ECONOMIA
Conciliar negócio e emprego requer planejamento e ética

Por Paula Janay

Conciliar um emprego formal com um negócio próprio exige disciplina, ética, engajamento com o negócio e, principalmente, planejamento para a administração do tempo. Apesar do desafio ser grande, a estratégia pode ser necessária e até um passo importante para vencer os estágios iniciais de um empreendimento.
Os sócios Lucas Góes e Karen Uchôa, proprietários da marca de acessórios Matilda, Amor em Potinhos, conciliaram por quase um ano a manutenção da marca com o trabalho em agências de publicidade. Hoje em dia, os dois tocam somente o negócio em conjunto. Mas nem foi sempre assim. Quando perceberam que a marca estava dando frutos, Karen saiu do emprego para se dedicar apenas à empresa, mas Lucas teve que continuar conciliando as duas carreiras até maio deste ano.
"A palavra chave foi dedicação. É preciso gostar do que se está fazendo. Tivemos que organizar bem o tempo. Confesso que muitas vezes abria mão do sono e de sair, ir para festas, mas com a consciência de que estávamos investindo tudo na marca para desenvolvê-la", afirma Lucas Góes. Definir as atividades e tarefas da empresa semanalmente foi essencial para que os sócios aproveitassem com mais eficiência o pouco tempo disponível.
Ética no trabalho
Ser empreendedor e empregado ao mesmo tempo traz desafios que só podem ser superados com transparência, afirma a gerente da Unidade de Atendimento Individual do Sebrae-BA, Fernanda Gretz. É indicado que o empreendedor comunique ao seu chefe a existência da empresa. "É preciso deixar bem claro como será sua rotina. E também que irá cumprir suas oito horas de trabalho e só realizar atividades do negócio próprio após o expediente. No trabalho, a pessoa precisa focar nos resultados do empregador e agir de uma maneira ética".
Essa transparência gera uma relação de confiança que pode garantir a flexibilização dos horários no futuro. Pedir a redução de horário para um turno foi a solução encontrada por Solange e Flávio Carvalho, da marca de estamparia Sublima, para conciliar todos os planos do casal. Além da marca, Flávio possui uma agência de publicidade e Solange trabalha um turno como gerente comercial da Minilab.
"Tudo é muito desafiador. Há o trabalho na Minilab, o maior tempo que quero dedicar à minha filha, e a Sublima. Tudo melhorou com o fato de poder estar trabalhando em casa. Mas acabamos trabalhando até mais. No final de semana a cabeça não para, sempre surgem ideias, tanto para a arte quanto para o comercial", conta Solange.
Além da jornada de trabalho ampliada, estar fora do negócio durante o horário comercial faz com que um colaborador de confiança seja necessário para as demandas urgentes que podem surgir, afirma a especialista do Sebrae-BA. "Orientamos que o empresário tenha sempre uma pessoa de confiança, mesmo alguém do ambiente familiar, para quem ele possa recorrer naqueles problemas mais urgentes da empresa", afirma Fernanda Gretz.
A hora de decidir
Outro desafio importante ao conciliar o trabalho formal com o empreendedorismo é saber a hora certa de abrir mão da estabilidade de um trabalho de carteira assinada para se lançar e apostar no seu negócio. A "hora certa" pode vir quando o negócio gera retorno financeiro suficiente ou quando a demanda de trabalho for muito grande.
"Quando percebo que não estou conseguindo dar conta nem do meu trabalho nem a minha empresa, terei que tomar uma decisão. Ou vou sair da empresa ou do trabalho. Quando chega essa hora, o empreendedor vai escolher a atividade que vai dar o maior retorno financeiro ou a maior realização profissional", afirma a gerente da Unidade de Atendimento Individual do Sebrae-Ba, Fernanda Gretz.
Nem sempre a troca será pelo trabalho que gera maior remuneração, afirma Gretz. É possível que a decisão seja baseada na maior realização profissional e na expectativa de que com maior dedicação de tempo, o negócio próprio vá render financeiramente em um futuro próximo.
Para o empresário Lucas Góes, da marca Matilda, não existe o momento certo. A decisão deve ser tomada com a percepção que uma das atividades não está mais satisfazendo os objetivos de vida da pessoa.
"São junções de alguns fatores que tivemos que analisar. O empreendedor precisa ter claro qual a sua satisfação no emprego e se a marca vai poder te dar o mínimo de suporte financeiro para continuar. Se não tiver, não adianta largar o emprego. É necessário ter dinheiro para investir".
Apesar disso, Lucas acredita que não adianta esperar o momento que se tenha segurança emocional nos resultados. "A segurança nunca vem, você faz as coisas com medo mesmo. É preciso arriscar".
Afinidade é essencial
Ao empreender, os especialistas em novos negócios recomendam que o empresário tenha afinidade com a área em que está investindo dinheiro e tempo de trabalho. Essa dica, se torna ainda mais importante quando uma segunda ocupação está em jogo. "Para quem está conciliando as duas coisas, isso é ainda mais importante. O empreendimento próprio vai exigir uma energia adicional. E essa energia só vai aparecer se for para uma atividade que ele goste", diz Fernanda Gretz.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes



