diferente, mesmo que tenha sido um indivíduo que saiu de você, ou que você escolheu para ser seu filho, e que ele também te escolheu para ser mãe, você vai precisar respeitar. E eu tenho que levar em consideração a formação, os acessos, a situação financeira".

Sobre os haters, Maíra conta que, diferente de quando iniciou, hoje prefere bloquear, excluir e dificultar o acesso daquela pessoa, que precisará percorrer outros caminhos, que dificilmente afetarão a vítima.

"Hoje em dia eu penso muito mais na minha saúde, eu apago, eu bloqueio eu excluo, eu acho isso a coisa mais gostosa da vida, é alguém fazendo um textão, querendo te ofender e você simplesmente apagar, porque aquela pessoa perde o total poder que ela achou que teria, você apagar e bloquear, acabou".

Hendy recebe comentários inusitados, mas sobre a sua aparência. Logo quando começou a aparecer na web, muita gente achava que ela era menor de idade. “Isso não me ofende, eu acho legal, divertido, dá pra explorar essa característica e produzir diversos conteúdos, vou ficar ainda mais feliz quando eu tiver com 40 anos e pensarem que tenho uns 25, imagina só? Todo mundo tentando fazer procedimento para parecer mais jovem e eu aqui com cara de criança, é divertido”, afirma.

“De forma geral, eu lido ou com humor ou apenas ignoro os haters, comentários de ódio gratuito falam muito mais sobre o interior de quem comenta do que sobre mim. A única coisa que realmente me ofende são comentários maldosos sobre o meu filho, ele é apenas um bebê e acho doentio destilarem ódio em uma criança”, completa.

Para Hendy, a internet ainda tem sido um importante espaço para realizar sonhos, especialmente, pelos quesitos financeiros. Ela, que pretende ser cantora, quer também sair de Feira de Santana e ir para São Paulo para dar vida a outros projetos.

“Meu sonho mesmo é ser cantora, então, eu tenho um projeto musical em mente com músicas autorais contando minha jornada no álbum, mas acho que isso ainda vai demorar um pouquinho, previsão de médio prazo [...] Pretendo me mudar, não agora, mas quando eu puder ter uma estabilidade financeira. Quero me mudar com segurança, prezando sempre pelo bem estar do meu bebê, ele precisa estar bem seguro, quero ir pra uma cidade maior, talvez São Paulo onde tem muitas oportunidades de trabalho e networking. Tenho isso em mente, mas ainda não amadureci essa vontade”.

Para o futuro dos filhos, Maíra deseja que tenham melhores experiências de vida que as que teve e tenham muito mais oportunidades. "Que eles estejam vivos, fortes, orgulhosos, que eles não precisem passar por várias coisas dolorosas que eu passei. Eu quero que eles possam viver plenamente quem eles são".

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