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ENTREVISTAS

Dia de Iemanjá: como a festa mantém a sua força popular em Salvador

Antropóloga fala sobre a importância da festa e como nasceu as tradições

Divo Araújo

Por Divo Araújo

02/02/2026 - 6:50 h

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Imagem ilustrativa da imagem Dia de Iemanjá: como a festa mantém a sua força popular em Salvador
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Hoje, 2 de fevereiro, Salvador acorda voltada para o mar — mas a força dessa celebração começou muito antes de ganhar as ruas e as águas da cidade. No dia dedicado a Iemanjá, a doutora em Antropologia Cristiane Sobrinho conta, em entrevista ao A TARDE, como a tradição nasceu entre pescadores negros e se transformou em um dos maiores símbolos culturais da capital baiana. “Os pescadores são os precursores da festa — não existe dúvida sobre isso”, afirma.

Pesquisadora responsável pelo dossiê que garantiu o reconhecimento da festa como patrimônio cultural e imaterial de Salvador, Cristiane diz que a dimensão atual do evento é resultado de resistência histórica. Para ela, o tombamento ajuda a assegurar o futuro da celebração como um processo de afirmação do povo preto.

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Na conversa, ela explica ainda como a festa sobreviveu ao preconceito e às tentativas de deslegitimação, consolidando-se como espaço de fé e identidade. “É uma festa que projeta esse orixá para todo o país, que faz as pessoas terem orgulho”, diz. Saiba mais na entrevista a seguir.

Para começar, gostaria de falar sobre a origem da festa de Iemanjá e entender por que, hoje, ela é a única celebração do calendário dedicada integralmente a um orixá, sem traços do cristianismo.

Nós não só na Bahia, mas em todos os locais onde existiu a diáspora, diversos cultos foram trazidos do continente africano. Entre eles, existe o culto a Iemanjá, que é uma orixá que veio originalmente de uma região chamada Ibadan, na Nigéria. A partir das disputas étnicas, esse culto vai ser transportado para Abeokuta e disseminado entre outros povos que vão interagindo com essas populações que fazem a migração.

Hoje, na África, esse culto se dá dentro de alguns espaços, onde anualmente existem as festas. Existem os calendários festivos comandados pelos sacerdotes. É um culto de rua e a população participa ativamente. Em Abeokuta, ele é um culto de rio. Foi transportado para o Rio Ogun. Mas também existem os cultos das casas e das famílias que vieram, que são descendentes desses povos, e que hoje seguem cultuando essa orixá.

Na travessia do Atlântico, esses seres humanos pediam a Iemanjá bênçãos e, no caso de morrer, para que sua alma pudesse retornar à África. Preciso lembrar que as águas, para diversos povos, são espaços muito sacralizados. Para alguns povos africanos, por exemplo para os povos do Benin, não é normal você entrar no mar de forma lúdica, como lazer. Aquele espaço tem um resguardo. Os espaços de mar, de rio, vão ser utilizados em momentos rituais. Ou por pessoas daquelas comunidades que tenham esse poder e licença para adentrar os espaços. Os sacerdotes podem executar esses cultos, mas a população tem acesso limitado. Os pescadores dentro dessas comunidades passam por processos rituais para ter acesso a esse ambiente marítimo. Eles são iniciados para que tenham esse contato sem nenhum tipo de impedimento.

Mas, na Bahia, a festa de Iemanjá teve origem de forma sincrética?

Nós estamos falando de pescadores negros, pouco mais de 30 anos depois que acaba a escravidão no papel no Brasil. São pessoas que têm toda uma ligação ancestral com os cultos do continente africano, mesmo que tenham passado por outros processos de evangelização e sejam ligados ao cristianismo. Os pescadores iniciam esse processo, não existe nenhuma dúvida. Tanto que a festa, que era a mais importante na época, era a festa de Nossa Senhora de Santana, que era grande. Existia o bando anunciador, que saía por toda a cidade. Era uma festa que durava quase um mês e que emendava com a festa do 2 de fevereiro e com o Carnaval de Salvador.

Havia alguma ligação entre as duas festas?

A festa da Nossa Senhora de Santana é uma festa à parte. O bando anunciador já iniciava em dezembro os festejos da Nossa Senhora de Santana, e como disse era uma festa muito grande. O Rio Vermelho era formado por várias fazendas, sítios, as famílias mais abastadas tinham as casas de veraneio. Mas existiam também as casas daquelas pessoas que tinham recentemente saído da escravidão. Segundo relatos de todos os jornais da época, inclusive do Jornal A TARDE, o Jornal da Bahia, diversos documentos mostram os pescadores relatando as mesmas histórias. Então, não tem como essa festa ter surgido de outro espaço.

Isso no início do século XX?

Alguns colocam em 1924, outros em 1923. As reportagens do próprio Jornal A TARDE, na década de 30, já falavam da festa da Mãe D’água. Existiam alguns relatos como se fosse um local de balbúrdias, de agitações. Mas que os pescadores são os precursores não existe dúvida. Nesse primeiro momento eles escolhem como a data da festa, o Dia de Nossa Senhora das Candeias, que é o dia 2 de fevereiro.

Aí eles rezam uma missa para Nossa Senhora pela manhã, e à tarde vão para o mar dar o presente da Mãe D’água. As famílias começam a se aglutinar em torno daquele evento, que às vezes também estava no meio da festa de Santana, na igrejinha que está ali no Largo da Dinha. Aquela outra, maior, foi construída depois.

Como se deu a separação em relação à Igreja Católica?

Segundo algumas reportagens de época, no ano de 1933, os pescadores vão à missa com todas as famílias reunidas para depois entregar o presente à Mãe D’água. E o padre faz uma homilia falando da ignorância de se cultuar uma mulher peixe, de ser um culto pagão. Os pescadores e suas famílias ficam muito envergonhados e, a partir daquele momento, eles se separam, deixam de frequentar a missa. E ficam apenas com a parte dos presentes para Mãe D’água. No começo era algo mais espontâneo. Alguns pescadores que já faziam parte dos cultos do candomblé da época, organizavam a entrega dos presentes. Depois, eles instituem um candomblé para organizar, para que a coisa tenha mais fundamento. E até hoje existe um candomblé que é ligado à festa.

É sempre o mesmo terreiro de candomblé responsável pela celebração?

Não, sempre tem mudanças. Mas ele é sempre escolhido pela colônia de pesca do Rio Vermelho. A colônia, que sempre foi forte, começa a ser organizada no início do século XX. Várias colônias vão ser organizadas no país inteiro pela Marinha. A colônia do Rio Vermelho é a Z1, é a primeira colônia instituída em Salvador.

A partir do momento em que a festa passou a ser exclusivamente ligada às religiões de matriz africana, ela passou a enfrentar muita resistência das elites?

A resistência a tudo que diz respeito à religião de matriz africana existe de uma forma geral carregada pelo racismo e está presente em todas as instâncias da vida da população negra no país. E, no primeiro momento, também não se desejava que os brancos participassem desse processo. Os brancos já participavam da festa de Santana, tinha a escolha das misses. As filhas das famílias abastadas eram as misses da Festa de Santana. Portanto, eram duas festas separadas – e uma festa era para o povo preto, o povo que sofria.

Então, havia uma resistência também do povo preto?

Não era uma resistência. Era um processo de afirmação. Eles ficavam mais à vontade, já que sofriam o preconceito de participar da festa de Santana. Naquele espaço eles eram acolhidos. E era um espaço que tinha samba, que tinha bebida. Porque no candomblé não existe nenhum tipo de contradição entre alegria, festividade e culto. Tudo anda muito junto. Às vezes tem o impedimento da bebida, mas só para alguns membros. Para outros não. A alegria, a dança, a comemoração e até o uso da bebida em alguns processos rituais não é algo que seja distante das religiosidades afro-brasileiras. Não falo por outras religiosidades afro-latinas, mas nas religiosidades afro-brasileiras nós temos esse processo de alegria muito constante. Com o tempo, a festa foi crescendo tanto que a Festa de Santana foi perdendo espaço. E a festa de Iemanjá foi tomando essa dimensão.

Qual foi a importância de personalidades como Pierre Verger, Jorge Amado, Caymmi para a popularização da festa de Iemanjá?

Não acho que em relação à festa de Iemanjá eles tenham tido um papel muito relevante. É relevante quando Jorge Amado escreve, e Caymmi canta, e o culto de Iemanjá é passado para o mundo. Mas não necessariamente a festa de Iemanjá é feita no Rio Vermelho. Se a gente vai para o livro Mar Morto, de Jorge Amado, vai ver a grande importância. Ele fala de Iemanjá o tempo inteiro. Fala da ligação de Guma com Iemanjá, fala dos pescadores, da questão de morrer no mar, da Mãe D’água. Ele traz Iemanjá de forma brilhante e o mundo todo entra em contato com aquela entidade. Mas não necessariamente a festa do Rio Vermelho. Inclusive, ele fala muito mais dos presentes que são ofertados no Monte Serrat.

O culto a Iemanjá também existia em Monte Serrat e na Pituba. Por que a festa do Rio Vermelho foi a que prevaleceu?

Na verdade, o culto a Iemanjá existe em todos lugares onde têm descendentes de africanos. É o culto às águas. Seja para Iemanjá, seja para Mami Wata, são várias entidades ligadas às águas. Eu acredito que prevaleceu no Rio Vermelho por causa da força da Colônia de pesca Z-1. Você vê que hoje as duas festas que continuaram foram justamente onde existem fortes colônias de pescadores. Que é a festa de Itapuã, onde a colônia de pescadores está à frente, e a colônia do Rio Vermelho. Porque, independente do que aconteça, essas colônias estão ali fazendo a festa. Independente do Estado que não participou da festa em vários momentos, essas colônias levaram adiante.

A festa da Pituba também tinha uma grande força. Eu lembro na época que a gente saía da universidade no dia da festa da Pituba e todo mundo ia para lá. Tinha a missa na Igreja Nossa Senhora da Luz e os pescadores saíam para o mar. Os pescadores carregavam a imagem da santa e o padre ia junto com eles. Mas essa festa perde espaço. Até porque uma capatazia, não tem tanta força quanto a própria colônia em si.

O ponto alto da festa é a entrega do balaio principal. Você pode falar um pouco sobre a importância dos rituais envolvidos nesse momento?

Tudo que tem fundamento na religiosidade de matriz africana, não acontece em um único momento. Para o balaio chegar até o Rio Vermelho muita coisa acontece antes. Existem os fundamentos que têm a ver com a religiosidade de matriz africana, os fundamentos do candomblé, as barracas de umbanda, que também ficam na área da praia. Existem rituais anteriores. No candomblé, Exú come primeiro. É um fundamento do candomblé. Você não pode fazer nenhum tipo de ritual sem que tenha essa proteção antes. Sem que você proteja os caminhos para que nada saia errado no dia. Então, todos os preparativos vão acontecer anteriormente. No caso do candomblé, que é ligado à colônia de pesca, vai iniciar uma semana de preparativos. No dia, o barracão vai ser armado pelos pescadores.

Dentro do barracão, eles vão fazer um espaço para colocar o presente principal dado pelos pescadores e trazido pelo candomblé escolhido. Na parte do fundo, tem uma parte onde os ogãs vão tocar. Quando começa a festa, o ogã chega e joga o milho branco para trazer paz. O balaio já foi preparado. Ele tem flores, mas embaixo tem a comida da orixá. E aquele balaio tem fundamento religioso. Depois, vão chegando outros balaios. Os candomblés também vão levando os seus próprios balaios. Vários terreiros candomblés participam dessa festa. Vários terreiros de umbanda também. E várias pessoas individuais participam. Hoje, diversas partes do país instituem o 2 de fevereiro como o dia de Iemanjá. Aí a gente entra na história do professor que, no ano passado, classificou a festa como uma patifaria. Que não existe dia de Iemanjá, dia do orixá. Que aquilo ali era um espaço de bebidas.

Como você avalia essas declarações?

É uma falta de visão do que é um patrimônio. Independente do que eu acredito, do que você acredita, do que determinados grupos acreditam, um patrimônio é algo importante para a coesão de determinado grupo. Ele tem uma importância religiosa, uma importância cultural, aglutina pessoas historicamente. E, com o passar dos anos, aquele patrimônio não morre porque aquelas pessoas vão mantendo. Um patrimônio cultural material e imaterial é construído a partir da importância e dos significados que aquele elemento ou aquela festa ou aquele bem material vai ter para a manutenção daqueles grupos. Então, não importa como começou a festa.

Não importa se foi em 1923, se foi em 1924. O que importa é o significado que aquela festa tem para aquelas pessoas. E a manutenção, ao longo dos anos, que aquela festa tem para aquele grupo. Eu não posso dizer que a fé do outro é uma patifaria. Tem vários candomblés. O meu candomblé não faz a entrega naquele dia. Mas a gente está lá. A gente vai entregar nossas flores individualmente. Nós vamos lá saudar e sentir a energia de todas aquelas pessoas que estão ali acreditando. Tem pessoas que estão lá para beber, não tem problema. Isso não vai tirar o mérito. Existe a comercialização? Sim, a gente está num país capitalista onde tudo vai ser comercializado.

Você esteve à frente da elaboração do dossiê que reconheceu a Festa de Iemanjá como patrimônio imaterial de Salvador. Como foi esse processo e qual é a importância desse reconhecimento?

Em 2019, a prefeitura de Salvador colocou um cartaz convocando a população para a festa do Rio Vermelho. Só que não é a festa do Rio Vermelho, é a Festa de Iemanjá. Com isso, várias entidades do movimento negro, candomblés e entidades afro-religiosas se revoltaram e exigiram que as faixas fossem retiradas e colocassem o nome correto: Festa de Iemanjá. A partir desse processo, a OAB entra com a requisição junto aos órgãos de patrimonialização que são, no caso da prefeitura de Salvador, a Fundação Gregório de Matos (FGM); no caso do Estado, o Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia); e no caso do governo federal, o Iphan ((Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A OAB entra nas três instâncias para que a festa seja patrimonializada.

Nessa época, a diretora de Patrimônio e Humanidades da FGM, Milena Tavares, vai começar a ler todos os materiais que são feitos na academia sobre o tema. Ela leu diversos trabalhos e disse que se emocionou muito lendo a minha dissertação de mestrado sobre os pescadores do Rio Vermelho, intitulada ‘Ritos e tradições dos pescadores do Rio Vermelho’.

Nesse trabalho, eu relato todo o processo que envolve o presente e a cerimônia, além dos processos religiosos existentes no mar. Ela entra em contato comigo em função da minha tese e a prefeitura pede uma carta de notório saber, que é dada pelo saudoso professor Jefferson Bacelar, que foi um dos avaliadores da minha banca de mestrado na época. E também porque eu já era doutora em antropologia.

Então, sou convidada, trago o que eu tenho na minha tese e continuo outras entrevistas junto com os pescadores e com os terreiros que estão naquele momento presentes. Dessa forma, construí o laudo etno-histórico que tornou a festa patrimônio cultural e imaterial de Salvador. Para um tombamento de um terreiro, de uma festa, de qualquer bem cultural, material ou imaterial precisa de um antropólogo. Pode até ser um historiador, dependendo do processo. Independente do documento mais amplo terem outras partes é o laudo que vai dar a justificativa do tombamento. Nesse caso, o laudo etno-histórico foi construído por mim, aproveitando meu projeto de mestrado e mais entrevistas com pescadores. E complementei as pesquisas com tudo de mais recente que tinha sido construído para a festa desde então. Porque tem muita coisa que foi publicada depois.

A elaboração do dossiê demandou muito tempo?

Não levou muito tempo porque era algo um pouco emergencial. Até por isso precisava de alguém que já tivesse pesquisado o tema. Era algo que necessitava para que o tombamento fosse executado naquele momento. Hoje ainda esse processo de tombamento existe no Ipac e no Iphan. Mas o Ipac e o Iphan têm milhões de tombamentos na Bahia e no Brasil inteiro, com uma equipe mínima. Termina não executando. Por isso, a festa está tombada pela Fundação Gregório de Matos e é patrimônio cultural e imaterial da cidade de Salvador. No ano passado, a festa também passou pelo processo de salvaguarda. Por isso, é uma festa já salvaguardada.

Primeiro você entra com o processo de patrimonialização. Após o processo de patrimonialização, aquele bem já está tombado. Depois, vai ser feita a salvaguarda, onde as populações que fazem parte do processo - no caso, os pescadores, o povo de santo, todos aqueles que participam da festa - vão dizer o que é mais importante para eles. Para que aquilo fique salvaguardado para todas. E a tradição permaneça.

Qual é a importância de todo esse processo para garantir a continuidade da tradição?

É importantíssimo. Independente de que eu aceite ou não a festa, ela é tombada, é um patrimônio da cidade. Pode entrar um pastor como prefeito da cidade e ele vai ter que continuar dando apoio àquele processo, porque é um patrimônio da cidade. Já aconteceu no Rio de Janeiro um pastor (Marcelo Crivella) se eleger prefeito e proibir a festa de Iemanjá, porque ela não era tombada. A partir do momento que ela é tombada, ele jamais poderia proibir, porque é crime você proibir um patrimônio. Esse tombamento é fundamental.

No início da tradição, os pescadores colocaram ali uma sereia de pele clara. Qual seria a representação mais adequada para Iemanjá?

Eu gostaria muito de dizer que a gente tem que colocar apenas a sereia negra. Mas a gente vive numa sociedade que foi colonizada. E vivemos um processo de colonização em que as religiosidades terminam se mesclando. Iemanjá, sem dúvida, é a orixá mais popular do país. Em qualquer praia de Salvador, você vai ver as pessoas pulando ondas, ofertando flores para Iemanjá no Reveillon. Você vai ver isso também numa ilha da Angra dos Reis, os ricos jogando flores, mesmo que se digam cristãos.

Se tem algumas ideias de que o surgimento da umbanda, onde a religiosidade de matriz africana vai se fundir com a religiosidade espírita kardecista, ela vai construir uma outra imagem dessa orixá africana. Ela vai começar a ganhar a aparência da Virgem Maria. Ela vai ganhar as vestes da Virgem Maria. Ao invés dos seios fartos, da pele negra, e da voluptuosidade, porque Iemanjá para os povos africanos é gorda, ela vai ganhar outros traços. E esses traços vão se difundir entre os pescadores. O primeiro ano que saiu uma sereia negra não foi o ano passado como foi difundido. A primeira sereia negra a sair foi em 2010. E os pescadores ficaram muito chateados. ‘Essa não é nossa sereia’. Porque é um processo. A quebra do processo colonizador e do embranquecimento dessas entidades não se dá do dia para a noite. Mesmo em alguns locais do continente africano existem sereias brancas. E a própria aproximação de Iemanjá com as sereias também é uma forma de sincretismo. Essa mistura de Iemanjá com as sereias indígenas, as sereias africanas, europeias. Porque, na verdade, onde tem o culto às águas, tem o culto às sereias. Todos os povos brancos, negros, indígenas, que estão próximos as águas, têm os cultos as sereias. A gente pode dizer que os cultos das sereias é universal. Você pega as ‘Ilíadas e Odisseia ‘e as sereias estão lá. E a sereia branca é hoje a forma como grande parte dos pescadores dizem vê-la, até pela imagem que existe na frente da Casa de Iemanjá.

Para concluir, qual é a importância de uma festa dedicada a um orixá — com a dimensão que a festa de Iemanjá alcançou — para a autoestima do povo negro?

A festa de Iemanjá traz para o espaço público algo que historicamente nos foi relegado a esconder. Na África, as festas são públicas. Os orixás não se escondem. As festas de Oxum e de Iemanjá carregam milhões de pessoas nos espaços públicos. As incorporações são públicas. Aqui, dentro desse espaço de repressão racista, os cultos vão se tornando mais exclusos, se restringindo aos espaços de terreiro. Durante muito tempo os cultos foram criminalizados, os terreiros invadidos. E os africanos foram proibidos de cultuar livremente suas entidades. A festa de Iemanjá coloca para o público esse momento de sacralização e de aproximação dessas entidades. Naquele momento não estão presentes somente os orixás. Quando você chega de manhã a primeira orixá que chega daquele candomblé que foi escolhido é Iemanjá. Então, Iemanjá chega e os ogãs vão tocando para Iemanjá e aquilo é público. Sai do espaço privado e ganha dimensão. Você anda pela areia e vê diversos terreiros de umbandas, onde tem caboclos, marujos, e várias entidades não só africanas mas da religiosidade que foi construída aqui no Brasil ali presente. Você tem o caboclo que é a entidade que vem dos povos indígenas. Porque os bantos, os primeiros antepassados a chegar na Bahia, eles tinham o costume de independente da forma que você chega em determinado espaço tem que respeitar as entidades que ali estavam. Os caboclos que ressignificam os indígenas também são incorporados e respeitados. Os africanos, assim como os indígenas, não se negam a acreditar ou a respeitar outras religiosidades. Embora mantenham as suas, eles não querem apagar o outro. Eles incorporam o outro. Os Tupinambás faziam isso. Quando chegam os portugueses, eles sentam e ouvem. Eles aprendem a língua do outro. Os portugueses que nunca se preocuparam em aprender a língua deles. Temos vários povos africanos aqui que falam nossa língua dentro dos candomblés. O candomblé Jeje, que vem do Benin. O candomblé Ketu, que vem da Nigéria. O candomblé banto, que vem da Angola e da região Banto como um todo. É uma festa que projeta esse orixá para todo o país, que faz as pessoas terem orgulho. O senhor do Bonfim as pessoas podem vestir branco e dizer: ‘Não é para Oxalá, é para o Senhor do Bonfim’. O 2 de fevereiro é o momento de Iemanjá. E é uma festa imensa. É uma festa onde todos participam, inclusive aqueles que também estão fazendo suas homenagens e suas próprias releituras do que é Iemanjá. Tem gente fazendo sereismo, o que também é válido, porque é um momento de festa, de celebração.

Raio-X

Cristiane Sobrinho é doutora em Antropologia, mestra em Estudos Étnicos e Africanos, graduada em Ciências Sociais e especialista em Metodologia e Didática do Ensino Superior. Lecionou como professora substituta do Departamento de Antropologia da Ufba, professora EAD da Unilab, professora da pós-graduação em Direitos Humanos e Contemporaneidade (Sead/Ufba) e professora do ensino fundamental, médio e da EJA em Camaçari. Atua como consultora da Unesco e também como antropóloga no Projeto Quilombo Legal, que visa à regularização fundiária e ambiental de comunidades remanescentes quilombolas da Bahia.

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Cultura história Iemanjá Salvador Tradição

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