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Caminho do cacau

Por trás da técnica que gera amêndoas diferenciadas está a preocupação com a conservação da mata atlântica

Publicado quarta-feira, 05 de junho de 2024 às 01:18 h | Atualizado em 05/06/2024, 11:17 | Autor: Miriam Hermes
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Cabruca é um sistema de produção de cacau sob altas árvores nativas da mata atlântica, proporcionando um modelo diferenciado de cultivo conservacionista. Para estar configurado como cabruca, a maioria das plantas que fazem a meia sombra aos exóticos cacaueiros deve ser de espécies originais do bioma.

O formato contribui para a preservação do solo e das águas, e para o estoque de carbono, sendo morada para a rica e ameaçada fauna do bioma mais devastado do Brasil. Originária da Floresta Amazônica, onde sempre cresceu sob as frondosas árvores, a cultura foi introduzida na Bahia aproveitando a sombra das espécies nativas da flora da mata atlântica, muitas a caminho da extinção.

Esse bioma de clima predominante tropical úmido, que ocupava 15% do território brasileiro, hoje tem somente 24% da floresta primitiva, sendo que “apenas 12,4% são maduras e bem preservadas”, de acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica (Sosma). Principalmente nas margens dos rios de maior porte, a devastação começou com a chegada dos europeus, cortando árvores com madeira de lei para o mercado internacional e depois para as caldeiras das embarcações a vapor.

Nas áreas que restam, chama atenção o alto potencial de estocar carbono na cabruca. Conforme o Levantamento dos Dados da Flora das Cabrucas e Estimativa de Estoque de Carbono, utilizando a ferramenta GHG Protocol L, isso ocorre “principalmente pela presença dos indivíduos sombreadores que, na média, representam 60% do estoque de carbono do sistema, demonstrando seu potencial mitigador”.

Elaborado em 2021, o trabalho incluiu 17 propriedades do Sul da Bahia e foi executado pelas equipes do laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação, da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e do projeto Eco-Nomia das Cabrucas. Um dos propósitos dos trabalhos nesta linha é identificar a relação entre a densidade das plantas e dos sombreamentos com a produtividade de amêndoas na região.

Na Bahia, a cultura do cacau consorciada com a mata favorece a existência de grandes áreas contíguas do bioma, segundo o presidente da Cooperativa dos Produtores dos Cacauicultores da Bahia (Coopercabruca), Orlantildes Santos Pereira. Ele explicou que os frutos dos cacaueiros nascidos sob a mata atlântica “têm características sensoriais e sabores diferenciados, com reconhecimento internacional”.

Criada há cinco anos, a organização soma de 5 a 6 mil hectares de floresta preservada, com produção cabruca, através dos mais de 30 associados. Cacauicultor de Ubaitaba e líder de classe, Pereira pontuou que os cooperados têm apoio da entidade para manter o modelo extrativista, produzir amêndoas finas, processar e transformar em produtos com valor agregado. “Nossos chocolates artesanais da região são de primeira qualidade e colecionam prêmios em concursos pelo mundo”, asseverou.

Conforme Pereira, os produtores também buscam o reconhecimento pelos cuidados com a preservação através do Pagamento pelos Serviços Ambientais (PSA). “Ainda estão normatizando como se dará este processo. A remuneração pelo trabalho de conservação será muito importante para os agricultores”, avaliou, ressaltando que a partir daí poderão aumentar investimentos na preservação.

Agrofloresta

Associada da Coopercabruca, a Fazenda Santa Ana fica à margem do Rio de Contas, em Itacaré. A lavoura tem a exuberância das espécies nativas em cultivo consorciado com açaí e outras árvores frutíferas, usadas para sombrear os cacaueiros.

“Temos um modelo agrosilvopastoril orgânico”, disse o proprietário Edgar Morbeck, citando a criação de vacas leiteiras, bem como a implementação de estrutura para o turismo rural e sensorial. “Nosso Sistema Agroflorestal (Saf) nos permite o consórcio do cacau com outras atividades”, pontuou, salientando que a diversificação favorece o equilíbrio do negócio.

Ele ressaltou que a localização geográfica privilegiada do Sul da Bahia, a uma distância equivalente entre a linha do Equador e o trópico de Capricórnio, “proporciona um cacau mais saboroso, diferenciado dos demais”. O clima, os tratos culturais e o beneficiamento das amêndoas resultam na matéria-prima de excelência para produtos orgânicos de grande valor no mercado.

Para Merbeck, é salutar que não seja apenas preservado o que ainda resta da mata nativa, mas também as áreas devastadas, degradadas e abandonadas. Neste quesito, ele citou a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), que ocupa uma área de 15 hectares da propriedade e foi recuperada com plantio de mudas nativas nos últimos cinco anos.

“Nossa reserva está cadastrada nos órgãos ambientais. Vários animais, capturados na área de construção da estrada férrea (FIOL) pela Bamin já foram soltos aqui”, afirmou. Ele destacou a importância do pagamento dos produtores rurais pelos serviços ambientais e créditos de carbono, para reforçar o investimento dos agropecuaristas na causa preservacionista.

Segundo o empreendedor, no contexto que reúne cuidado ambiental e produção especial, é relevante observar também a interação com o aspecto socioeconômico. “Todas essas atividades geram vagas de trabalho e movimentam a economia. Com isso, colaboramos também na fixação das famílias no campo, vivendo com dignidade”.

No ambiente voltado para cultivo de agroflorestas, o trabalho de recuperação das áreas abandonadas em grandes e pequenas propriedades é crescente na região, com desenvolvimento, dentre outras iniciativas, de projeto-piloto na Fazenda Cultrosa, em Camamu. Recentemente, alguns resultados foram apresentados pela equipe da Belterra Agroflorestas.

A empresa, com trabalhos similares em outras áreas de mata atlântica e também na Amazônia, Caatinga e Cerrado, tem a meta de recuperar para a produção sombreada de cacau mais de 40 mil hectares até 2030. Também há pesquisas para introdução de diferentes árvores, mantendo a sustentabilidade da região.

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