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Pandemia e escassez agravaram casos de crometofobia, ou medo de perder dinheiro

Publicado segunda-feira, 15 de novembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 14/11/2021, 16:56 | Autor: Fábio Bittencourt
Tadeu Ferret indica a busca por tratamento | Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE
Tadeu Ferret indica a busca por tratamento | Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE -
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O sujeito quando tem fama de puxar pouco a carteira – quando o assunto é pagar uma conta – costuma ser conhecido como “mão de vaca” ou “pão duro”. Mas há casos de gente que, mesmo tendo dinheiro suficiente, sente verdadeiro ou literal pavor em gastá-lo. É a chamada crometofobia.

A síndrome não chega a ser um transtorno mental clinicamente reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em sua Classificação Internacional de Doenças (CID), mas com a pandemia e a crise econômica passou a afetar um número  maior de pessoas, apontam especialistas.

“No período de pandemia esse sintoma se acentuou e potencializou. Muitas pessoas desenvolveram medo de comprar até mesmo o básico, como gêneros alimentícios”, afirma o terapeuta sistêmico Tadeu Ferret.

Ferret cita o caso de um paciente que, por conta do isolamento social, apresentou quadro de depressão com o medo do desemprego e a perda financeira. “Com isso ele passou a diminuir o consumo de alimentos básicos, deixou de pagar plano de saúde e vendeu o carro. Um sofrimento antecipado por medo de algo que não necessariamente viria  acontecer”, fala Ferret.

Esse mesmo paciente, ele conta, se recusava a abrir  faturas do cartão de crédito, imaginando o saldo negativo, evitava consultar saldos bancários, e sentia taquicardia ao imaginar o final do mês. Tudo associado ao pagamento das contas.

“Quando diagnosticado no início, o acompanhamento terapêutico é eficaz, porque ajuda  o paciente a identificar a origem do medo, ajuda a trazer de volta a segurança, com apoio de informações seguras sobre finanças”, fala Ferret. 

O contexto de escassez normalmente é um gatilho, mas as causa para o pânico podem ser variadas, é o que explica o terapeuta financeiro Josmar Ribeiro. “A crometofobia é o medo extremo de gastar dinheiro. São pessoas as quais chamamos de acumuladores de dinheiro, com obsessão por acumular dinheiro”, diz.

“Talvez por ter vivido durante muito tempo na extrema pobreza, ou passado por experiências de ter perdido tudo repentinamente, a pessoa termina desenvolvendo a fobia financeira, como também é conhecida. O problema é quando se privam até das coisas mais básicas por medo de cair na pobreza novamente”, fala.

Segundo o especialista da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), o distúrbio na forma mais grave pode levar até mesmo quem tem dinheiro suficiente a viver de forma “miserável” –, deixando, por exemplo, de pagar as despesas da casa para manter  o saldo na conta, ou molhar as plantas para não elevar o gasto com água. É o tempo todo pensando em uma “emergência”, ele conta.

“Vivem criando sempre uma reserva de emergência, com a desculpa de estar se preparando para quando o pior acontecer. É como ter um reservatório de água, mas deixar as plantações serem prejudicadas para não diminuir a reserva, mesmo sabendo que existe uma fonte. São tipos de comportamentos”, fala Ribeiro.

Sofre quem desenvolve a síndrome, e quem está por perto. “A verdade é que somos reflexos de tudo que passamos, seja de bom ou ruim. Muitos reeditam janelas traumáticas gastando compulsivamente, sem nenhum critério, outras são sufocadas pelo medo de gastar, e vivem na escassez. O caso é que somos controlados por nossas emoções, frustrações”, ressalta. 

Ainda de acordo com Ribeiro, dependendo do grau da fobia, o ideal é buscar acompanhamento com  um terapeuta financeiro, “ou  profissional de psicologia especializado, a fim de direcionar a descoberta do seu eu, seu propósito de vida”. 

“Cada ser humano acredita ser de uma forma. O mais injustiçado, sem oportunidades, o mais frustrado da terra, e esses sentimentos não podem determinar a forma como utilizamos o dinheiro, precisamos ter o equilíbrio entre o ser, o ter, e o manter, por meio do fazer. E o fazer é aplicar uma metodologia com critérios”, afirma o terapeuta.

“Primeiro precisamos nos conscientizar de que o problema existe, depois ter uma definição clara dos nossos objetivos, sonhos, e executar de acordo com o propósito, e desfrutar daquilo que o dinheiro pode proporcionar de forma consciente e equilibrada. Se a sua vida não estiver alinhada com o seu propósito e busca por autorealização, você jamais terá uma vida equilibrada financeiramente e emocionalmente”, destaca.  

Ele diz que não é um acumulador ou avarento, mas que tem fama de “mão fechada”. O fato é que, depois de 33 anos trabalhando como vendedor no comércio, o aposentado de 66 e que não vamos identificar  possui hoje situação financeira estável, segundo o próprio, por sempre pensar no “futuro”, e  ser “muito econômico”. 

Entre os bens, o apartamento em que mora, no Engenho Velho de Brotas, com a esposa e duas filhas; um táxi, que ele não tem rodado com medo da violência; algumas ações de banco, e da Petrobras, além de dois pontos comerciais alugados; um terreno na Ilha de Itaparica, e um vilage na Praia de Ipitanga, Grande Salvador.

“É pouco, mas tem. É preciso saber gastar. Nunca usei  tudo, ou mais do que eu ganho, o que é pior”, ensina

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