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ESPECIAL TURISMO

Turismo com cultura: pertencimento e mergulho na vida local com memória afetiva

Visitantes trocam roteiros tradicionais por imersão em capoeira, afroturismo e gastronomia

Claudia Lessa
Por Claudia Lessa
Mestre Bamba
Mestre Bamba - Foto: Divulgação

A cultura virou destino. Não basta apenas visitar os cartões-postais, como Pelourinho, Elevador Lacerda ou Porto da Barra. É que um novo perfil de turista vem se consolidando: aquele que não busca roteiros convencionais. Está interessado em conhecer histórias dos lugares, dos personagens, da gastronomia. Chegam à Bahia com o propósito de participar de roda de capoeira ou puxada de xaréu, aprender a tocar percussão, a dançar o samba de roda do Recôncavo Baiano, fazer moqueca com cozinheiras locais, colher cacau e produzir chocolates, circular pelo Centro Histórico com nativos, visitar comunidades quilombolas. Com o crescimento das viagens criativas e de pertencimento, o “turismo instagramável” vai dando vez à coleção de memórias afetivas.

A transformação do turista já vem sendo percebida, há tempos, por Mestre Bamba, nascido Rubens Costa Silva. “Hoje, os visitantes querem viver a cultura de verdade, entender a história da capoeira, saber quem foi Mestre Bimba, Mestre Vermelho 27, Mestre Vermelho Boxel. Querem aprender a tocar um berimbau ou atabaque, participar de uma roda, experimentar o samba, conhecer as nossas tradições. Eles não querem só assistir; querem fazer parte. Isso é muito bonito, porque mostra um interesse genuíno pela nossa identidade e pelo nosso patrimônio cultural”, relata.

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Visitantes de diversos países, revela Mestre Bamba, o procura em busca de uma conexão com a cultura baiana. “A capoeira abre essa porta. Durante as aulas, eles entendem que ela não é apenas uma luta ou um esporte: é música, história, resistência, respeito e comunidade. Muitos chegam curiosos e saem emocionados”. O capoeirista afirma que alguns voltam todos os anos, outros permanecem treinando capoeira nos seus países. “Ver esse encantamento é uma das maiores recompensas do nosso trabalho, porque percebemos que levam um pouco da Bahia para o mundo.”

Integrantes do projeto Experience Cultural Exchange, no Pelourinho
Integrantes do projeto Experience Cultural Exchange, no Pelourinho - Foto: Divulgação

É na Associação de Capoeira Mestre Bimba (ACMB), sediada no Pelourinho e presente em diferentes países através de mais de 40 núcleos, que Mestre Bamba recebe os alunos e turistas, dando continuidade ao legado iniciado por Mestre Bimba (1899-1974), criador da Capoeira Regional e fundador do Centro de Cultura Física Regional (primeira academia de capoeira oficialmente reconhecida no Brasil, após a legalização da prática, em 1937). A ACMB foi fundada em 1975, pelo Mestre Vermelho (1936–1996). “Hoje, tenho a honra de dar continuidade a essa missão. São mais de 50 anos dedicados à capoeira, ensinando milhares de alunos da Bahia, do Brasil e de diversos países”, comemora Mestre Bamba.

A professora de capoeira, samba no pé e dança afro-brasileira, Ingride Banzo, soteropolitana com residência atual na Georgia, nos Estados Unidos, costuma formar grupos de turistas interessados em conhecer a cultura afro-baiana. Com este objetivo, ela criou, em 2022, o projeto de turismo cultural Experience Cultural Exchange. A arte-educadora construiu uma comunidade virtual, formada por suas alunas da dança e pessoas de diferentes países apaixonadas pela Bahia, pelo Brasil.

“Foi do interesse de ampliar a visão de mundo e criar conexões com outras culturas nas pessoas que demonstraram o desejo de conhecer e viver aquilo que eu mostrava nas aulas e nos vídeos que nasceu o Experience Bahia”, conta Ingride, ressaltando que, hoje, as experiências se estendem ao Rio de Janeiro. Ela conta que, em Salvador, os participantes fazem aulas de capoeira, samba, dança afro-brasileira e percussão, conhecem a culinária, visitam espaços culturais e convivem com artistas, mestres e comunidades locais.

Ingride Banzo, professora de dança
Ingride Banzo, professora de dança - Foto: Divulgação

Portanto, diz, não é apenas um roteiro turístico. “É uma imersão na nossa cultura baiana”, aponta Ingride, que também é madrinha da Escola de Samba União da Ilha do Governador-RJ. Os visitantes voltam entendendo que cada movimento de dança, cada ritmo e cada tradição carregam a história de um povo. “Eles passam a compreender que a cultura afro-brasileira vai muito além da dança, pois fala de ancestralidade, identidade, resistência e pertencimento. Ver as pessoas saindo da Bahia com um olhar muito mais profundo sobre a nossa cultura é o maior retorno que posso receber”, contempla.

Ingride ressalta que seu projeto também gera impacto financeiro para as comunidades locais, contribuindo com quem ajuda a manter a cultura viva. “Trabalhamos com professores, músicos, capoeiristas, artistas e pequenos empreendedores, criando oportunidades e valorizando quem dedica a vida a preservar a nossa cultura”. Este ano, virão a Salvador duas turmas: uma em agosto e outra em novembro. “Em comum, o desejo de conhecerem a Bahia para além do turismo tradicional, em uma experiência de aprendizado, troca e respeito pela cultura local. A energia, o acolhimento, a alegria, as cores, a música, a culinária e a cultura da Bahia fazem com que eles se conectem rapidamente.”

História negra

À frente da empresa Like a Sotero, que tem como base o afroturismo, incluindo o turismo gastronômico, histórico e cultural, a baiana Sayuri Koshima aponta a história do povo negro baiano como foco de sua atuação no setor turístico, no qual trabalha há 15 anos. “Eu venho de um quilombo afro-indígena, povoado de Baiacu, na Ilha de Itaparica, de onde veio a minha bisavó. Então, minha narrativa afrocentrada e antirracista é de antes de eu começar a trabalhar como guia de turismo”, conta.

Um de seus roteiros é o “walking tour afrocentrado”, que acontece no Centro Histórico de Salvador. “Este é um dos passeios que 100% das pessoas querem fazer. Interagimos com pessoas e entramos em locais importantes da história negra. Na oportunidade, o visitante degusta, por exemplo, um acarajé, que é uma das referências da nossa história viva”, relata Sayuri, que é advogada e professora de Inglês, graduada pela Universidade Federal da Bahia, além de ser uma das fundadoras da Associação Brasileira de Afro Turismo (Abrafro).

Sayuru Koshima, guia de turismo e advogada
Sayuru Koshima, guia de turismo e advogada - Foto: Divulgação

A atividade com turismo de experiências começou com estudantes de Portugal. “Eu levava esses jovens para conhecer a Feira de São Joaquim em uma época em que o local ainda não era turístico, a Ribeira, o Bonfim e atravessávamos de barco até o (restaurante) Boca de Galinha, no bairro de Plataforma. Íamos, também, em quilombos e em festas, como o Nego Fugido e a Boa Morte”, relata. Sayuri afirma que os visitantes querem conhecer a história a partir de uma narrativa decolonial. “Inicialmente, eles não fazem as conexões, como, por exemplo, que o Pelourinho foi um local de castigos de corpos escravizados. Mas quando narro o que representou esse lugar, muitas pessoas choram.”

Turismo religioso

Roteiro guiado na comunidade dos Alagados desperta interesse de turistas estrangeiros

Roteiros guiados em igrejas, mosteiros e pela comunidade dos Alagados vem despertando o turismo comunitário, de vivências e de experiências, especialmente entre visitantes internacionais. Esse turista não é um mero espectador. “Ele é convidado a caminhar, escutar, dialogar e perceber que a fé, quando se torna um serviço, também transforma pessoas e territórios”, afirma a CEO da Mambré Agência de Turismo Religioso Comunitário, Hilda Almeida dos Santos. “Esses visitantes buscam experiências autênticas, encontros que transformem seu olhar e histórias que deem sentido à viagem.”

O maior interesse dos visitantes, segundo Hilda, é “conhecer a história de resistência do lugar, compreender como nasceu a comunidade e perceber a presença da igreja católica como agente de transformação social ao longo de décadas”. Outro aspecto que surpreende o turista, relata, é descobrir que na Paróquia Nossa Senhora dos Alagados estão presentes as memórias e o legado de São João Paulo II, que visitou a comunidade em 1980; de Santa Dulce dos Pobres; e de Santa Teresa de Calcutá. “Esse encontro de fé, história e serviço faz da igreja um marco do turismo religioso em Salvador”, considera.

Hilda Almeida, agente de turismo
Hilda Almeida, agente de turismo - Foto: Divulgação

Uma das experiências mais marcantes do roteiro acontece quando os visitantes entram descalços, na Igreja dos Alagados. “Ao retirarem os calçados e sentirem os pés em contato com o chão, eles são instigados a refletir sobre a realidade vivida pelos moradores de Alagados, que durante muitos anos caminharam sem os calçados sobre a lama das antigas palafitas”, revela Hilda. Esse gesto simples, ressalta, desperta emoções e favorece uma vivência de respeito, humildade e solidariedade. “Muitos afirmam que é nesse momento que deixam de ser apenas turistas e passam a se sentir verdadeiros peregrinos da esperança.”

Segundo a gestora do Mambré, os turistas também querem conhecer os projetos sociais, a cultura local, a religiosidade popular, o manguezal, a culinária e, principalmente, as pessoas. “Eles descobrem que o Alagados não é apenas um território marcado por desafios, mas uma comunidade que construiu uma forte identidade baseada na fé, na solidariedade e na capacidade de transformar dificuldades em esperança”. Hilda revela que eles chegam, na maioria das vezes, com muitas perguntas e preconceitos, apesar da curiosidade latente pelo lugar.

“Muitos conhecem a comunidade apenas pelas notícias da violência ou músicas que marcaram uma época. Quando chegam aqui, encontram uma realidade muito mais complexa, humana e acolhedora”, diz. As dificuldades inerentes à experiência, ressalta Hilda, não são omitidas. “O turista se depara com a vulnerabilidade social e a necessidade de ampliar a educação ambiental, de gerar mais oportunidades de trabalho e renda, de qualificar os agentes que atuam no turismo e de preservar os espaços públicos”.

Casa de Tieta revela força do afroturismo

Com a missão de preservar saberes ancestrais e transformá-los em oportunidades de geração de renda, fortalecimento da economia criativa e desenvolvimento do afroturismo no Sul da Bahia, a Casa de Tieta, em Ilhéus, surge como uma alternativa de turismo criativo e de experiências. Inaugurado há dois meses, o espaço foi idealizado por Núbia da Hora, empreendedora cultural, baiana de acarajé e referência na valorização da gastronomia afro-baiana. No ambiente, Tieta, como é conhecida, buscar unir gastronomia, memória, música, formação e empreendedorismo feminino.

A história do acarajé como patrimônio cultural brasileiro; a relação entre gastronomia e ancestralidade africana; o significado dos orixás e das tradições dos povos de terreiro; o samba de roda como patrimônio imaterial; e a história da população negra na formação de Ilhéus e da Bahia são as principais curiosidades dos turistas que visitam a casa de Tieta. “Eles também se interessam pelas oficinas práticas de culinária afro-baiana, de capoeira e de manifestações culturais tradicionais”, relata Núbia da Hora.

A Casa de Tieta recebe um público diverso: turistas brasileiros e estrangeiros, pesquisadores, chefs de cozinha, jornalistas, profissionais da área de turismo, pessoas ligadas ao movimento negro e praticantes de religiões de matriz africana. Em comum é que todos estão em busca de uma conexão real com a história local, sua ancestralidade e identidade cultural. Cada ambiente, destaca Núbia da Hora, foi concebido para proporcionar uma imersão na ancestralidade, na culinária de matriz africana, na musicalidade, nas tradições populares e na valorização da identidade negra.

Núbia da Hora, da Casa de Tieta
Núbia da Hora, da Casa de Tieta - Foto: Maiza Ferreira/Divulgação

“A Casa de Tieta tem um papel fundamental no fortalecimento do turismo criativo e de experiências por integrar cultura, gastronomia, memória e formação em um único espaço vivo e imersivo, ampliando a compreensão do turismo para além do lazer tradicional e posicionando a experiência turística como um instrumento de educação, identidade e pertencimento cultural”, enfatiza Núbia da Hora, que, no ano passado, conquistou o prêmio de Melhor Sobremesa do Chocolat Festival, um dos maiores eventos de cacau e chocolate da América Latina, com a “jupioca”. A sobremesa “une o tradicional bolinho de estudante, patrimônio da culinária afro-baiana, ao chocolate produzido com o cacau do Sul da Bahia, representando o encontro de ancestralidade, criatividade e identidade territorial.”

Ao valorizar a cultura afro-baiana como eixo central de sua proposta, “o equipamento contribui diretamente para o reconhecimento do patrimônio imaterial da Bahia como ativo estratégico do turismo”. Além disso, Núbia afirma que o espaço ajuda “a reposicionar Ilhéus no cenário turístico, ampliando sua visibilidade para além do turismo de sol e praia e inserindo o destino em circuitos de experiências culturais autênticas, com uma programação contínua, diversa e integrada, que transforma o visitante em participante ativo da vivência cultural.”

Além da gastronomia típica, a Casa de Tieta abriga apresentações musicais, rodas de samba, oficinas, exposições, biblioteca temática, espaço audiovisual, atividades educativas, lançamentos de livros, encontros culturais e ações de valorização da memória afro-brasileira. Cada ambiente homenageia importantes personalidades ligadas à cultura popular e às tradições afro-baianas, reforçando o compromisso do espaço com a preservação da memória coletiva.

"A Casa de Tieta nasceu para mostrar que a cultura afro-brasileira está viva, gera trabalho, renda, conhecimento e transforma vidas”, destaca Núbia da Hora, acrescentando que cada visitante saia entendendo que viver a Bahia “é sentir seus sabores, ouvir sua música, conhecer sua história e respeitar sua ancestralidade". O conjunto de iniciativas busca gerar uma experiência sensorial e afetiva, na qual o visitante não apenas observa, mas vivencia a cultura”, como reforça a empreendedora, que conta com a parceria do sócio e marido Dimitri Andrade.

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