ECONOMIA
Animosidade dificulta parceria entre TV paga e teles

Por Agencia Estado
O discurso de parceria entre operadoras de TV Paga e de telefonia defendido pelo diretor executivo da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), Alexandre Annenberg, pode nunca se concretizar. O debate promovido hoje durante a feira e congresso ABTA 2006 deixou claro que faltam regras para regular o novo ambiente do setor, uma vez que a convivência dos setores convergentes não parece amistosa.
Hoje, Annenberg voltou a defender a atuação conjunta entre os segmentos para que ambos possam alcançar o conceito de triple play - provedor de TV, banda larga e voz. Ele criticou mais uma vez a regulamentação atual e defendeu a atualização das regras do setor. No entanto, por acreditar que não há um cronograma aceitável de modernização da regulamentação, a saída vislumbrada por Annenberg é justamente a operação em conjunto. "A ameaça de uma competição sangrenta pode ser substituída por uma saudável parceria, na qual acionistas e consumidores só terão a ganhar."
Apesar do discurso da associação setorial, o primeiro painel do congresso deste ano deixou evidente que o clima entre os setores não é de cumplicidade. O presidente da líder de mercado - a Net -, Francisco Valim, repetiu a temática do ano passado da disputa desequilibrada que seria a entrada das operadoras de telefonia no mercado de TV por assinatura por meio de IPTV, afirmando que as teles fariam dumping deste serviço, para fidelizar os clientes em telefonia e banda larga e evitar a perda destas receitas.
O desequilíbrio estaria na diferença de tamanho das companhias. Enquanto todo o setor de TV por assinatura reunido teve um faturamento bruto de R$ 4,7 bilhões em 2005, a Brasil Telecom teria arrecadado mais de R$ 15 bilhões, a Telemar, mais de R$ 23 bilhões, e a Telefônica, cerca de R$ 20 bilhões.
Além disso, Valim afirmou que a entrada das companhias de cabo no mercado de voz, por meio da telefonia IP (VoIP) foi a única alternativa de competição para o segmento monopolista de telefonia local, enquanto no setor de TV paga sempre houve concorrência.
"Os espelhos quebraram e nós tivemos sete anos de azar, sem competição na telefonia fixa, até que as cabos entraram neste mercado. Nossa operação em telefonia tem incomodado mais o ego do que o balanço das concessionárias." O executivo seguiu nas críticas afiadas às operadoras e na defesa de seu mercado. "A TV por assinatura nasceu no fogo redentor da competição, enquanto as teles são monopólio. Esse é o único paradigma que precisa ser quebrado."
Apesar de ser o único representante das concessionárias presente ao painel, o presidente da Brasil Telecom, Ricardo Knoepfelmacher, respondeu aos comentários do executivo da Net. "O Valim esqueceu que hoje ele é Telmex, que também é tele e também é grande. Esse discurso dele cola mais na Net antiga, naquela que era Globocabo, e não na nova. Eles (mexicanos) podem estar usando vocês (Net)."
A gigante mexicana é controladora da Embratel e detém 43% do capital da Net, além de seu braço de telefonia móvel ser a terceira maior empresa de celular no País. "O jogo mudou. Não é mais de grandes contra pequenos sendo esmagados. É briga de gigantes sim. Basta ver o avanço da Telmex aqui."
Dado o recado, Knoepfelmacher destacou que seu preço em TV por assinatura seria mais competitivo e beneficiaria o consumidor porque ele possui escala significativamente maior e não porque faria dumping. "Não vou ficar me criticando por ser grande. A Brasil Telecom é grande mesmo e isso é bom", enfatizou.
Segundo ele, a entrada das operadoras de telefonia em IPTV traria crescimento ao setor, o que seria positivo para todos os participantes. Na área de concessão da Brasil Telecom, segundo o executivo, a penetração de banda larga é maior que a de TV Paga.
Knoepfelmacher disse que não se opõe ao modelo de parceria. "Não entendemos de conteúdo e de programação." No entanto, mostrou-se arredio ao entendimento da ABTA, de que quem deve fazer a venda e a entrega do serviço de IP
operadoras porque afetaria o modelo publicitário.
Embora os demais representantes do setor de TV Paga presentes na mesa do congresso da ABTA admitam a convergência como uma realidade inexorável, todos defendem unanimemente a proteção deste mercado das teles.
"Tem que se evitar que as telefônicas entrem", afirmou a diretora superintendente da TVA, Leila Lória. Segundo ela, somente as companhias de TV é que têm condições de gerenciar a enorme complexidade que é a relação com um cliente deste tipo de serviço. O presidente da companhia de satélite Sky DirecTV, Luiz Eduardo Baptista, alinhou seu discurso ao da executiva da TVA e disse que o assinante exigirá a simplicidade da convergência, mas com a garantia da qualidade individual dos serviços oferecidos.
"O que vai acontecer (convergência) não é ameaça, mas sim como vai acontecer", disse Baptista. Ele defendeu, assim como os demais, o cuidado com o setor diante da força financeira das teles. "Elas têm uma geração de caixa boçal e se resolverem oferecer TV por assinatura de graça vão acabar com a competição no longo prazo, pois as companhias menores irão quebrar." Embora acredite que a parceria seja possível, ele assume que o desenvolvimento de um modelo de negócios que abrigue todos os interesses envolvidos pode levar de dois a três anos.
As operadoras de telefonia estão buscando entrar no segmento de TV por assinatura por acreditarem que o segmento de voz é declinante e deve morrer no futuro, sendo fornecido praticamente de graça ao consumidor, junto com outros serviços de valor agregado. Esta é a perspectiva de Knoepfelmacher, da Brasil Telecom.
Leila, da TVA, vislumbra cenário semelhante, apesar de apontar as teles como gigantes que podem trazer desleal competição ao setor. Segundo ela, o advento do VoIP não está redistribuindo receita de voz no mundo, mas sim eliminando. Além disso, as companhias de TV Paga já são triple play, oferecendo voz em parceria com as operadoras (Net e Embratel e TVA com Telemar).
Enquanto as soluções regulatórias não aparecem, as empresas se arriscam por caminhos diferentes. A Brasil Telecom fará investimentos em parceria com um dos seus fornecedores, a Nec. Knoepfelmacher disse que também está conversando com companhias do setor para a oferta de IPTV, mas não forneceu nem nomes e nem detalhes.
A Telemar comprou uma pequena operação mineira de cabo, a Way Brasil. A iniciativa, porém, promete levantar debate. Há quem diga que o investimento seria apenas um teste sobre o entendimento da Anatel a respeito de seu alvo principal, a TVA, e também para ganhar experiência no gerenciamento do novo negócio.
A Telefônica, que por ter capital estrangeiro não pode fazer investidas em cabo, pediu ao órgão regulador uma licença de satélite (DTH), para replicar no Brasil o mesmo modelo utilizado por ela no Chile e no Peru. A companhia aluga o satélite para as atividades nestes outros países latino-americanos e compartilharia o mesmo veículo para a transmissão no País, otimizando os gastos.
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