Guerra na Ucrânia já afeta cenário econômico baiano e nacional

Setores já sentem efeitos dos conflitos, que não têm prazo para acabar

Publicado quarta-feira, 30 de março de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 29/03/2022, 17:45 | Autor: Daniel Brito
Agricultura foi um dos setores que mais sentiu efeitos da guerra
Agricultura foi um dos setores que mais sentiu efeitos da guerra -

Pouco mais de um mês após o início dos conflitos entre a Ucrânia e a Rússia, a conta nos diferentes setores da economia nacional e baiana já começou a chegar. Os efeitos são diversos e, basicamente, seguem uma reação em cadeia que, no final, acaba penalizando a parte mais vulnerável: o consumidor, que precisa lidar com preços mais elevados em diversos segmentos, entre eles alimentos e combustíveis.

Esses preços altos, portanto, são reflexo de uma guerra que, além de dizimar vidas, afeta negativamente o cenário econômico mundial. Ouvidas pelo Portal A TARDE, diferentes entidades baianas e nacionais foram unânimes em afirmar que, quanto mais tempo durar, piores e mais duradouros poderão ser os efeitos.

A Rússia e a Ucrânia têm participação fundamental no mercado internacional, pois são países exportadores das chamadas commodities, que são produtos básicos globais não industrializados e que não se diferenciam nos locais em que são produzidos. Entre eles, estão o trigo, o milho, cereais, petróleo, gás natural e carvão. 

Nacionalmente, entretanto, a maior dependência brasileira da Rússia é em relação a adubos e fertilizantes, itens essenciais para a produção agrícola: eles respondem por 62% de todas as importações brasileiras, segundo dados do Ministério da Economia. 

Exportações x importações baianas

No caso da Bahia, quantitativamente, as importações da Rússia não são muito significativas, segundo o superintendente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Vladson Menezes. “Temos os fertilizantes e também os produtos derivados do petróleo, principalmente em massa, que vão ser utilizados na petroquímica. Eles não são 2% das importações do estado”, pontua. 

O cenário de exportações também não é muito diferente em nível regional. “Quantitativamente, a Rússia representa menos de 0,2% das exportações da Bahia, o que é muito pouco. Exportamos ferro silício, um pouco de café e alguns poucos produtos químicos. Isso é muito pouco”, ressalta Vladson, mas ele adverte que isso não significa que o estado não está sentindo as consequências da guerra. 

Para ele, três elementos afetam os negócios de maneira geral: a duração dos conflitos, a falta de produção de commodities nos dois países e a volatilidade dos preços, ou seja, uma variação constante de valores que se alterna para cima e para baixo o tempo inteiro, com as expectativas de que a guerra seja finalizada, o que acaba não se concretizando.

“As pessoas não sabem o que vai acontecer. Então, em determinado momento, há um sinal de melhora e o preço cai. Depois, no dia seguinte, piora e o preço sobe de novo. Com essa volatilidade, aumentam as incertezas. Não se sabe exatamente quais são as perspectivas e isso também trava negócios, reduz a confiança. Esses elementos criam dificuldades para a economia em geral e baiana em particular, mais até do que uma simples redução de exportações e importações”, acrescenta.

Para 2022, a Fieb estimava, no final do ano passado, um crescimento de 2% na indústria de transformação baiana, contra 0,5% projetado para a indústria nacional. Vladson admite que o crescimento pode ser menor do que o esperado, mas lembra que um cenário de queda absoluta, totalmente inverso, não é possível, pois a recuperação decorrente da melhora do cenário da pandemia de Covid-19 é consistente. Segundo ele, devido aos acontecimentos da guerra serem recentes, ainda não é possível analisar com maior profundidade as consequências totais em toda a indústria. 

Alta dos combustíveis afeta agronegócio

Um dos setores mais afetados pela guerra na Bahia foi o agronegócio. Para se ter uma ideia da importância do segmento, no ano de 2021, o PIB do setor baiano registrou crescimento de 5,4% em 2021, totalizando R$ 94,2 bilhões ou 27,1% da atividade econômica do estado. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira, 28, pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) e apontam também um aumento de 4,1% na comparação com 2020, ou seja, um salto de 23,6% para os atuais 27,1%.

No entanto, ao mesmo tempo em que a participação do setor na economia estadual cresce, o preço dos combustíveis também aumenta. Recentemente, a Acelen, operadora da Refinaria Mataripe, reajustou em R$ 0,15 o preço do litro da gasolina A, e em R$ 0,56 o preço do litro do diesel S10 para as distribuidoras.

De acordo com o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), Humberto Miranda, esses sucessivos aumentos já têm trazido impactos na produção, pois o transporte rodoviário é o principal meio de deslocamento dos insumos que vão para o campo e de toda a produção que vai do campo para as cidades. 

“Então imagine quanto fica para trazer um carregamento de cebola da região do Vale do São Francisco, no Mercado do Produtor de Juazeiro. O frete custava R$ 3 mil, hoje com certeza está entre 60% e 70% mais caro. Tudo isso por conta do aumento do combustível. Naturalmente vai encarecer a batata, a melancia, tudo o que é produzido tanto na agricultura familiar quanto na empresarial”, adverte. 

Fertilizantes

Os fertilizantes, como o próprio nome diz, são compostos químicos utilizados na agricultura com o objetivo de aumentar a quantidade de nutrientes no solo de plantio, ou seja, para torná-los mais férteis e, dessa forma, aumentar a produtividade das lavouras.

Os do tipo nitrogenado são os mais utilizados em larga escala, ou seja, nas grandes plantações agrícolas, sendo a ureia o que mais sofreu variação percentual em seu preço no intervalo de tempo que começa pouco antes da guerra e vai até depois do início do conflito: 67,5% entre os dias 18 de fevereiro e 18 de março, revela a coordenadora do Núcleo de Inteligência de Mercado da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Natália Fernandes. 

Outros tipos de fertilizantes também tiveram aumento no preço: o fosfato monoamônico subiu 31% e o cloreto de potássio subiu cerca de 27,5% no mesmo período.

Negócios menores afetados

Apesar de atingirem com força a agropecuária, os efeitos da guerra também bateram na porta de negócios considerados de menor porte, especialmente no comércio de itens para plantio em pequena escala. Proprietário de uma loja de cultivo urbano em Salvador, onde comercializa fertilizantes, Ricardo Teixeira revela que 80% de seus produtos são importados de diferentes países. 

Com o início dos conflitos, conta ele, fornecedores começaram a chamar a atenção para a mudança na tabela de preços envolvendo as origens russas dos itens, o que deixou os varejistas preocupados. Para o caso de um fertilizante importado, houve um aumento de 20%, o que vem levando Teixeira a adiar a reposição do estoque dessa marca em específico. 

"Venho protelando a minha compra comum. Se não fosse essa questão do aumento de preços, já teria realizado os pedidos, pois meu estoque já está baixando e preciso repor. Como tivemos uma majoração [de 20% na tabela], o fornecedor aumentou o preço. Não quero pagar esse aumento porque, do contrário, eu teria que repassar para o cliente final, e isso significa vender menos, pois o produto ficaria mais caro”, projeta.

Fertilizantes vendidos pela loja de Ricardo
Fertilizantes vendidos pela loja de Ricardo |  Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE
  

Enquanto o preço não abaixa, a solução encontrada por ele foi priorizar um fornecedor nacional. "Ele possui componentes importados, claro, mas pelo fato de ser fabricado aqui no Brasil, consegue me dar uma condição de segurar o preço e trabalhamos o estoque com ele", conta, observando que, caso a guerra tenha um fim e os preços diminuam, o consumidor não sentirá nenhuma diferença na compra do fertilizante de marca importada.

Alternativas na produção

Com a guerra e seus efeitos na economia mundial, representantes do setor agropecuário avaliam que a dependência brasileira do mercado internacional em relação aos fertilizantes ficou escancarada. Em uma tentativa de solucionar o problema a longo prazo, o governo federal lançou, no dia 11 de março, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), iniciativa que tem o objetivo de reduzir para 30%, até o ano de 2050, a dependência de todo o fertilizante importado do país. Atualmente, esse percentual é de 86%.

Entre as medidas, estão a concessão de incentivos tributários, o estímulo à construção e conclusão de fábricas de fertilizantes, a criação de linhas de financiamentos com bancos públicos e privados, além da agilização de licenças ambientais de jazidas.

A iniciativa é vista com bons olhos pelo presidente da Federação Baiana de Agricultura. Ele analisa que a exploração “racional” das minas brasileiras pode elevar para 50% a produção nacional dos fertilizantes. Porém, Humberto Miranda defende também um investimento em tecnologia para a produção dos chamados bioinsumos, que são organismos vivos, como bactérias, plantas ou insetos.

“Um exemplo são as algas marinhas, que estão sendo testadas em alguns estados da região Sudeste e, em breve, serão testadas aqui no Nordeste. Isso traz sustentabilidade à produção. Teríamos um ingrediente retirado da própria agricultura brasileira, que gera uma segurança do ponto de vista ambiental porque não precisaríamos utilizar tantas minas, e essa seria até mesmo outra oportunidade de se libertar desse grande grau de dependência das exportações”, avalia.

Presente nos estados da Bahia (Camaçari, no Pólo Petroquímico) e Sergipe (município de Laranjeiras), a Unigel Agro arrendou as antigas Fafens (Fábrica de Fertilizantes do Nordeste) da Petrobras e, desde 2021, atua na produção dos fertilizantes nitrogenados, sendo a ureia seu principal destaque. Em meio ao cenário de guerra, porém, a companhia tem buscado meios de aumentar a fabricação, e uma dessas alternativas é a produção do sulfato de amônio, um outro tipo de fertilizante.

Segundo o diretor de relações com investidores da Unigel, Luiz Felipe Fustaino, o sulfato de amônio já possuía uma planta de produção na Fafen de Sergipe e a companhia já pretendia retomá-la antes do cenário pré-guerra. O contexto atual, diz ele, acelerou as projeções de retomada. “Mas, para retornarmos, precisamos da matéria-prima, que é o ácido sulfúrico. Hoje, ainda somos importadores. Estamos investindo em uma nova fábrica de ácido sulfúrico e esse já era um plano da companhia, que faríamos mesmo antes da guerra, e os planos não mudaram com ela”, revela.

Incertezas prejudicam otimismo

Todas as expectativas giram em torno de um fim para a guerra entre os dois países. Porém, nos últimos dias, elas têm sido frustradas em razão da falta de avanços reais nas negociações, devido a divergências entre ambas as partes. A coordenadora da CNA analisa que, embora houvesse expectativas, no início, de que o conflito não fosse adiante - e mesmo que aconteça um cessar fogo nas próximas semanas -, a recuperação dos mercados de grãos e fertilizantes não será imediata.

“Os preços não vão voltar a cair por causa das sanções do ocidente para a Rússia, que já foram aplicadas, e que devem ainda trazer uma incerteza, mesmo que aconteça um cessar fogo nos próximos dias. Falando de trigo e milho, como Rússia e Ucrânia são importantes produtores, devemos ter uma alteração no balanço de oferta e demanda desses produtos porque deve haver uma restrição de exportação, tanto de trigo quanto de milho”, explica.

Natália ressalta ainda que, no caso da Ucrânia, há uma safra de trigo com previsão de ser colhida em meados de julho, e ainda não se sabe se ela conseguirá ser colhida, como estão as condições da lavoura, se haverá mão-de-obra suficiente e se ela será exportada. O mesmo vale, segundo a representante da CNA, para uma safra de milho no país, cuja previsão de plantio é o mês de abril. Há estimativas, em resumo, de que a safra ucraniana será menor, pois regiões produtoras têm sido afetadas pelos ataques russos, o que põe em xeque a capacidade de produção devido à falta de maquinário, mão-de-obra e insumos. 

Para Vladson, da Fieb, a interrupção na produção e as sanções econômicas agravam os cenários mundial, nacional e estadual. “Quem produz não está conseguindo produzir e, se consegue, não coloca no mercado. E o que acontece? A inflação no mundo é afetada por isso. E o fato de existir esse aumento na inflação mundial fará com que aconteçam várias rodadas internacionais de aumento da taxa de juros. Desacelera a economia mundial, não só porque se produz menos nesta região e vai afetar outros fornecedores, mas também porque a reação de combate à inflação, com aumento de juros, faz com que as pessoas comprem menos, o endividamento aumenta, a economia desacelera e isso atinge a Bahia e o Brasil”, enfatiza.

Humberto Miranda, da Faeb, é taxativo em dizer que, quanto antes os conflitos tiverem um fim, melhor, apesar das perdas já acumuladas em pouco mais de um mês. “Se a guerra terminar hoje é melhor do que terminar daqui a uma semana, porque o prejuízo depois já será maior. O crescimento nesse período, para a economia e para a nossa produção, é proporcional ao tempo de duração desses conflitos”, ressalta.

Fustaino, da Unigel, também se preocupa com a duração da guerra. Segundo ele, para a companhia, as produções e as perspectivas de resultado para o ano não mudaram, mas as atenções se voltam para o fato de que um prolongamento da situação poderia produzir um cenário de estagflação, ou seja, quando há altas taxas de inflação e, ao mesmo tempo, estagnação econômica. Porém, para ele, isso ainda não está no horizonte.

“É, do lado do custo, ocorrer uma inflação do petróleo e das matérias-primas e, do outro, as economias globais - incluindo a brasileira - desacelerarem. A demanda das famílias diminui, há um cenário de deterioração de resultados, mas isso ainda não estamos vendo. A perspectiva de resultados [da Unigel] é semelhante ao cenário pré-guerra, mas uma guerra longa começa a impactar a demanda das famílias e isso seria ruim para a economia como um todo. Mas não estamos enxergando ainda”, finaliza.

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