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Roque Ferreira apresenta CD de inéditas

Publicado segunda-feira, 13 de abril de 2015 às 11:11 h | Atualizado em 13/04/2015, 11:11 | Autor: Daniela Castro
Roque Ferreira
Roque Ferreira -
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Tem gente que jura de pé junto que Roque Ferreira é pai de santo. Ele ri e garante: "Nunca fui num candomblé. Eu sou agnóstico, não acredito em Deus, em nada". Mas logo reconsidera e arremata: "Acredito na ciência e na beleza".

A fé no belo, portanto, é a fonte na qual o compositor baiano bebe para criar suas músicas, que já passam de 400 em mais de 50 anos de carreira. Treze delas acabam de ser registradas no CD Terreiros, que ganha lançamento sexta, na Casa do Benin, em evento exclusivo para convidados.

O título é auto-explicativo. Neste disco, Roque Ferreira passeia pelas fronteiras do samba, do candomblé e da capoeira, temas caros à sua produção desde os tempos em que a música era apenas uma atividade complementar à profissão de publicitário.

Viço novo

Ao mesmo tempo em que reitera a relação do compositor com o universo da cultura negra, o trabalho traz viço novo. Todas as faixas são inéditas. E esta é apenas a segunda vez em que Roque Ferreira canta suas próprias composições - a primeira foi em 2004, quando a Biscoito Fino lançou Tem Samba no Mar.

Por ele, que já foi gravado por Clara Nunes, Beth Carvalho, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Maria Bethânia, Alcione, Roberta Sá e Dudu Nobre, isso não é problema. "Eu não sou cantor, nem tenho essa ambição", minimiza.

Mas o músico Júlio Caldas pensava diferente quando quis submeter o projeto de Terreiros ao Fundo de Cultura da Bahia, há três anos. "Não era possível um compositor, que é gravado por todos os sambistas, só ter um disco", avalia Caldas, que assina produção e arranjos.

Crônica do cotidiano

O projeto nasceu de um demo que seria enviado à Biscoito Fino, mas acabou voltando para a gaveta por conta de um impasse. "Eles queriam que fosse gravado no Rio e Roque queria que tivesse a cara da Bahia", lembra Caldas.

Um dia atrás do outro, a proposta foi mudando até não parecer em nada com a que havia sido encomendada pela gravadora carioca. "Ficou completamente diferente. Mas eu não tinha apego ao repertório, e sim à figura de Roque", diz Júlio Caldas.

O público vai continuar sem saber exatamente como seria aquele disco. Mas essa dúvida fica em segundo plano depois de ouvir sequências como Folha Miúda/Sabina do Amor Divino/Cabelo Cacheado/Mulher Oferecida, que inaugura os trabalhos.

Idem para Roda Baiana, Beabá da Vida, Imboladeira, Vou Correr Mar e Bia na Roda, outros belos exemplos da combinação de cultura popular com brejeirice e uma dose sutil de sensualidade, em tom de crônica do cotidiano.

Também não dá para passar batido por Doce, homenagem a Dorival Caymmi que surge em forma de acalanto, com a voz de Roque Ferreira embalada apenas por violão de sete cordas e bandolim.

Rato de sebo

No final do encarte, um glossário dá conta do vocabulário de origem africana que povoa as letras. Coisa típica de alguém que, para ser compositor, é antes um pesquisador contumaz.

"Sou um rato de sebo. Meu disco está impregnado disso. Tudo isso é conhecimento teórico. Não tenho compromisso com religião nenhuma, meu compromisso é cultural", defende Roque Ferreira.

Por contraditório que pareça, a falta de compromisso religioso desemboca num discurso de devoção estética. "Minha intenção quando componho com esses temas é difundir, valorizar e respeitar. Não me aproprio. Sou um defensor intransigente do candomblé", reforça o compositor.

Defende de um lado, ataca de outro. Roque Ferreira aproveita também para dar suas alfinetadas no mercado da música baiana. Acha que o pagode "sujou" o samba ao se apropriar de uma expressão utilizada para falar de um encontro de bambas. E que profanaram a palavra "axé" quando associaram ao estrangeirismo "music".

Compositor

É por essas e outras que o artista não coleciona apenas fãs. "Arrumei tanto inimigo! Porque sou autêntico, não sou de arrodear. Falo na cara. Eu não sou diplomata, sou compositor de samba", dispara.

Mas experimente tocar no nome de Maria Bethânia. Os olhos de Roque Ferreira se iluminam ao lembrar que, no dia 10 de junho, ele fará participação especial em uma homenagem promovida pelo Prêmio da Música Brasileira, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, pelos 50 anos de carreira da cantora.

"Digo que ela anda por cima das águas, é uma entidade. Para ela, eu tenho que cantar de joelhos",  diz ele, sobre sua única musa inspiradora.

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