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Novos cursos de medicina pode ampliar lacunas na formação profissional

Edital lançado pelo MEC possibilita a oferta de até 5,7 mil vagas em todo o país, 900 delas apenas na Bahia

Jane Fernandes
Por Jane Fernandes
Simulação de atendimento com o ‘boneco paciente’, utilizado durante aula na Escola Bahiana de Medicina
Simulação de atendimento com o ‘boneco paciente’, utilizado durante aula na Escola Bahiana de Medicina - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

Em meio à repercussão de notícias que geram questionamentos na sociedade quanto à qualidade do ensino de medicina no Brasil, o Ministério da Educação (MEC) publicou um edital para autorizar a abertura de novos cursos de graduação na área. Essa é a primeira permissão para ampliar a rede de ensino particular após o congelamento determinado em 2018, com duração de cinco anos. Poderão ser abertas 5.700 vagas em todo o país, distribuídas em até 95 cursos.

A notícia amplia a discussão sobre a formação que tem sido ofertada aos futuros médicos, colocada em evidência no mês passado com a circulação de vídeos com alunos seminus – alguns simulando masturbação – durante jogos universitários femininos. As dúvidas relacionadas à ética foram estendidas aos aspectos técnicos após o resgate de resultados dos recém-formados na última avaliação aplicada pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp).

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Nosso estado nunca realizou exames similares e o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), Otávio Marambaia, considera que medir conhecimento somente após a conclusão do curso não é o melhor modelo. “O Cremeb compartilha com a ideia desenvolvida no Conselho Federal de Medicina e aprovada nas nossas comissões, no sentido de que a medida de avaliação adequada seria a avaliação seriada”, conta.

No formato defendido, as avaliações aconteceriam a cada dois anos dentro do processo de formação, ao final, a reprovação impediria o recebimento do diploma. “Se tivéssemos que fazer algo como o Cremesp, apoiaríamos uma prova para realmente dizer se a pessoa poderia ou não exercer a medicina. Seria uma prova nos moldes que a OAB faz para conceder, ou não, ao indivíduo que fez um curso de advocacia a possibilidade de exercer como advogado”, completa Marambaia.

Cursando o sétimo semestre de medicina na rede privada, Joana Oliveira Vasconcelos, 26 anos, concorda com a realização de uma avaliação final como condição para ter o registro profissional. “Acho necessário, porque é uma profissão que lida com a vida das pessoas e, infelizmente, erros cometidos por médicos podem levar à morte”, declara.

A ideia de implantar uma avaliação periódica está em discussão na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (FMB/Ufba), pioneira na formação de médicos no Brasil. “Entendo que a avaliação do estudante deve ser feita de forma continuada e baseada em competências alcançadas em cada fase da formação médica e não simplesmente por uma única prova para recém-formados”, declara o diretor da FMB, Antônio Alberto Lopes.

Expansão

A abertura progressiva e acelerada de novos cursos até 2018 é um ponto crítico destacado pelo presidente do Cremeb. “A formação técnica dos médicos também está muito ruim, por uma razão muito simples: abriram-se muitas faculdades de medicina. Obviamente não existe corpo docente nem campo de prática suficientes para que esses profissionais possam ser bem formados”, afirma.

De acordo com o divulgado em coletiva de imprensa do titular do MEC, Camilo Santana, e da ministra da Saúde, Nísia Trindade, o mapeamento dos locais que devem ser contemplados pelo edital colocou a Bahia na liderança, com a possibilidade de criar 900 vagas distribuídas em até 15 cursos. Duzentos e cinquenta e sete municípios baianos se encaixam nos critérios considerados, entre eles ter média inferior a 2,5 médicos por mil habitantes.

O vice-reitor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP) e coordenador do curso de medicina da instituição, Humberto de Castro Lima Filho, concorda que a escassez de profissionais ocorre fora dos grandes centros urbanos, mas tem dúvidas sobre o equacionamento desta questão com a expansão da rede privada. Ele cita as mensalidades elevadas e questiona “quem é da população brasileira que pode pagar uma mensalidade de dez mil reais, é uma minoria”.

A desproporção existente entre a disponibilidade de vagas de graduação em medicina e as vagas de estágio em unidades de atendimento, além das residências médicas oferecidas aos formados, é destacada pelo professor José de Bessa, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).

Entre os critérios divulgados pelo MEC está a existência de hospital com pelo menos 80 leitos na região, mas a distância máxima entre a sede do curso e essa unidade parceira não está especificada. Atualmente, a Bahia tem pelo menos 14 cursos de medicina em funcionamento, seis deles em Salvador e região metropolitana, sete deles em universidades públicas.

“O maior desafio vai ser expandir essas vagas com qualidade. O MEC vai ter que criar mecanismos de fiscalização para saber quais faculdades têm condição de ensinar e formar médicos de qualidade”, reforça o coordenador do curso de medicina da Unex (Rede UniFTC) em Itabuna, Eric Ettinger. A instituição também oferta a graduação na área na cidade de Feira de Santana.

No cenário atual, ele considera que as faculdades baianas, em sua maioria, têm conseguido manter um bom nível de formação. “Eu trabalho com internato aqui na região sul da Bahia, ou seja, trabalho com estudantes de medicina, com médicos residentes. Vejo egressos nossos que passam em residências concorridas no Brasil afora, temos egressos aqui da Bahia que se destacam no cenário da medicina nacional e internacional”, afirma.

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