Busca interna do iBahia
HOME > ENTREVISTAS

ENTREVISTAS

‘Redução da jornada pode encarecer obras em até 8%’, diz presidente da CBIC

Eduardo Aroeira defende que o setor avance na industrialização dos canteiros

Divo Araújo
Por Divo Araújo
Eduardo Aroeira, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
Eduardo Aroeira, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) - Foto: Divulgação

A redução da jornada de trabalho pode aumentar os custos da construção civil justamente em um momento de escassez de mão de obra e busca por mais produtividade. É o que afirma Eduardo Aroeira, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que estima em até 8% o impacto sobre o preço das obras caso a jornada passe de 44 para 40 horas semanais.

Nesta entrevista ao A TARDE, Aroeira defende que o setor avance na industrialização dos canteiros e na adoção de novas tecnologias para produzir mais com menos trabalhadores. “A utilização de inteligência artificial certamente vai ser uma ferramenta”, afirma. Para ele, a transformação também exige crédito para pequenas e médias empresas e redução da burocracia.

Tudo sobre Entrevistas em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Aroeira estará em Salvador nesta semana para participar da ConstruNordeste 2026, no Centro de Convenções, evento que reúne empresas, profissionais e especialistas para discutir os desafios e as oportunidades do setor no Norte e Nordeste. Na entrevista, ele ainda fala sobre juros, Reforma Tributária, Minha Casa Minha Vida e a destinação dos recursos do FGTS. “É importante que o FGTS sirva ao que foi criado”, afirma. Saiba mais na entrevista a seguir.

A construção civil tem papel estratégico na geração de empregos e no desenvolvimento econômico do país. Quais são hoje os principais desafios para manter o crescimento do setor?

É importante entender que o setor de construção está inserido na conjuntura do país. Um dos grandes desafios que temos é o financiamento de obras tão necessárias, sejam elas de infraestrutura, de habitação, de habitação de interesse social, como o programa Minha Casa Minha Vida. E um grande dificultador para as empresas é a taxa de juros. A taxa de juros elevada não só dificulta e encarece os investimentos na infraestrutura, nos imóveis de mercado, como também encarece as necessidades de aumento de produtividade que nossas empresas têm. Quando você tem uma taxa de juros elevada, por exemplo, tem dificuldade de comprar máquinas e equipamentos para a sua empresa, de tal forma que possa produzir mais. A mão de obra é outro grande desafio que a gente está passando no nosso setor. Posso citar também a possível redução da jornada de trabalho. Mas a questão dos juros é um dos principais desafios.

O senhor falou dos juros elevados, e eles também encarecem o financiamento imobiliário. Com a perspectiva de queda dos juros, ainda que pequena, qual é a expectativa do setor?

Essa redução dos juros é muito aguardada, é necessária, mas infelizmente está muito aquém do que precisávamos. Para uma taxa de juros começar a estimular realmente e aumentar o volume considerável de interesse dos adquirentes por imóveis é necessário uma taxa de um dígito. Nós esperávamos e aguardávamos que essa taxa de um dígito aconteceria no final do ano passado. Mas as contas públicas e a situação macroeconômica do país não permitiram. Importantíssima essa redução, mas para que o mercado realmente sinta, o mercado imobiliário principalmente, é preciso que haja sucessivas novas reduções dessa taxa. E aí, sim, teremos novamente um mercado com crescimento sustentável.

A Reforma Tributária é apontada como uma das grandes mudanças para as empresas nos próximos anos. Qual é a expectativa da CBIC sobre os efeitos dessa nova legislação para a construção civil?

Nós temos acompanhado de perto a implementação da Reforma Tributária. Hoje, a nossa grande preocupação tem sido que o governo cumpra a sua parte para que realmente as empresas consigam implementar a reforma. A reforma tem um conceito que se chama ‘split payment’, uma informatização em que a própria Receita Federal divide a responsabilidade de cada um no pagamento dos impostos. Porém, isso exige um protagonismo muito grande do governo em criar as bases para isso. Hoje, com toda sinceridade, os softwares que possuímos nas nossas empresas ainda não nos dão condições de atender a reforma. É lógico que ainda há um bom prazo para que ela efetivamente seja implementada. Mas precisamos que o governo faça suas regulamentações em um prazo hábil e adequado para que os nossos prestadores de serviços de informática façam os ajustes nos sistemas e nossas empresas consigam, de fato, implementar o pagamento desses impostos. Isso nos preocupa bastante. O calendário, a nosso ver, é muito apertado. Estamos o tempo todo nos comunicado com o governo, solicitando e sendo atendidos para que essas implementações sejam rápidas.

A escassez de mão de obra qualificada, como o senhor citou, é uma das principais preocupações do setor. Como enfrentar esse problema em um momento de expansão da construção civil?

Essa é uma questão, sim, grave no Brasil, mas é também mundial. O mundo hoje, e a CBIC tem liderado esse processo aqui no Brasil, tem buscado novas formas de construir com o objetivo de aumentar a produtividade. Ou seja, produzir a mesma obra com menos trabalhadores para que a gente consiga aumentar o volume sem elevar os custos de construção. Naturalmente, isso passa por desenvolvimento tecnológico. A utilização de inteligência artificial certamente vai ser uma ferramenta. Com a industrialização dos canteiros de obra, as empresas têm de buscar ser mais montadoras do que construtoras. A tendência é a utilização de pré-moldados. De forma que os pré-moldados cheguem no canteiro e as empresas montem. A motivação da CBIC, com essa divulgação, é que as pequenas e médias empresas também tenham acesso a essas novas tecnologias para que possam permanecer no mercado. Novas tecnologias custam dinheiro e há necessidade de financiamento. Tratamos com o governo inclusive isso: linhas especiais de financiamento, de tal forma que as pequenas e médias também possam se inserir nessa nova forma de construir.

A inteligência artificial e outras ferramentas digitais já começaram a chegar então aos canteiros de obras. Como essas tecnologias podem mudar a forma de construir no Brasil?

A verdade é que a inteligência artificial é uma novidade no mundo inteiro e no Brasil não é diferente. Tem acontecido uma revolução e o Brasil tem buscado se inserir. Mas é tamanha a velocidade do desenvolvimento da inteligência artificial que ainda não se tem um panorama de como será o futuro. Mas nossas empresas têm buscado se atualizar e estarem atualizados com a tecnologia, que é uma necessidade, não é uma opção. Todas as empresas precisam se adaptar para não ficarem para trás.

Em relação à construção industrializada e ao uso de novas tecnologias, o senhor mencionou o financiamento como um dos entraves. Esse é o principal desafio ou ainda há outras barreiras que dificultam a adoção desse modelo no Brasil?

A industrialização normalmente necessita, na maioria das vezes, de um grande escala para que o investimento inicial seja pago dentro de um prazo razoável. Não só esse custo elevado. Também precisamos aprofundar o relacionamento das nossas empresas com o Sistema S através do Senai para que essas novas tecnologias cheguem. A redução da burocracia é fundamental também. Porque de nada adianta você ter um equipamento que produz uma obra num prazo mais curto e com menos pessoas, se esse equipamento, por uma questão burocrática, não pode funcionar porque houve atraso ou no licenciamento da obra, ou no licenciamento ambiental, ou no Habite-se do edifício. Toda essa conjuntura realmente traz obstáculos e esse ganho de produtividade é multifatorial. Devemos atacar vários fatores para que consigamos realmente melhorar a produtividade dos nossos carteiros de obra.

Qual avaliação o senhor faz do atual momento do programa Minha Casa, Minha Vida e da inclusão da classe média entre os beneficiários?

Quando eu falei da dificuldade de financiamento, era muito mais no mercado imobiliário de médio e alto padrão. O Minha Casa Minha Vida está tendo um desempenho excelente, com recorde de utilização do FGTS e de financiamentos, de assinatura de contratos. Foram quase R$ 3 milhões nos últimos quatro anos. É um número muito significativo. Mas o Minha Casa Minha Vida sofre muito também com o ambiente de negócios. Nós temos os recursos, as empresas construindo. E muitas vezes os empreendimentos finalizam e não podem ser ligados, por exemplo, por causa da concessionária de água e luz. E a obra fica parada devido a essa burocracia da infraestrutura. O Minha Casa Minha Vida, sim, tem cumprido seu papel social, mas sofre também bastante com o ambiente de negócios no nosso país.

O crédito imobiliário depende fortemente de recursos do FGTS. Como o senhor vê propostas que destinem parte desses recursos para outras finalidades?

É importante que o FGTS sirva ao que foi criado. É uma poupança do trabalhador e também um fundo que financia tanto a infraestrutura do país quanto a habitação. Hoje em dia o programa Minha Casa Minha Vida é um dos principais programas sociais do governo. A verdade é que formas novas de utilização do FGTS, que não sejam destinadas a esse tipo de habitação e a infraestrutura, prejudicam não só o trabalhador. Prejudicam a sociedade. A nossa preocupação é que, com outras utilizações do FGTS, a principal forma de financiamento de uma das principais políticas sociais de desenvolvimento, que traz dignidade à população, que é o programa Minha Casa Minha Vida, corre o risco de se perder. E aí o trabalhador não vai ter nem o Fundo de Garantia dele e também não terá a oportunidade de ter sua tão sonhada casa própria. Essas são as nossas principais preocupações com o desvirtuamento da utilização do fundo: a infraestrutura tão necessária no nosso país e o programa Minha Casa Minha Vida correm o risco de ter um atraso. E o Estado atrasa ainda mais um déficit histórico que é o direito à habitação e uma qualidade de vida maior devido ao atraso na infraestrutura.

Os senhores, como instituição, têm dialogado com o governo sobre essa questão? Já houve alguma interlocução com o poder público nesse sentido?

Isso também tem muito a ver com o Poder Legislativo. Essas ideias novas têm muito mais a ver com o Legislativo. Nós temos mantido diálogo com o Legislativo e o Executivo. O Executivo tem nos ouvido bastante. E diversos deputados e senadores também compartilham dessa ideia de que o FGTS é um patrimônio do trabalhador, um patrimônio do Brasil e precisa ser preservado.

A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho é outra preocupação do setor produtivo. Qual é a avaliação da construção civil sobre esse debate?

Nos preocupa bastante a possibilidade da redução de jornada de trabalho. Nós temos estudos na CBIC mostrando que a redução poderia encarecer as nossas obras em até 8%. Para o setor da construção, o grande vilão seria a redução da jornada de 44 para 40 horas no momento em que estamos com muita dificuldade de mão de obra. Temos falado que essa redução dos setores pode ser muito ruim para o Brasil e para toda a sua população. No caso da construção civil nós entregamos os principais programas sociais do governo. Já citei aqui o programa Minha Casa Minha Vida, as obras de infraestrutura, mas também tem hospitais, creches, corredores de transporte tipo VLT, BRT. Tudo isso é a construção civil que entrega. E todos esses setores têm um déficit histórico do Estado brasileiro para com a população. Os trabalhadores, por exemplo, ficam no ônibus duas horas por dia para ir ao trabalho e voltar. E a gente fica discutindo uma redução de quatro horas semanais. Essa redução, pode prejudicar inclusive isso. Porque com o encarecimento da obra de infraestrutura, essas obras de mobilidade também podem atrasar e prejudicar esse trabalhador que já se sacrifica tanto. O investimento no Brasil pode ser muito prejudicado com o aumento de custos e atraso das entregas sociais do governo. Essa é a nossa grande preocupação.

A segurança jurídica é uma das bandeiras da CBIC. Quais são hoje os principais entraves regulatórios que dificultam novos investimentos no setor?

No Brasil, a segurança jurídica é ampla e envolve várias questões. A própria Reforma Tributária, uma legislação nova, gera uma preocupação de novas interpretações que possam prejudicar o setor. Mas também há as mudanças de jurisprudência. A justiça trabalhista mudou o entendimento muitas vezes, por exemplo. Essas inseguranças jurídicas geram incertezas e fazem com que as empresas no final invistam muito menos do que poderiam investir. Isso somente prejudica o desenvolvimento econômico do nosso país.

A ConstruNordeste chega à quarta edição como um dos principais eventos do setor no Norte e Nordeste. Qual a importância de uma feira desse porte para fortalecer a cadeia da construção na região?

É fundamental que diversos estados façam eventos como esse que a Bahia está fazendo. Porque é um fórum de discussão dos principais pontos da construção civil. Temas nacionais e regionais serão discutidos no encontro. E, com essa discussão, soluções podem ser obtidas, relacionamentos com o governo, explicações para os entes públicos e propostas para a solução desses diversos problemas que nós discutimos. É um fórum de discussão que trará muita informação para todos que participarem. E, no caso, provavelmente serão majoritariamente empresas, engenheiros e operadores do mercado imobiliário e da construção da infraestrutura baianos. Ou seja, trazendo um grande desenvolvimento para a região e fazendo com que as empresas estejam por dentro dos principais temas da construção.

A Bahia tem apresentado crescimento no mercado imobiliário e atraído novos investimentos. Como o senhor avalia o potencial do Estado para a construção civil?

A Bahia é um estado muito importante economicamente para o país, é muito relevante na atuação do Minha Casa Minha Vida, porém não é só isso. Há várias oportunidades de mercado tanto de infraestrutura quanto do mercado imobiliário. A Bahia, sim, se destaca como um dos principais estados de desenvolvimento da construção.

Raio-X

Natural de Brasília, Eduardo Aroeira tem 50 anos e é formado em engenharia civil pela Universidade de Brasília (UnB). Além de presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), preside o Serviço Social da Indústria da Construção do Distrito Federal (Seconci-DF). Aroeira iniciou sua atuação no Sindicato da Indústria da Construção do Distrito Federal (Sinduscon-DF). Também presidiu a Associação de Empresas do Mercado Imobiliário do Distrito Federal (Ademi-DF) por dois mandatos e foi vice-presidente da Cooperativa de Compras do Distrito Federal (Coopercon-DF). Além da atuação institucional, Aroeira é sócio-diretor da Apex Engenharia. Casado, é pai de duas filhas.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

construção civil financiamento imobiliário Inteligência Artificial Minha Casa Minha Vida produtividade redução da jornada de trabalho

Relacionadas

Mais lidas