ENTREVISTAS
"O Verão da década aqui de Salvador", aponta Isaac Edington
Presidente da Saltur fala sobre novidades para o Carnaval 2026

Por Divo Araújo

Salvador entra na alta temporada com hotéis cheios e já respirando o Carnaval. Para o presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), Isaac Edington, o cenário não deixa dúvidas: o público da festa deste ano vai superar o dos anos anteriores. “Tudo indica que a gente deve bater os dois anos passados de mais de um milhão de turistas”, afirma, em entrevista exclusiva ao A TARDE.
Durante a conversa, Edington contou que a ideia de fortalecer o Carnaval do Centro, para dividir o público e evitar a lotação dos circuitos, segue forte. “Todos os principais artistas da Bahia, que tocam o circuito Barra-Ondina, vão se apresentar no Campo Grande”, diz ele, destacando a abertura do Carnaval, que terá como tema os 110 anos do samba. “Vamos reunir figuras emblemáticas do samba”. Saiba mais na entrevista a seguir.
Salvador vive um momento positivo no fluxo de turistas, com os hotéis batendo recordes de ocupação. Isso vai influenciar na projeção de público do Carnaval deste ano?
Tudo indica que a gente deve bater os dois anos passados de mais de um milhão de turistas que vieram nesse período para a cidade. A gente está percebendo o aumento desse fluxo de turistas, graças a Deus, o ano inteiro. A hotelaria está registrando ocupações maiores, aeroportos, rodoviária e as plataformas de Airbnb também. O fluxo de turistas começa a aquecer a partir de setembro, com o Festival da Primavera. Outubro tem várias atividades, novembro é o Salvador Capital Afro. O próprio Festival da Virada este ano, que teve reforço de dois eventos que aconteceram três dias antes, o show de Roberto Carlos e Frei Gilson. E têm as festas populares. Eu participo da Lavagem do Bonfim pelo menos há 40 anos e nunca vi uma festa como foi a de quinta, 15. A cidade de fato está muito aquecida para o turismo. A Revista Veja divulgou Salvador como o principal destino para se passar o final do ano. Certamente, as plataformas já começam a divulgar isso também. A gente sempre fica entre o primeiro, o segundo, o terceiro destino mais procurado no Verão. Por isso, estamos muito otimistas que esse deve ser o Verão da década aqui de Salvador.
Podemos esperar alguma mudança no formato ou na organização do Carnaval neste ano?
Todo ano a gente tem um grande desafio, que é a logística do Carnaval. Em 2025 foi o primeiro ano que a gente fez o Carnaval sem o estacionamento da Graça. Foi o primeiro ano que a gente conseguiu transpor esse problema. Fizemos a redistribuição dessas vagas de estacionamento nos próprios circuitos, em vias transversais, usando o Comércio, Vale do Canela, o estacionamento de São Raimundo. Fizemos testes nas últimas semanas, com trio elétricos na madrugada, e conseguimos fazer o percurso. A gente fez outra mudança, atendendo a um pedido do público, e que realmente faz mais sentido, que é a inversão do calendário do pré-Carnaval. O Carnaval aqui em Salvador, para nós, começa já no dia 7. O pré-Carnaval, que é o Furdunço e o Fuzuê. Até o ano passado, o Furdunço era no domingo e o Fuzuê no sábado. A gente inverteu. Tem um volume gigantesco de pessoas participando do Furdunço e ele acaba terminando tarde. E o outro dia já é segunda-feira. Então, o Furdunço vai ser no sábado. E, no domingo, o Fuzuê, que já é uma programação mais amena, sem equipamentos eletrônicos. Isso vai ser mais confortável para o folião, porque o Furdunço termina com aquele show apoteótico do BaianaSystem. No domingo, as pessoas têm um pouco mais de tempo para recuperar e trabalhar na segunda. Já a novidade do Fuzuê é que o encerramento será com a banda Mudei de Nome. Ao invés de participar do Furdunço, este ano ela vai animar o Fuzuê.
Por que o samba foi escolhido como tema do Carnaval de Salvador em 2026 e que mensagem a organização da festa pretende transmitir com essa homenagem?
Quando o Carnaval acaba, a gente já começa a pensar no próximo. E, após a festa do ano passado, fiz uma pesquisa e identifiquei que, em 2026, o samba completa 110 anos. Essa foi uma dinâmica que nós implementamos aqui na governança do Carnaval. De evitar fazer homenagem póstumas para o tema da festa. Ou homenagear uma entidade. O Carnaval é muito maior do que isso. No ano passado, homenageamos os 40 anos do Axé. O Carnaval já foi homenageado pelo próprio folião. Isso para não personificar o Carnaval em uma pessoa, uma organização ou uma entidade. Identificamos esta oportunidade extraordinária. Ninguém no Brasil estava atento a isso. O samba de fato nasceu aqui na Bahia, depois ele foi exportado para várias cidades. O Rio de Janeiro se notabilizou com a primeira gravação comercial do samba. E o samba tem um movimento muito forte na Bahia e no Brasil todo. Quando a gente divulgou o tema, ‘antenou’ o Brasil inteiro para esse assunto.
Como a homenagem ao samba vai influenciar a programação artística e a concepção da festa ao longo do Carnaval?
Uma das novidades da programação do Carnaval é que a gente convidou Larissa Luz como diretora. Alguns veículos até botaram que ela iria cantar, mas a ideia é que Larissa Luz dirija o espetáculo que está sendo feito sob medida para a abertura do Carnaval, reunindo figuras emblemáticas do samba aqui no Campo Grande, em cima de um pranchão.
Já pode citar alguns nomes que vão participar dessa homenagem?
Vou segura um pouco essa informação porque estamos em negociação. Mas tenha certeza que serão nomes bem especiais, Com certeza, por exemplo, teremos a participação de Nelson Rufino, que é um dos grandes artistas da cidade, só para dar um spoiler. E outros vários artistas vão participar dessa abertura que deve começar por volta das 16h30, na quinta-feira de Carnaval. A ideia é que a gente transmita isso para o Brasil inteiro. Uma das coisas que a gente tem feito é ter transformado a abertura do Carnaval praticamente na abertura do Carnaval do Brasil, com comunicação para o mundo inteiro. E o samba tem uma característica, que é um ritmo essencialmente brasileiro. Onde tem samba, em qualquer lugar do mundo, isso está associado ao Brasil. Isso impulsiona a cidade, fortalece o turismo
A ideia este ano é seguir fortalecendo o circuito do Centro?
Sim, todos os principais artistas aqui da Bahia, que tocam o circuito Barra-Ondina, vão se apresentar no Campo Grande, a exemplo de Ivete, Daniela Mercury, Xanddy, Léo Santana. Esse já é um movimento fortíssimo e este ano a gente fortalece ainda mais. A gente tem investido muito mais no Carnaval do Centro.
É uma forma de evitar o que aconteceu no Carnaval de 2024 com a superlotação do circuito da Barra-Ondina?
Em 2024 a gente teve uma conjuntura. Eu costumo dizer que só vai acontecer de novo quando o cometa Halley passar novamente. A gente teve falta de energia no circuito, na madrugada alguns equipamentos quebraram, o carro de apoio de um trio quebrou. Tudo aconteceu naquele dia. Mas, graças a Deus, em 2025 a gente não teve problema. Pelo contrário, funcionou tudo bem. Mas, de fato, o fortalecimento do Carnaval no Centro tem o objetivo de desafogar a Barra-Ondina, sobretudo quando a gente fala em quinta, sexta e sábado. A gente está reforçando essa programação. Vamos ter a “super-terça” aqui no Campo Grande. Eu posso dizer que, este ano, a gente vai ter no Campo Grande a “super” todos os dias. Este ano a gente vai ter muitas atrações no Campo Grande. E também no palco da Castro Alves também.
Fora dos circuitos oficiais da festa, o que vocês estão planejando?
Temos o Carnaval dos bairros com uma programação cada vez mais forte. Teremos uma programação especial também nas três ilhas, fortalecendo as entidades locais. A segunda-feira é um dia muito especial, na Praça Municipal, com o desfile das fantasias de luxo, que é belíssimo. Eu sempre faço esse apelo à imprensa para vir assistir. Tem um palco belíssimo. O Carnaval de Salvador se notabiliza por ser para todos os bolsos e gostos. E a gente tem Carnaval até para quem não gosta de Carnaval, com palco do rock, na orla de Piatã. A gente tem a Arena do Samba, na Praça da Cruz Caída, que também será reforçada por conta das homenagens. Temos um espaço bacana de música eletrônica, que é acionado na Barra depois que o último trio sai à meia-noite. E faz muito sucesso.
Sábado, como eu disse, começa o Carnaval dos bairros, que tem o papel de levar a festa direto para as comunidades e também retém muitas pessoas para dar mais fluidez aos circuitos. Vamos ter Carnaval acontecendo em Cajazeiras, Itapuã, Boca do Rio, Liberdade, Plataforma, Periperi, Pau da Lima. Tem o Beco das Cores, o antigo Beco da Off, na Barra, que é um movimento também de música eletrônica e que é muito frequentado pela comunidade LGBTQIA +. É bem interessante porque tem um DJ ali e é concorridíssimo. Essas são coisas que o Carnaval da Bahia produz.
Como está a programação do pré-carnaval?
Tem a melhor segunda-feira do mundo, isso no pré-Carnaval, com Xanddy, que passou a ser um dia forte na festa, no Circuito invertido de Ondina. E, na terça também antes do Carnaval oficial, teremos o Pipoco com Léo Santana. Salvador, com seus artistas, consegue encher um circuito inteiro apenas com um trio elétrico. Na quarta-feira, temos o Circuito Habeas Copos, com as bandinhas de fanfarra. E quinta tem a abertura oficial e o Campo Grande já se notabiliza por ter a quinta do samba. O Carnaval dos bairros começa no sábado. Na verdade, o palco do Rio Vermelho já começa na sexta. O palco da Praça Castro Alves também já começa na sexta. O palco Axé Pelô, no Centro Histórico, também começa na sexta.
Que tipo de soluções a Saltur está estudando para aprimorar a logística dos trios elétricos e evitar os problemas registrados no Carnaval de anos anteriores?
A gente tem um plano de contingência, uma equipe de 24 horas cuidando disso. É normal, entre 160 equipamentos, você ter dois ou três com problemas. Mas a gente está preparado pra isso. Ano passado a gente teve muito menos acidentes. Às vezes você tem um problema do carro de apoio que atrasa por algum problema técnico. Mas a gente tem uma central de vistoria onde todos os órgãos da prefeitura, do governo do Estado, órgãos de segurança, Departamento de Polícia Técnica, Polícia Civil, Crea, fiscaliza justamente para evitar qualquer tipo de problema. Os índices que a gente tem são bem pequenos. Em 30, 40 minutos a gente consegue deslocar os cavalinhos reservas que têm cada circuito estrategicamente posicionado. Então, temos poucos problemas, com exceção daquele ano de 2024. A gente segue nessa linha de contingência. Temos o Master Plan do Carnaval, onde faz todo o mapeamento, concentra digitalmente toda a infraestrutura da festa que é revalidada todos os anos. São mais de 20 e tantos órgãos que participam.
A mudança do circuito Barra-Ondina para um novo circuito gerou muitos debates. Essas discussões evoluíram?
Essa discussão ganhou força em 2025. Alguns artistas e o Conselho de Carnaval procuraram a prefeitura para tentar planejar essa ampliação. Muita gente achou que era uma mudança, mas na verdade seria a ampliação do Carnaval para outro local. Porque o Circuito Barra-Ondina permaneceria. A ideia dessa iniciativa é ter outras atividades no Circuito Barro-Ondina, muito próximas do que acontece hoje no Fuzuê, no Circuito Sérgio Bezerra. É um Carnaval cultural, com outra pegada. Não seria tirar o Carnaval da Barra, mas fazer de forma diferente. E levar para um circuito mais amplo, de frente para o mar, e nos pareceu que aquela região da nova orla de Pituaçu, Patamares poderia abrigar isso.
Começamos a fazer estudos em conjunto com o Conselho do Carnaval e mesmo do Carnaval. No meio do caminho houve uma dissonância entre alguns artistas e os próprios empresários que estavam fazendo essa proposta. Isso acabou atrapalhando um pouco. Aí foi para a imprensa, começaram a usar isso politicamente. Outros interesses entraram em jogo e não houve unanimidade. O prefeito Bruno Reis, como um democrata, disse: a prefeitura está disposta a fazer o que for melhor para a cidade, mas vocês próprios que estão propondo não estão achando que isso funciona então vamos aguardar. E não dava mais tempo de fazer aquelas mudanças.
A discussão vai ficar para o futuro?
A primeira questão para essa decisão é o trade que envolve o Carnaval, essas pessoas de fato terem o interesse genuíno de que isso aconteça. O passo dois é providenciar os estudos técnicos. Porque a criação do novo Circuito do Carnaval requer estudos técnicos. E sempre com essa premissa: tem que ser melhor para a cidade. A gente preza muito que o Carnaval de Salvador tem que ser bom para todo mundo. Do ambulante ao camarote.
Diria que é uma discussão que está suspensa. Essa discussão só vai reabrir quando houver, primeiro, um consenso. Depois desse consenso terem estudos técnicos para ver como é que isso vai ser feito. Primeiro, tem que haver um desejo realmente de quem faz o carnaval, das entidades, dos artistas. A grande maioria deles precisa desejar isso. A não ser que se tenha outros problemas que sejam tão graves ao ponto de fazer essa mudança. Mas, enquanto essa unanimidade não acontecer, acho pouco provável que essa mudança ocorra. Mas se ela ocorrer será sempre para favorecer os foliões, os turistas e a cidade como um todo.
Esse bom momento vivido por Salvador no turismo se deve a quais fatores, na sua avaliação?
Para a cidade ser boa para o turismo ela tem que ser boa primeiro para a população. E isso o prefeito segue à risca na maioria dos investimentos que a cidade faz, sobretudo nas regiões mais pobres da cidade. Mesmo assim, a cidade tem olhado para os equipamentos turísticos, para a cultura. E também é a única cidade do Brasil que tem uma plataforma de eventos estruturada, profissional, junto com a iniciativa privada. A gente procura combater a sazonalidade. O setor de eventos é a atividade econômica que mais tem gerado renda para a cidade. O setor de serviços, de turismo, de entretenimento, da cultura, das artes. A base econômica da nossa cidade é oriunda dessa área. E a gente trabalha isso de forma muito responsável. É investimento pesado em turismo esportivo. Hoje, Salvador é um dos principais destinos de turismo esportivo no Brasil.
Raio-X
Isaac Edington é presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur) desde janeiro de 2015, onde responde pela coordenação geral de grandes iniciativas do calendário oficial da cidade, como o Carnaval e o Réveillon. Com mais de 30 anos de experiência como executivo, atuou nas áreas de gestão, recursos humanos, educação corporativa, responsabilidade social e sustentabilidade. Fez parte da equipe fundadora da Rede Bahia de Comunicação, onde ocupou cargos diretivos em TV, rádio, produção e administração. Integra conselhos e fóruns estratégicos, como o Conselho de Administração da Cogel, o Conselho de Sustentabilidade da Fieb, o Comtur e o Fórum ESG Salvador.
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