ESPECIAL TURISMO
Turismo com cultura: pertencimento e mergulho na vida local com memória afetiva
Visitantes trocam roteiros tradicionais por imersão em capoeira, afroturismo e gastronomia


A cultura virou destino. Não basta apenas visitar os cartões-postais, como Pelourinho, Elevador Lacerda ou Porto da Barra. É que um novo perfil de turista vem se consolidando: aquele que não busca roteiros convencionais. Está interessado em conhecer histórias dos lugares, dos personagens, da gastronomia. Chegam à Bahia com o propósito de participar de roda de capoeira ou puxada de xaréu, aprender a tocar percussão, a dançar o samba de roda do Recôncavo Baiano, fazer moqueca com cozinheiras locais, colher cacau e produzir chocolates, circular pelo Centro Histórico com nativos, visitar comunidades quilombolas. Com o crescimento das viagens criativas e de pertencimento, o “turismo instagramável” vai dando vez à coleção de memórias afetivas.
A transformação do turista já vem sendo percebida, há tempos, por Mestre Bamba, nascido Rubens Costa Silva. “Hoje, os visitantes querem viver a cultura de verdade, entender a história da capoeira, saber quem foi Mestre Bimba, Mestre Vermelho 27, Mestre Vermelho Boxel. Querem aprender a tocar um berimbau ou atabaque, participar de uma roda, experimentar o samba, conhecer as nossas tradições. Eles não querem só assistir; querem fazer parte. Isso é muito bonito, porque mostra um interesse genuíno pela nossa identidade e pelo nosso patrimônio cultural”, relata.
Visitantes de diversos países, revela Mestre Bamba, o procura em busca de uma conexão com a cultura baiana. “A capoeira abre essa porta. Durante as aulas, eles entendem que ela não é apenas uma luta ou um esporte: é música, história, resistência, respeito e comunidade. Muitos chegam curiosos e saem emocionados”. O capoeirista afirma que alguns voltam todos os anos, outros permanecem treinando capoeira nos seus países. “Ver esse encantamento é uma das maiores recompensas do nosso trabalho, porque percebemos que levam um pouco da Bahia para o mundo.”

É na Associação de Capoeira Mestre Bimba (ACMB), sediada no Pelourinho e presente em diferentes países através de mais de 40 núcleos, que Mestre Bamba recebe os alunos e turistas, dando continuidade ao legado iniciado por Mestre Bimba (1899-1974), criador da Capoeira Regional e fundador do Centro de Cultura Física Regional (primeira academia de capoeira oficialmente reconhecida no Brasil, após a legalização da prática, em 1937). A ACMB foi fundada em 1975, pelo Mestre Vermelho (1936–1996). “Hoje, tenho a honra de dar continuidade a essa missão. São mais de 50 anos dedicados à capoeira, ensinando milhares de alunos da Bahia, do Brasil e de diversos países”, comemora Mestre Bamba.
A professora de capoeira, samba no pé e dança afro-brasileira, Ingride Banzo, soteropolitana com residência atual na Georgia, nos Estados Unidos, costuma formar grupos de turistas interessados em conhecer a cultura afro-baiana. Com este objetivo, ela criou, em 2022, o projeto de turismo cultural Experience Cultural Exchange. A arte-educadora construiu uma comunidade virtual, formada por suas alunas da dança e pessoas de diferentes países apaixonadas pela Bahia, pelo Brasil.
“Foi do interesse de ampliar a visão de mundo e criar conexões com outras culturas nas pessoas que demonstraram o desejo de conhecer e viver aquilo que eu mostrava nas aulas e nos vídeos que nasceu o Experience Bahia”, conta Ingride, ressaltando que, hoje, as experiências se estendem ao Rio de Janeiro. Ela conta que, em Salvador, os participantes fazem aulas de capoeira, samba, dança afro-brasileira e percussão, conhecem a culinária, visitam espaços culturais e convivem com artistas, mestres e comunidades locais.

Portanto, diz, não é apenas um roteiro turístico. “É uma imersão na nossa cultura baiana”, aponta Ingride, que também é madrinha da Escola de Samba União da Ilha do Governador-RJ. Os visitantes voltam entendendo que cada movimento de dança, cada ritmo e cada tradição carregam a história de um povo. “Eles passam a compreender que a cultura afro-brasileira vai muito além da dança, pois fala de ancestralidade, identidade, resistência e pertencimento. Ver as pessoas saindo da Bahia com um olhar muito mais profundo sobre a nossa cultura é o maior retorno que posso receber”, contempla.
Ingride ressalta que seu projeto também gera impacto financeiro para as comunidades locais, contribuindo com quem ajuda a manter a cultura viva. “Trabalhamos com professores, músicos, capoeiristas, artistas e pequenos empreendedores, criando oportunidades e valorizando quem dedica a vida a preservar a nossa cultura”. Este ano, virão a Salvador duas turmas: uma em agosto e outra em novembro. “Em comum, o desejo de conhecerem a Bahia para além do turismo tradicional, em uma experiência de aprendizado, troca e respeito pela cultura local. A energia, o acolhimento, a alegria, as cores, a música, a culinária e a cultura da Bahia fazem com que eles se conectem rapidamente.”
História negra
À frente da empresa Like a Sotero, que tem como base o afroturismo, incluindo o turismo gastronômico, histórico e cultural, a baiana Sayuri Koshima aponta a história do povo negro baiano como foco de sua atuação no setor turístico, no qual trabalha há 15 anos. “Eu venho de um quilombo afro-indígena, povoado de Baiacu, na Ilha de Itaparica, de onde veio a minha bisavó. Então, minha narrativa afrocentrada e antirracista é de antes de eu começar a trabalhar como guia de turismo”, conta.
Um de seus roteiros é o “walking tour afrocentrado”, que acontece no Centro Histórico de Salvador. “Este é um dos passeios que 100% das pessoas querem fazer. Interagimos com pessoas e entramos em locais importantes da história negra. Na oportunidade, o visitante degusta, por exemplo, um acarajé, que é uma das referências da nossa história viva”, relata Sayuri, que é advogada e professora de Inglês, graduada pela Universidade Federal da Bahia, além de ser uma das fundadoras da Associação Brasileira de Afro Turismo (Abrafro).

A atividade com turismo de experiências começou com estudantes de Portugal. “Eu levava esses jovens para conhecer a Feira de São Joaquim em uma época em que o local ainda não era turístico, a Ribeira, o Bonfim e atravessávamos de barco até o (restaurante) Boca de Galinha, no bairro de Plataforma. Íamos, também, em quilombos e em festas, como o Nego Fugido e a Boa Morte”, relata. Sayuri afirma que os visitantes querem conhecer a história a partir de uma narrativa decolonial. “Inicialmente, eles não fazem as conexões, como, por exemplo, que o Pelourinho foi um local de castigos de corpos escravizados. Mas quando narro o que representou esse lugar, muitas pessoas choram.”
Turismo religioso
Roteiro guiado na comunidade dos Alagados desperta interesse de turistas estrangeiros
Roteiros guiados em igrejas, mosteiros e pela comunidade dos Alagados vem despertando o turismo comunitário, de vivências e de experiências, especialmente entre visitantes internacionais. Esse turista não é um mero espectador. “Ele é convidado a caminhar, escutar, dialogar e perceber que a fé, quando se torna um serviço, também transforma pessoas e territórios”, afirma a CEO da Mambré Agência de Turismo Religioso Comunitário, Hilda Almeida dos Santos. “Esses visitantes buscam experiências autênticas, encontros que transformem seu olhar e histórias que deem sentido à viagem.”
O maior interesse dos visitantes, segundo Hilda, é “conhecer a história de resistência do lugar, compreender como nasceu a comunidade e perceber a presença da igreja católica como agente de transformação social ao longo de décadas”. Outro aspecto que surpreende o turista, relata, é descobrir que na Paróquia Nossa Senhora dos Alagados estão presentes as memórias e o legado de São João Paulo II, que visitou a comunidade em 1980; de Santa Dulce dos Pobres; e de Santa Teresa de Calcutá. “Esse encontro de fé, história e serviço faz da igreja um marco do turismo religioso em Salvador”, considera.

Uma das experiências mais marcantes do roteiro acontece quando os visitantes entram descalços, na Igreja dos Alagados. “Ao retirarem os calçados e sentirem os pés em contato com o chão, eles são instigados a refletir sobre a realidade vivida pelos moradores de Alagados, que durante muitos anos caminharam sem os calçados sobre a lama das antigas palafitas”, revela Hilda. Esse gesto simples, ressalta, desperta emoções e favorece uma vivência de respeito, humildade e solidariedade. “Muitos afirmam que é nesse momento que deixam de ser apenas turistas e passam a se sentir verdadeiros peregrinos da esperança.”
Segundo a gestora do Mambré, os turistas também querem conhecer os projetos sociais, a cultura local, a religiosidade popular, o manguezal, a culinária e, principalmente, as pessoas. “Eles descobrem que o Alagados não é apenas um território marcado por desafios, mas uma comunidade que construiu uma forte identidade baseada na fé, na solidariedade e na capacidade de transformar dificuldades em esperança”. Hilda revela que eles chegam, na maioria das vezes, com muitas perguntas e preconceitos, apesar da curiosidade latente pelo lugar.
“Muitos conhecem a comunidade apenas pelas notícias da violência ou músicas que marcaram uma época. Quando chegam aqui, encontram uma realidade muito mais complexa, humana e acolhedora”, diz. As dificuldades inerentes à experiência, ressalta Hilda, não são omitidas. “O turista se depara com a vulnerabilidade social e a necessidade de ampliar a educação ambiental, de gerar mais oportunidades de trabalho e renda, de qualificar os agentes que atuam no turismo e de preservar os espaços públicos”.
Casa de Tieta revela força do afroturismo
Com a missão de preservar saberes ancestrais e transformá-los em oportunidades de geração de renda, fortalecimento da economia criativa e desenvolvimento do afroturismo no Sul da Bahia, a Casa de Tieta, em Ilhéus, surge como uma alternativa de turismo criativo e de experiências. Inaugurado há dois meses, o espaço foi idealizado por Núbia da Hora, empreendedora cultural, baiana de acarajé e referência na valorização da gastronomia afro-baiana. No ambiente, Tieta, como é conhecida, buscar unir gastronomia, memória, música, formação e empreendedorismo feminino.
A história do acarajé como patrimônio cultural brasileiro; a relação entre gastronomia e ancestralidade africana; o significado dos orixás e das tradições dos povos de terreiro; o samba de roda como patrimônio imaterial; e a história da população negra na formação de Ilhéus e da Bahia são as principais curiosidades dos turistas que visitam a casa de Tieta. “Eles também se interessam pelas oficinas práticas de culinária afro-baiana, de capoeira e de manifestações culturais tradicionais”, relata Núbia da Hora.
A Casa de Tieta recebe um público diverso: turistas brasileiros e estrangeiros, pesquisadores, chefs de cozinha, jornalistas, profissionais da área de turismo, pessoas ligadas ao movimento negro e praticantes de religiões de matriz africana. Em comum é que todos estão em busca de uma conexão real com a história local, sua ancestralidade e identidade cultural. Cada ambiente, destaca Núbia da Hora, foi concebido para proporcionar uma imersão na ancestralidade, na culinária de matriz africana, na musicalidade, nas tradições populares e na valorização da identidade negra.

“A Casa de Tieta tem um papel fundamental no fortalecimento do turismo criativo e de experiências por integrar cultura, gastronomia, memória e formação em um único espaço vivo e imersivo, ampliando a compreensão do turismo para além do lazer tradicional e posicionando a experiência turística como um instrumento de educação, identidade e pertencimento cultural”, enfatiza Núbia da Hora, que, no ano passado, conquistou o prêmio de Melhor Sobremesa do Chocolat Festival, um dos maiores eventos de cacau e chocolate da América Latina, com a “jupioca”. A sobremesa “une o tradicional bolinho de estudante, patrimônio da culinária afro-baiana, ao chocolate produzido com o cacau do Sul da Bahia, representando o encontro de ancestralidade, criatividade e identidade territorial.”
Ao valorizar a cultura afro-baiana como eixo central de sua proposta, “o equipamento contribui diretamente para o reconhecimento do patrimônio imaterial da Bahia como ativo estratégico do turismo”. Além disso, Núbia afirma que o espaço ajuda “a reposicionar Ilhéus no cenário turístico, ampliando sua visibilidade para além do turismo de sol e praia e inserindo o destino em circuitos de experiências culturais autênticas, com uma programação contínua, diversa e integrada, que transforma o visitante em participante ativo da vivência cultural.”
Além da gastronomia típica, a Casa de Tieta abriga apresentações musicais, rodas de samba, oficinas, exposições, biblioteca temática, espaço audiovisual, atividades educativas, lançamentos de livros, encontros culturais e ações de valorização da memória afro-brasileira. Cada ambiente homenageia importantes personalidades ligadas à cultura popular e às tradições afro-baianas, reforçando o compromisso do espaço com a preservação da memória coletiva.
"A Casa de Tieta nasceu para mostrar que a cultura afro-brasileira está viva, gera trabalho, renda, conhecimento e transforma vidas”, destaca Núbia da Hora, acrescentando que cada visitante saia entendendo que viver a Bahia “é sentir seus sabores, ouvir sua música, conhecer sua história e respeitar sua ancestralidade". O conjunto de iniciativas busca gerar uma experiência sensorial e afetiva, na qual o visitante não apenas observa, mas vivencia a cultura”, como reforça a empreendedora, que conta com a parceria do sócio e marido Dimitri Andrade.