Plataforma virtual reúne obras variadas de Reinaldo Eckenberger

Publicado segunda-feira, 21 de junho de 2021 às 06:05 h | Atualizado em 20/06/2021, 19:43 | Autor: Eugênio Afonso

Ao lado do francês Pierre Verger e do também argentino Carybé, Reinaldo Eckenberger, filho de alemães e nascido na cidade de Buenos Aires, faz parte de uma trupe de artistas visuais que adotaram a cidade de São Salvador como morada e a ressignificaram por meio de um olhar estrangeiramente baiano.

Desde que faleceu, em 2017, aos 79 anos, parte da coleção de bibelôs do artista foi para um museu na cidade do Porto, em Portugal, mas Eckenberger também deixou um acervo com centenas de peças e rascunhos de seus trabalhos em seu ateliê no Centro Histórico de Salvador.

Para que o público possa ter acesso a esse material e também à história desse mestre das artes visuais, já está disponível a plataforma virtual Onde está Eckenberger? Inventário de uma Vida - inventariodeumavida.com.

Um projeto com coordenação da artista visual colombiana Elena Landinez e da gestora cultural baiana Luisa Hardman. Foi delas a ideia de compartilhar parte do patrimônio artístico do artista, além de vídeos-depoimentos de amigos e parceiros.

“O projeto se propõe a organizar um inventário da vida e da obra de Eckenberger e disponibilizar isso ao público. Queremos provocar uma espécie de mergulho nesse universo eckenberguiano, não nos atendo somente à obra, mas trazer também a dimensão humana desse artista tão importante para a cena das artes visuais na Bahia e no Brasil”, relata Elena.

No endereço eletrônico, podem ser conhecidas uma infinidade de itens relacionados à vida e obra do argentino. São rascunhos, ferramentas, azulejos, obras em processos, livros, coleção de óculos, fragmentos de bibelôs, além de muitos álbuns de fotografia.

É possível também visitar de maneira virtual o ateliê do artista e dar um mergulho em textos críticos sobre o vasto trabalho do argentino.

Radicado na capital baiana desde a efervescente década de 1960, o argentino que estudou arquitetura e artes plásticas, dedicou-se, durante boa parte de sua vida, à criação de desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, muitos bibelôs, e trabalhos em tecido.

A obra, além de expressiva, é extremamente erotizada. São comuns objetos em que aparecem figuras humanas em cenas de sexo oral, carícias íntimas, perversão, fetiche. Eckenberger gostava de provocar com temas tabu, como sexualidade infantil e transgressão.

“Tem traços que são bem característicos no seu trabalho, como a presença do feminino, da mãe, da sexualidade, da dualidade, de questões que nos trazem certo incômodo e de uma possível conexão com a psicanálise”, pontua Elena Hardman.

“Ele é um artista bastante complexo e, ao mesmo tempo, muito simples. Falar do trabalho dele é um desafio porque é algo gigante”, diz.

Para ela, na Europa a arte de Eckenberger seria classificada como arte bruta (algo produzido fora da influência de estilos tradicionais). “Uma classificação que nasceu na França e não existe aqui. Ele traz um pouco do desejo do sexo, da tragédia que é ser humano, tudo sem nenhum tabu. Mas ele traz tudo isso com leveza, com muito humor. Chamamos sua arte de realeza cotidiana. É um humor bastante argentino e irônico”, analisa.

Paixão pelo barroco

Para Luisa, Eckenberger carrega a singularidade do artista estrangeiro que chega à capital baiana e decide se instalar no centro histórico da cidade, sobretudo por sua atmosfera barroca.

“Tenho a sensação que em Salvador se apresentou uma possibilidade de vida e criação com muita liberdade, um espaço muito profícuo de histórias, um território com muitas camadas. Acredito que ele ficou bastante envolvido com essa dimensão histórica e misteriosa dessa cidade que guarda em si tanta intensidade”, discorre Hardman.

Já Elena acredita que Eckenberger escolheu Salvador porque encontrou aqui um lugar em que podia expressar livremente sua homossexualidade e porque a cidade tem um pouco da Europa que ele tanto amava.

“Ele era um artista que produzia incansavelmente e todo ano viajava para França, Portugal e Alemanha. Eu, também, como estrangeira, me identifico muito com a Bahia. A Bahia é um lugar que tem a magia e a arte do encontro”, finaliza Landinez.

Com identidade visual da TANTO - criações compartilhadas e material audiovisual da pesquisadora Agnes Cajaíba, o projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia, via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

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