ECONOMIA
Venda direta é meio de vida para 2 milhões de brasileiros

Por Carine Aprile Iervese, do A TARDE
Ela tem 31 anos, segundo grau completo e fatura entre R$ 3,5 mil a R$ 5 mil, por mês, como revendedora da Hermes, catálogo de variedades, que trabalha com o sistema de vendas diretas (vendas de porta em porta). Edilana Gonçalves de Souza, mais conhecida como Laninha, é uma das duas milhões de pessoas que fazem este segmento crescer, a cada ano, no Brasil.
Para se ter uma ideia, o setor de vendas diretas movimentou R$ 18,5 bilhões em 2008, um salto de 14% em relação ao ano anterior. Nada mal, principalmente se comparado com a retração das vendas do comércio tradicional. De acordo com o IBGE, houve uma queda de 2,3% nas vendas tradicionais durante o quarto semestre do ano passado, enquanto que nas vendas diretas o volume de negócios aumentou 12%, no mesmo período.
“O Brasil é o terceiro maior mercado de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos do mundo. Tendo em vista que mais de 90% de tudo o que é comercializado neste ramo são produtos destas linhas, isso explica a relação virtuosa entre o Brasil e as vendas diretas”, afirma Rodolfo Guttilla, vice-presidente Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD).
CONQUISTAS – Laninha enxergou nesta onda de crescimento a oportunidade de uma vida melhor. “Trabalhava para a minha irmã, que tinha um escritório da Hermes. Depois de três anos, ela me emprestou R$ 890 e eu abri o meu ponto. Hoje tenho 1,2 mil revendedoras que trabalham para mim. Já troquei de carro duas vezes. Comecei com um Uno Mile e hoje tenho um Fiat Strada. Comprei também um apartamento no interior”, enumera ela, que atua há 12 anos na empresa.
Para Laninha, o segredo do sucesso é levar o trabalho com organização e seriedade. “Tudo na vida é questão de credibilidade. Se você leva o seu negócio a sério, ninguém te passa o calote. Você já deixa bem claro para pessoa que dia a mercadoria vai chegar e que dia você vai passar para pegar o dinheiro”, orienta.
Uma certa vez, Laninha teve que cobrar o pagamento de algumas mercadorias a um traficante. “A mulher dele comprou na mão de uma revendedora minha e não queria pagar. Só que a revendedora criou o maior barraco e o casal veio na minha porta dizer que não pagaria. Expliquei para ele a situação e, no final, além de pagar, ele pediu desculpa. Só depois que eu descobri que ele era traficante”, lembra.
Outro exemplo de determinação é Graça Maria Andrade, 54 anos, que trabalha há 22 revendendo os produtos da Tupperware. Graça é uma das campeãs de venda na Bahia e chega a faturar R$ 4,2 mil em um mês.
“Eu costumo dizer que eu tinha um sonho que considero hoje como pequeno. Sonhava em comprar um tapete bonito para a minha sala e o meu marido nunca tinha dinheiro para isso. Quando conheci a Tupperware, um dos brindes oferecidos para quem batesse as metas era justamente um tapete. Coloquei na cabeça que ia ganhar aquele tapete e ganhei. Depois disso, não parei mais”, conta ela.
Hoje, praticamente todos os os utensílios domésticos da casa de Graça, como faqueiro e aparelho de jantar, foram conquistados com o batimento de metas. “Batendo as metas eu também fiz diversas viagens. Fui para a Disney, nos EUA, para Portugal e para o Caribe, fora as viagens pelo Brasil, como a que fiz para o Rio de Janeiro”, comemora.
DIREITOS – A relação entre empresa e revendedor é estritamente comercial. Ou seja, não existe o vínculo empregatício. Os revendedores são autônomos e não têm direito a férias, 13º salário ou qualquer outro direito trabalhista previsto na CLT – Consolidação das Leis do Trabalho.
Qualquer pessoa pode ser um revendedor, mas é desejável que se tenha algumas características básicas. “Entre as características comportamentais é preciso ser organizado e sociável. A venda direta é uma venda por relacionamento. E é lógico que a pessoa que deseja investir na área não pode ter nenhum preconceito em relação a venda”, aconselha Rodolfo Guttilla, da ABEVD.
Apesar das consideráveis retiradas das revendedoras apresentadas nesta matéria, a média de remuneração no segmento não é assim tão generosa. Quem chega a este estágio precisa ter proatividade e dedicação. “O revendedor brasileiro ganha, em média, um salário e meio por mês, o equivalente a R$ 700. Uma renda razoável para o nível de desemprego do país”, considera Guttilla.
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