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Embaixador de Cuba: ‘Os cubanos se preparam para uma invasão militar dos EUA’

Leia entrevista com Victor Cairo Palomo, embaixador de Cuba no Brasil

Divo Araújo
Por Divo Araújo
Victor Cairo Palomo, embaixador de Cuba no Brasil
Victor Cairo Palomo, embaixador de Cuba no Brasil - Foto: José Simões/Ag A TARDE

A possibilidade de uma invasão militar dos Estados Unidos é tratada como uma ameaça concreta pelo governo cubano. Em entrevista exclusiva ao A TARDE, o embaixador de Cuba no Brasil, Victor Manuel Cairo, afirma que a ilha vive sob crescente pressão de Washington e diz que a população do país está em estado de alerta diante da escalada das tensões. “Cuba está se preparando contra a possibilidade real de uma invasão militar dos Estados Unidos”, afirma.

Cairo esteve em Salvador para uma série de compromissos institucionais e políticos, entre eles o ato político-cultural “Cuba Não Está Só”, realizado na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que reuniu entidades e movimentos em solidariedade ao povo cubano.

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Durante a conversa, o embaixador atribui ao bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a principal causa da crise enfrentada pelo país. Segundo ele, as restrições provocam um cenário de sofrimento para a população cubana e impõem severas limitações ao desenvolvimento da ilha. "Cuba vive hoje um genocídio".

Ao abordar temas como migração, relações com o Brasil e a conjuntura internacional, o diplomata também defende o sistema político cubano e rejeita as críticas ao regime de partido único da ilha.

Entrevista com Victor Cairo Palomo, embaixador de Cuba no Brasil

O senhor tem mantido encontros com movimentos sociais, universidades, sindicatos e parlamentares durante sua visita à Salvador. Que mensagem pretende transmitir a esses setores da sociedade brasileira?

Na Bahia, estou tendo encontro com autoridades e secretários de diferentes departamentos do governo. Estou tendo também encontros com movimentos sociais e com o reitor da Universidade Federal da Bahia. Estou participando ainda da Assembleia Internacional dos Povos do Mundo, que está fazendo aqui em Salvador reuniões muito importantes para a América Latina e Caribe. É uma agenda de cooperação e de denúncia da situação que está vivendo Cuba com o reforço do bloqueio dos Estados Unidos. E é também uma agenda cultural, que nos permite reforçar os vínculos entre Bahia e Cuba. Bahia e Cuba são culturalmente muito parecidas, muito ligadas, tanto na tradição religiosa como cultural. Isso também faz parte da nossa agenda de cooperação com a Bahia.

Há muitas atividades econômicas na Bahia que podem ser muito importantes para Cuba. Por exemplo, a produção de alimentos, o tema energético, o turismo e a produção de medicamentos. Vocês têm aqui a Bahiafarma, uma importante indústria farmacêutica que pode ter vínculos com Cuba do ponto de vista econômico. É a minha primeira visita ao Brasil. Cheguei aqui há três meses e estou passando por todos os estados. A Bahia é uma das prioridades do trabalho da Embaixada de Cuba no Brasil.

Cuba e Brasil celebram, em 2026, 40 anos da retomada das relações diplomáticas entre os dois países. Quais foram os principais avanços conquistados nesse período e quais desafios ainda precisam ser superados?

As relações entre Brasil e Cuba, em 2026, chegam ao 40º aniversário da retomada, como você disse. E têm sido relações muito fortes, exceto sete anos em que o governo do Brasil decidiu acabar com as relações políticas com Cuba. Mas o resto do tempo foram relações de diálogo político de alto nível, relações econômicas, comerciais, de cooperação de muito alto nível.

E isso permitiu que Brasil e Cuba possam dizer que tem uma relação, nesse momento, muito forte. Cuba teve projetos de cooperação muito importantes no Brasil, como o Mais Médicos. Você deve lembrar da presença de médicos cubanos no Brasil. Foi muito importante esse evento porque permitiu que milhões de brasileiros tivessem acesso à saúde pela primeira vez. E tivessem a oportunidade de interagir com médicos e profissionais de saúde cubana, que têm uma visão mais humanista, de atenção integrada à saúde. E com um conceito preventivo da saúde.

Cuba, como você sabe, tem uma escola de saúde que está embasada mais na prevenção e na atenção à pessoa. E não tanto no tema econômico da saúde, como um negócio. Isso foi parte do processo de Mais Médicos. Muitos brasileiros ainda me dizem: eu vi pela primeira vez um médico, quando os cubanos estiveram aqui. Esse é um só exemplo de muitas das coisas que, em 40 anos dessa retomada de relações bilaterais, nós estamos fazendo.

Imagem ilustrativa da imagem Embaixador de Cuba: ‘Os cubanos se preparam para uma invasão militar dos EUA’
Foto: José Simões/Ag A TARDE

As sanções econômicas dos Estados Unidos são frequentemente apontadas pelo governo cubano como o principal obstáculo ao desenvolvimento da ilha. Qual é o impacto real dessas medidas sobre a economia cubana?

Cuba vive hoje com limitações que estabelecem praticamente condições de guerra. Essa é uma realidade que devemos denunciar. Devemos denunciar essa agressão econômica, comercial, financeira. E agora, recentemente, este ano, o bloqueio energético. Cuba está bloqueada energeticamente e isso produz na população cubana um grande sofrimento. Um sofrimento que atinge as crianças, as pessoas enfermas, os hospitais, o transporte público, a economia, a produção e o acesso a alimentos. É um dano tão grande que poderíamos dizer que Cuba vive hoje um genocídio.

É um crime que uma potência como Estados Unidos comete, dessa forma tão ruim, cruel, tão criminosa à população cubana. Com o único objetivo de fazer à força uma mudança do sistema político cubano. Mas os cubanos têm direito a escolher o seu sistema político. Os cubanos têm direito escolher qual é o seu caminho. Não tem porquê Estados Unidos impôr um sistema político à sua conveniência, aos seus interesses, em Cuba. Essa é a realidade que Cuba está vivendo hoje. Cuba vive em guerra sem bombas.

O presidente Donald Trump chegou a afirmar que gostaria de tomar Cuba, e integrantes do governo americano também têm adotado uma retórica cada vez mais dura em relação à ilha. O governo cubano trabalha com a possibilidade real de uma escalada militar nas relações com os Estados Unidos?

Eu posso dizer que a população cubana, neste momento, se prepara para uma intervenção militar. Para muitos jornalistas, congressistas de esquerda, políticos de direita, com quem eu falo no Brasil, não tem lógica uma invasão dos Estados Unidos à Cuba. E é certo que não tem lógica. Mas, com este governo dos Estados Unidos, não podemos pensar no que é lógico ou não. Não é lógico atacar o Irã. Não é lógico sequestrar o presidente da Venezuela. Cuba está se preparando contra a possibilidade real de uma invasão militar dos Estados Unidos.

Na Venezuela, vimos militares cubanos morreram durante a operação dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro. Diante desse episódio, o senhor acredita que uma ação militar contra Cuba seria diferente?

Trinta e dois soldados cubanos foram mortos em defesa da soberania de Venezuela. Eu não gosto de comparar países, mas as situações de Cuba e Venezuela são diferentes. O que eu posso dizer é que Cuba é um país com uma formação histórica, com uma preparação militar de defesa de todo o povo. Cuba é um país com um conceito claro de que Cuba é independente contra o anexionismo. Cuba não tem outra oportunidade. E Cuba tem claro que os problemas que temos não vão ser resolvidos pelos Estados Unidos.

Esses fatores são decisivos para poder afirmar que a maioria da população cubana vai lutar até as últimas consequências. Mas Cuba não é um processo isolado da história da América Latina ou Caribe. Cuba é um processo histórico de formação de um país que tem lutado historicamente por sua independência. E que só conseguiu essa independência no triunfo da revolução de 1959. Cuba foi uma república bananeira de 1912 até 1959. Cuba viveu com a ocupação dos Estados Unidos indiretamente. E Cuba conhece quais são as consequências da presença dos Estados Unidos dominando nosso governo, nosso país.

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Nos últimos anos, Cuba registrou uma das maiores ondas migratórias de sua história recente. Que relação o governo cubano, que mantém um regime de partido único, com sua população?

Não é possível politizar a migração. A migração é um processo global. Quando me perguntam se os cubanos migram porque não estão de acordo com o governo de Cuba, eu sempre pergunto: a maioria dos africanos que migra para a Europa, por que migra? Porque tem governos socialistas? Quando me perguntam sobre Cuba e migração, pergunto: a maioria dos sul-americanos e centro-americanos que migra para os Estados Unidos ou para a Europa, por que migra? Porque não estão de acordo com o sistema socialista desses países? A migração não é política. A migração hoje tem uma tendência econômica.

Se Cuba não tivesse o bloqueio, a maioria dos cubanos que migram ficaria em Cuba. Cuba tem educação gratuita, saúde gratuita, altos níveis de desenvolvimento social. E as pessoas buscam isso. Se Cuba tivesse economia não bloqueada, a maioria dos cubanos ficaria em Cuba. Então não é possível converter a migração em uma análise de conveniência política.

Número dois: o objetivo dos Estados Unidos com os bloqueios sempre foi converter Cuba. Nós temos um memorando de um subsecretário de Estado dos Estados Unidos, de 1961, reconhecendo que a maioria dos cubanos apoiava Fidel Castro. E concluía: ‘Temos que render por fome e miséria a essa população’. O plano é o mesmo. Desde aquela época, é o mesmo. É criar condições de vida limitadas para que a revolução não mostre ao mundo a capacidade de criar um sistema alternativo de país, com assistência social, com um modelo de democracia diferente, com um modelo de democracia participativa, com um modelo que não tem relação com partidos.

Se não tivesse o bloqueio, a maioria dos cubanos que migram ficaria em Cuba



É isso que os Estados Unidos não querem que tenha sucesso. Porque é um modelo alternativo ao que eles representam no mundo. A situação de Cuba é que hoje um grupo de pessoas pode estar cansada da situação de desgaste econômico, de apagões de mais de 20 horas todos os dias, da crise humanitária que vive o nosso povo. E temos pessoas que também servem inimigos e se lançam à rua e queimam prédios e tem também um papel ativo em defesa dos Estados Unidos.

Mas isso não é a maioria dos cubanos. É um pequeno grupo de cubanos que fazem isso. É um grupo de pessoas que podem estar cansadas. Mas isso não significa que pessoas cansadas de apagões e situação econômica apoiem uma invasão militar contra Cuba. Essas pessoas, se Cuba for invadida, vão defender o seu país. Uma coisa é o esgotamento por situação humanitária.

Outra coisa é abandonar e pôr-se a serviço dos interesses dos Estados Unidos. É uma realidade distinta. A maioria dos cubanos que moram fora de Cuba, eu converso muito com cubanos que moram aqui no Brasil, e a maioria tem uma posição contrária a uma invasão militar. Não querem uma invasão militar. Por quê? Porque sua família vive em Cuba. Você não pode apoiar um genocídio contra o país onde vive sua família. Uma guerra contra Cuba teria um efeito e muitas consequências, entre elas, o reforço da unidade da população cubana. Reforça a posição de princípios da Revolução Cubana. Isso eu creio que é muito importante ter claro.

A maioria dos cubanos que vivem fora do país não apoia uma invasão militar

O clima entre a população é de temor diante da escalada das ameaças por parte do governo americano? Não vemos apenas o presidente Donald Trump adotando um discurso mais duro em relação a Cuba, afirmando que o país representa uma ameaça aos Estados Unidos...

Cuba nunca foi uma ameaça aos Estados Unidos. O presidente Trump e o Marco Rubio estão procurando pretextos para convencer a comunidade internacional de uma agressão militar contra Cuba. Eles sabem que uma agressão militar contra Cuba não vai ser aceita pela comunidade internacional. Porque é um grande contra um pequeno país bloqueado, economicamente perseguido. Que ameaça pode constituir Cuba? Cuba foi vítima de guerras dos Estados Unidos. Cuba foi vítima de armas biológicas e químicas dos Estados Unidos. Cuba foi vítima de atos terroristas organizados e financiados pela CIA no território dos Estados Unidos. Cuba entregou informações sobre as pessoas que organizam esses atos contra Cuba e os Estados Unidos não condenam essas pessoas. Como Luis Posada Carriles, não sei se você lembra. Luis Posada Carriles foi um dos maiores terroristas de origem cubana radicado nos Estados Unidos. Ele tentou assassinar a Fidel Castro em Panamá e foi responsável pela explosão de um avião cubano de Barbados. Declarado como responsável, ele mesmo admitiu esse ato. E morreu nos Estados Unidos livre. Então, Cuba não é uma ameaça para os Estados Unidos. É um pretexto ilógico dos Estados Unidos para escalar em sua agressão contra Cuba. A população cubana vive mais de 60 anos ameaçada pelos Estados Unidos.

Vivemos um momento de enfraquecimento do multilateralismo, mas Cuba tem ampliado sua participação em fóruns como o Brics. Há expectativa de que esse fortalecimento das relações multilaterais possa ajudar Cuba?

A única forma de resolver os problemas do mundo hoje é o multilateralismo. Nós rejeitamos a posição de Trump. Porque Trump defende um multipolarismo que não é um multipolarismo global. Para Trump, o multipolarismo significa que América Latina e o Caribe são dos Estados Unidos. E Cuba não é dos Estados Unidos, tampouco América Latina ou Caribe. Não somos quintal dos Estados Unidos. Temos que ter claro quais são as ameaças e os perigos deste imperialismo fascista que tenta dominar Cuba.

Eu lembro que, em 1902, um congressista dos Estados Unidos disse: ‘Eu quero Cuba, mas quero Cuba sem sua gente’. Uma posição racista. Uma posição fascista. Isso é o que representa hoje o governo dos Estados Unidos. É o que representa Marco Rubio, o secretário de Estado. É o que representa hoje essa diplomacia dos Estados Unidos que tenta não perder a hegemonia em um imperialismo que está em declive. É a única oportunidade deste mundo de discutir como vamos enfrentar juntos os temas de mudança climática, a luta contra a fome, a luta contra as pandemias, a luta contra o narcotráfico, o crime organizado. Tudo o que hoje nos afeta como população, como humanidade.

E o Brics é do Sul Global. Temos que falar. E hoje, lamentavelmente, o fascismo dos Estados Unidos impõem ao mundo uma agenda que fala de guerra. Uma agenda que fala de como os países têm armamentos poderosos para dissuadir. Temos que trabalhar juntos para trocar essa ideia.

Que mensagem o senhor gostaria de deixar aos baianos, que têm tantos laços e afinidades culturais com o povo cubano?

Eu quero agradecer muito a recepção que o povo baiano e suas autoridades nos têm oferecido durante estes dias. A Bahia é muito afetuosa com Cuba. É recíproco esse carinho, esse afeto da população cubana para Bahia. Os baianos são o povo do Brasil que mais se parecem com os cubanos. Pude constatar isso aqui. Queremos fazer uma agenda comum, em benefício de ambos os povos. Uma agenda que permita ao povo baiano também desfrutar dos avanços de Cuba e que permita Cuba desfrutar dos avanços da Bahia.

Temos muita confiança que poderemos fazer isso. Também quero passar uma mensagem de firmeza. Cuba vencerá. Cuba está pronta. Cuba está lutando. Mesmo nos piores cenários, a revolução cubana sempre estará disposta a lutar pela humanidade, pela independência, pela soberania e pela vida. Somos um povo em defesa da integração latino-americana e caribenha. E somos um povo que não ameaça a ninguém. Somos um povo de paz.

Os baianos são o povo do Brasil que mais se parecem com os cubano

Raio-X

Nascido em Havana, em 1978, Victor Cairo Palomo graduou-se em Direito pela Universidade de Havana, em 2003, e obteve o título de mestre pelo Instituto Superior de Relações Internacionais Raúl Roa García (ISRI), em 2005. Diplomata de carreira desde 2006, foi embaixador de Cuba no Panamá, cargo que assumiu em 2022. Em outubro do ano passado, foi nomeado embaixador de Cuba no Brasil.

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