Milho é uma das estrelas na mesa típica de São João

Publicado segunda-feira, 21 de junho de 2021 às 06:03 h | Atualizado em 20/06/2021, 19:55 | Autor: Miriam Hermes

No ápice dos festejos juninos, que pelo segundo ano consecutivo são restritos a reuniões domiciliares por causa da pandemia, os alimentos típicos estão presentes em grande parte das mesas dos baianos, com participação especial do Zea mays, nome científico do milho.

Além dele também a mandioca e o amendoim brilham nestes dias. Os três são originários das Américas e foram incorporados aos festejos religiosos trazidos pelos portugueses e espanhóis para celebrar os santos comemorados em junho.

Neste período do ano todos os municípios da Bahia produzem e consomem os itens juninos, destacando-se os Territórios Recôncavo Baiano, Litoral Norte e Agreste Baiano, Semiárido, Piemonte da Diamantina, Piemonte Norte do Itapicuru, de acordo com o secretário estadual de Desenvolvimento Rural, Josias Gomes.

Ele lembrou que o movimento desta época é o principal do ano para alguns segmentos e disse que o acesso ao mercado é uma etapa fundamental na produção da agricultura familiar. “Neste período de pandemia a comercialização vem ganhando novas possibilidades, que ultrapassam o formato de vendas em lojas físicas”, pontuou.

A empresária Sônia Matinhos gosta de tudo que lembra estes festejos “mas meu xodó são as comidas à base de milho. Desde criança ouvia o pessoal comentando que ia plantar o milho no dia de São José para comer no São João”, disse, destacando que “se não tiver milho não é São João de verdade”.

Com ciclo médio de três meses entre a semeadura e a colheita, o cereal destinado às mesas juninas a partir das espigas verdes foi plantado em março em propriedades de médio e pequeno porte da agricultura familiar em todo estado.

Além de cozido e assado, também pode virar curau, bolo e pamonha, dentre outras iguarias da culinária. “Este ano plantei mais do que em 2019 e 2020”, disse animado o produtor Rosenilo Cursulino dos Santos, salientando que vende a espiga grande por R$ 1, mesmo valor dos anos anteriores.

Com lavoura irrigada na comunidade de Baraúna, em Barreiras, a família comercializa o produto na Feira Livre da cidade. “Com a pandemia muitas famílias compram o cento (saco com 100) para consumir nestes dias”, diz, lembrando que tem descontos quem compra em grande quantidade e retira na propriedade.

Já para os pratos à base de milho maduro, como a canjica, polenta e cuscuz, o cereal também pode vir das grandes fazendas situadas no cerrado do extremo oeste baiano, voltadas para o agronegócio.

Neste perfil a região plantou 170 mil hectares (há) com o cereal conforme o 2º Levantamento da Safra 2020/21 realizado pelo Conselho Técnico da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). A previsão é colher em torno de 1.8 milhão de toneladas nesta safra e produtividade média de 180 sacas por hectare.

Alta produtividade

De acordo com esta análise de dados, o crescimento da área com milho no cerrado nesta safra sobre a anterior foi de 6%. A produtividade deve aumentar em 9,1% e a produção em 15,9%, como resultado do clima, áreas irrigadas e cuidados fitossanitários dos empreendimentos.

No estado, conforme o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE divulgado em junho com dados de maio/2021, a produção será de 2,5 milhão toneladas este ano.

Do cereal colhido depois de seco nas lavouras, além das canjicas e farinhas para consumo humano, cerca de 70% se destinam também à produção de farelos para ração animal.

A safra de milho do cerrado baiano começou a ser colhida no mês de maio, adiantando este processo por causa da grande procura do produto no mercado. A demanda elevou os preços que estão em torno de R$ 70 a saca de 60 kg, enquanto que nesta mesma época do ano passado estava entre R$ 30 e R$ 35.

De acordo com o assessor de Agronegócios da Aiba, Luiz Stahlke, a procura pelo milho da Bahia é reflexo da maior demanda do mercado nacional pelo cereal, pela falta de chuva nos estados do Centro Sul do Brasil. O fenômeno afeta a produção da safrinha com perdas estimadas em mais de 17 milhões de toneladas naquelas regiões.

Para Stahlke, o preço do milho no Oeste baiano pode aumentar ainda mais, com possibilidade de chegar a R$ 90 a saca. Essa condição também pode refletir no tamanho da área plantada com o cereal na próxima safra.

“No mês de setembro que começa a se desenhar o mapa das lavouras para a safra vindoura”, salientou, acrescentando que o mercado aquecido favoreceu também a formação de lavouras irrigadas com o cereal este ano na região.

No entanto, historicamente o milho é o produto de menor valor de mercado para os agricultores do cerrado baiano. Por isso seu plantio nas grandes fazendas da região sempre esteve mais ligado à necessidade da rotação de culturas, prática recomendada para assegurar a boa saúde dos solos.

Como um dos manejos do Sistema de Plantio Direto (SPD), a rotação de culturas como soja e algodão com milho e outras gramíneas com produção de boa palhada favorece a cobertura dos solos e sua sustentabilidade, em um modelo que vem crescendo na região e no mundo.

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