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BIENAL DO LIVRO

Michael ou Michaela: os bastidores de Bridgerton pelo olhar da autora

Em entrevista na Bienal do Livro de Salvador, Julia Quinn comentou os bastidores da nova temporada

Marina Branco
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Michaela Stirling e Francesca Bridgerton
Michaela Stirling e Francesca Bridgerton -

Caro e gentil leitor,

Eu e você lemos as histórias de Bridgerton, vivemos os amores de cada um dos irmãos, e nos apaixonamos pelas suas histórias.

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Eu e você vimos cada uma delas ganhar vida nas telas, desde interpretações brilhantes que incorporam os personagens que tanto amamos quanto a Eloise de Claudia Jesse, até escolhas surpreendentemente maravilhosas quanto a troca impecável de Francesca para Hannah Dodd.

Agora, eu, você e todos os fãs vivemos a nova expectativa de (re)conhecer mais uma história nas telas - mas desta vez, de um jeito bem diferente. A adaptação de Bridgerton para a televisão nunca foi apenas uma transposição fiel dos livros e, segundo a própria autora, nem deveria ser.

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Julia Quinn, autora de Bridgerton
Julia Quinn, autora de Bridgerton | Foto: Netflix

Em entrevista na Bienal do Livro de Salvador neste sábado, 18, Julia Quinn, a Lady Whistledown da vida real e autora da série de livros, abordou uma das mudanças mais debatidas da série - a transformação do tão querido Michael em Michaela, criando um relacionamento entre duas mulheres ao lado de Francesca.

A decisão, segundo Quinn, não partiu dela, mas da equipe criativa da produção. Ainda assim, foi prontamente aceita após a explicação dos responsáveis pela série.

"Quando eles vieram até mim, eu fiquei curiosa e quis entender por que aquilo seria uma boa ideia. E, depois que me explicaram, eu concordei. Só pedi que deixassem sempre claro o quanto Francesca amou John", contou.

John Stirling e Francesca Bridgerton
John Stirling e Francesca Bridgerton | Foto: Netflix

Mais do que a mudança em si, a autora reforça que o coração da história permanece intacto, independentemente do gênero dos personagens. "As partes mais importantes da história da Francesca são a tristeza que ela sente pelo John, porque ela realmente o amava, e a culpa por se apaixonar novamente. Eu não vejo por que isso não poderia existir em uma história entre duas mulheres", afirmou.

Para Quinn, a adaptação também amplia o alcance emocional da obra. "Qualquer coisa que possamos fazer para permitir que mais pessoas se vejam em histórias com finais felizes é algo bom", completou.

Quão presente a autora está na série?

A relação entre autora e adaptação também passa por um equilíbrio entre controle e confiança. Quinn revelou que não participa diretamente da escrita dos roteiros, mas acompanha o processo de forma estratégica.

"Eu vejo os textos antes do tempo, tenho acesso aos primeiros roteiros e converso com a equipe sobre o que considero importante. Mas não estou escrevendo nada", disse.

Esse papel consultivo inclui trocas frequentes com a showrunner da série, permitindo que a autora contribua com direcionamentos mais amplos, sem interferir no desenvolvimento criativo da produção.

Michaela, Francesca e John
Michaela, Francesca e John | Foto: Netflix

Ela também contou que teve acesso à mudança envolvendo Francesca com bastante antecedência, cerca de 18 meses antes do público, o que lhe deu tempo para refletir sobre a proposta.

A decisão de permitir mudanças estruturais na obra também está ligada ao contexto histórico da adaptação. Antes de Bridgerton, livros de romance raramente eram transformados em grandes produções televisivas.

Segundo Quinn, o projeto representava uma oportunidade única, não apenas para ela, mas para todo o gênero. "Era a primeira vez na minha vida, a primeira vez em Hollywood e a primeira vez para o meu gênero literário também. Eu sabia que precisava fazer de tudo para tornar essa adaptação possível", afirmou.

Michaela Stirling e Francesca Bridgerton
Michaela Stirling e Francesca Bridgerton | Foto: Netflix

Por isso, Julia decidiu abrir mão dos direitos criativos sobre a obra - e no processo, a confiança na equipe liderada por Shonda Rhimes foi determinante. "Eles sabem fazer televisão. Eu não vou dizer para a Shonda como fazer TV, isso não é o meu trabalho", completou.

E os bebês Stirling?

As mudanças, no entanto, não são aceitas por todos - e por diversos motivos diferentes. Um deles é a relação íntima que Francesca representa com o tema da infertilidade, já abordado desde a temporada de Benedict da série.

Enquanto no livro a personagem sofre um aborto espontâneo, na série, ela tem uma gravidez enganosa, dando ao público a cena mais potente da personagem quando desabafa com a mãe, Violet, sobre a perda de John e a dor de não ter conseguido dar um filho a ele.

Francesca e Violet
Francesca e Violet | Foto: Netflix

No futuro literário, no entanto, a história de Francesca recebe seu final feliz, com os dois filhos da ex-Condessa de Kilmartin com Michael - que podem deixar de existir na série.

"No livro, o desejo de ter filhos é o que faz com que ela retorne à sociedade, mas eu nunca vi isso como o principal ponto da história", explicou Julia.

Questionada sobre se essas questões, especialmente a maternidade, serão alteradas na série, Quinn evitou responder, afirmando que "seria um spoiler" dizer que algo mudará - o que deixa uma brecha escancarada para a crença de que a próxima geração dos Bridgerton tem chances altíssimas de não contar com John e Janet Stirling.

Michaela e Francesca no funeral de John
Michaela e Francesca no funeral de John | Foto: Netflix

Homofobia e racismo

A resistência a Michaela, no entanto, não se resume aos filhos dos Stirling. Para muitos, a mudança é negativa por preconceitos infundados, desde sempre rebatidos com veemência pela narrativa de Bridgerton na série.

Ao tratar de temas como racismo e homofobia, Quinn destaca que a série opta por uma abordagem que nem sempre coloca o preconceito no centro da narrativa, mas nunca falha em priorizar a representatividade nas telas.

"Quando falamos de preconceito, racismo ou homofobia, Bridgerton nem sempre transforma isso em espetáculo. Nem sempre coloca essas questões em evidência o tempo todo", explicou.

Rainha Charlotte
Rainha Charlotte | Foto: Netflix

A forma como Bridgerton aborda diversidade também aparece em outras decisões criativas, como a inclusão da rainha Charlotte, personagem que não existe nos livros.

Segundo Quinn, a ideia partiu de Shonda Rhimes e teve como base uma figura histórica real, cuja origem levanta debates até hoje. A proposta da série foi imaginar um cenário alternativo - e se uma rainha negra tivesse sido plenamente aceita pela sociedade britânica?

"Eles decidiram dar essa certeza e mostrar como isso impactaria toda a estrutura social", explicou, com poucas referências a essa presença, como em uma conversa entre o Duque Simon Basset e a Lady Danbury.

Rainha Charlotte
Rainha Charlotte | Foto: Netflix

Em geral, a presença de pessoas negras na alta sociedade é completamente incorporada em Bridgerton - exatamente a lógica que deve ser usada para a representatividade queer de Michaela e Francesca.

"Eu já imaginava que uma das histórias acabaria virando queer, e quando me disseram que seria a Francesca e explicaram as razões, fez todo sentido para mim. Quanto à resistência de alguns, não faz sentido", disse a autora.

"Existem tantos livros sobre pessoas heterossexuais, e ninguém se torna hétero por causa disso. Então por que seria diferente no outro sentido?", defendeu.

Mistura de Francesca e Eloise

Muito além das mudanças, no entanto, a história de Francesca é especial para Quinn por uma conexão pessoal. Durante muito tempo, ela se via como uma combinação de três personagens dos livros: Penelope, Eloise e Francesca.

"Eloise porque eu falo sem pensar às vezes. Penelope porque por muito tempo eu senti que não sabia como mostrar por fora quem eu era por dentro. E Francesca porque eu também tenho uma família grande que eu amo, mas às vezes preciso do meu espaço", explicou.

Eloise e Francesca Bridgerton
Eloise e Francesca Bridgerton | Foto: Netflix

Com o tempo, no entanto, essa percepção mudou. "Hoje eu acho que sou mais como Violet", disse, em referência à matriarca da família Bridgerton. "(Os personagens) são muito especiais para mim. É muito difícil escolher, são todos meus bebês”, afirmou.

A comparação com a personagem Violet não é coincidência. Quinn também é mãe, e vê paralelos naturais entre sua vida pessoal e o universo que criou. "Acho que não tem nada melhor do que ser Violet", disse.

O carinho pelas três que resumem quem ela é, no entanto, permanece, tanto na intenção de criar uma temporada justa para Francesca, quanto para cuidar da adaptação já confirmada de Eloise.

Eloise Bridgerton
Eloise Bridgerton | Foto: Netflix

"Aos que gostariam que a (temporada) de Eloise viesse primeiro, pensem assim - quanto mais tempo esperarem, mais Eloise vocês terão. Mas assistam, para que a série seja renovada e venham as temporadas de Hyacinth e Gregory!", brincou.

Quanto a Francesca, Quinn deixou uma pista sobre o que já viu da próxima temporada: "Eu tenho acesso aos primeiros roteiros e posso dizer apenas uma coisa: eles são muito bons".

Futuro da alta sociedade

A certeza, então, é clara - a série não segue a mesma lógica criativa, muito menos a mesma criadora dos livros originais. Mas consegue, no entanto, trazer diferenças que cabem na história e se costuram de maneiras respeitosas com todos os personagens.

Acertar sempre é quase impossível. É justo contestar o "jeito apaixonado" que Francesca já tinha por Michaela enquanto o amor de sua vida ainda estava vivo, e sentir a possível ausência de dois membros da próxima geração dos Bridgerton.

No entanto, também é justo relembrar que as mudanças feitas em nome da diversidade até aqui foram muito bem costuradas. É quase impossível encontrar um fã de Bridgerton que tenha assistido ao spin-off da Rainha Charlotte e ache que a série ficaria melhor sem ela.

Quase impossível, também, acompanhar o romance emocionante de Benedict e Sophie e não enxergar a beleza, a honestidade e o amor que existe na cena em que ele fala sobre sua sexualidade e ela enxerga que todo jeito de amar é válido.

Julia Quinn já é consagrada na mente e no coração de todo fã de Bridgerton pela história e pelo mundo maravilhoso que criou. Os autores da série, por sua vez, dão todos os motivos para que um voto de confiança seja dado.

Com uma atriz tão fiel à Francesca que conhecemos e uma série que já provou que muitas adaptações vêm para melhor, vale a pena confiar e acreditar que, como pede Julia Quinn, Michael e Michaela podem ser amados do mesmíssimo jeito - assim como Francesca, e todos os fãs, se uniram para amar John.

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