MERCADO
Bahia tem déficit de mais de 4,8 mil engenheiros
No Brasil, a carência é de 130 mil profissionais para os próximos três anos
Por Joana Lopes

O Brasil precisa qualificar 130.366 engenheiros nos próximos três anos para atender a demanda do mercado de trabalho. Embora pareçam abundar as instituições de ensino superior nessa área, o país tem carência de engenheiros civis; engenheiros de produção, qualidade e segurança; engenheiros eletricistas, eletrônicos, químicos, mecânicos e ambientais; engenheiros de minas; engenheiros metalurgistas, de materiais e afins; engenheiros de alimentos; engenheiros agrimensores e engenheiros cartógrafos.
Os dados são do Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na Bahia, que deve receber em breve uma fábrica multinacional de carros elétricos, entre outros investimentos, o déficit é de 4.804 profissionais.
As áreas com maior demanda estão na indústria. Até 2027, logística e transporte têm a maior projeção de emprego, com previsão de contratar 4 milhões de trabalhadores. Em seguida, destacam-se construção (2,2 milhões de vagas), áreas transversais (1,8 milhão), metalmecânica (1,6 milhão) e manutenção e reparação (1,4 milhão).
“Além disso, as ocupações correlatas são categorizadas pelo caráter transversal e pela relevância para os diferentes setores, como cientistas de dados e engenheiros da computação”, acrescenta Anaely Machado, especialista em Mercado de Trabalho do Observatório Nacional da Indústria e responsável pela elaboração do Mapa do Trabalho Industrial. Anaely Machado diz que os números evidenciam uma tendência de crescente demanda por serviços de manutenção, reparo e desenvolvimento tecnológico, impulsionados pela transformação digital e pela manutenção de infraestrutura industrial.
“Com a digitalização de todos os segmentos de mercado, toda a questão de engenharia de bancos de dados ficará cada vez mais em evidência. E até mesmo a engenharia civil se insere nesse cenário, no que tange à infraestrutura de alojamento, desde um edifício para os supercomputadores até a logística de conectividade”, acrescenta Josiane Dantas, superintendente executiva de Educação e Ciência do Senai Cimatec.
Segundo ela, a sustentabilidade também dita oportunidades no setor, com os debates globais e pressões em prol da transição energética e outras medidas que reduzem a emissão de gases de efeito estufa. “Esse é um tema de aprofundamento principalmente para quem quer trabalhar em grandes multinacionais, que estão muito alinhadas com essa agenda. Da concepção de um novo processo até a construção de uma planta industrial, tudo deve passar por processos mais sustentáveis, que reduzem a pegada de carbono daquela atividade”, explica Dantas.
Oferta e demanda
Além da migração de profissionais para trabalhar no exterior, as especialistas identificam uma outra causa para o descompasso entre oferta e demanda de trabalhadores nas engenharias: a área não é a primeira opção dos jovens, que ainda se inclinam mais para cursos de Direito ou Medicina.
Elas contam que as disciplinas de física e cálculos desestimulam muitos alunos e há evasão já no primeiro semestre dos cursos universitários. Dantas considera que uma solução é introduzir as matemáticas mais cedo na educação básica, com uma carga horária maior. Nesse sentido, um dos projetos do Senai Cimatec é apresentar a matéria no ensino fundamental 2, principalmente com foco nas meninas, já que ainda há uma grande brecha de gênero nas carreiras relacionadas à matemática, engenharia, ciência e tecnologia, em geral.
Por outro lado, Mônica Vargas, superintendente Nacional de Operações e Atendimento do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), acredita que é preciso desmistificar a ideia de que Engenharia só tem a ver com números.
“Os setores de tecnologia e inovação demandam, cada vez mais, capacidade de resolução de problemas, o que envolve conhecimentos de muitas outras áreas. Por isso, é fundamental focar no desenvolvimento de soft skills que ajudem a saber pensar melhor. Mais do que desenvolver inteligências artificiais, os profissionais devem saber fazer as perguntas certas para essas tecnologias”, defende.
Anaely Machado, da CNI, considera que uma formação integrada deve combinar competências técnicas específicas e habilidades transversais, o que inclui capacitação em áreas como logística, construção, metalmecânica, manutenção e tecnologia da informação, com foco em ferramentas digitais, automação e conceitos da Indústria 4.0. “Também é crucial que a formação seja flexível e conectada ao mercado, oferecendo educação continuada, certificações específicas e oportunidades práticas como estágios, oficinas e mentorias”, diz.
Mapa do Trabalho
Essa necessidade de formação continuada está refletida nas projeções do Mapa do Trabalho Industrial. Estima-se que 11,8 milhões de trabalhadores precisarão de treinamentos e desenvolvimento para se atualizarem e complementarem suas competências nas funções que já desempenham na indústria e em áreas correlatas em outros setores no Brasil. Desse total, 5,3 milhões de treinamentos voltados para desenvolvimento das habilidades técnicas e específicas necessárias para a execução de tarefas profissionais.
“Exemplos de competências nesse grupo incluem o domínio de máquinas e equipamentos industriais, conhecimentos em programação e automação, habilidades em controle de qualidade, e o uso de softwares específicos. Em setores como tecnologia e manufatura avançada, habilidades em análise de dados, robótica e manutenção de sistemas complexos também são fundamentais para acompanhar a evolução tecnológica”, argumenta a especialista.
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