Alison faz história e diz que recorde mundial é questão de tempo

'Piu' é o primeiro homem brasileiro a ser campeão mundial no atletismo

Publicado quinta-feira, 21 de julho de 2022 às 00:05 h | Atualizado em 20/07/2022, 23:43 | Autor: Celso Lopez
Alison dos Santos se tornou uma nova lenda do atletismo brasileiro, 
e ainda pode fazer mais
Alison dos Santos se tornou uma nova lenda do atletismo brasileiro, e ainda pode fazer mais -

Com sorriso simpático e humor irreverente, as marcas no corpo revelam uma vida de lutas e as passadas largas exibem a transformação de um atleta na transição para uma lenda. Alison Brendom Alves dos Santos, ou somente ‘Piu’, é o primeiro homem brasileiro a ser campeão mundial no atletismo. Com tanta história já escrita aos 22 anos, o esportista parece ter pela frente um longo futuro na competição, mas nenhum lugar é tão distante que suas pernas não consigam percorrer ou que seu carisma não consiga alcançar.

Foram precisos somente 46s29 para Piu voar na pista e conquistar a medalha de ouro na última terça-feira, em Oregon, nos EUA, nos 400 m com barreiras. Após cruzar a linha de chegada, Alison tomou para si o terceiro melhor tempo da prova na história. Superar o norueguês Karsten Warholm não foi fácil, mas nada comparado às dificuldades da sua própria vida. Agora, com o ouro no Mundial e o bronze olímpico em Tóquio, o atleta está cada vez mais perto de ser um dos grandes nomes do panteão mundial do atletismo. Em um futuro próximo, caso ganhe o título em Paris-2024, ele ainda será o primeiro brasileiro a faturar a Olimpíada e o Mundial no atletismo. 

“Sabe quando você sonha com alguma coisa? Quando acorda todo dia na sua vida pensando nisso? Eu estava assim nesta temporada. Sonhando com esse resultado, essa vitória”, desabafou em entrevista ao SporTV após o feito. 

Contudo, antes de toda a glória, antes de existir ‘Piu’ e seu carisma natural, o garoto nascido em São João Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, não chegava nem a imaginar mostrar o cabelo, muito menos correr pelo mundo. Aos dez meses de idade, o menino sofreu um acidente doméstico com uma panela de óleo quente. Com queimaduras de terceiro grau, diversas cicatrizes marcam o corpo do atual campeão mundial até hoje. Tímido na infância por conta desse acontecimento, Alison ganhou o apelido de ‘Piu’ pela semelhança física com outra pessoa que tinha o mesmo apelido na cidade. Por ironia do destino e resiliência do atleta, o novo nome caiu como uma luva.

Saci, Curupira, Boitatá, que nada. Em mais um capítulo do folclore, Alison dos Santos se tornou uma nova lenda brasileira. Do menino pobre de poucos anos atrás, que viu o óleo quente queimar seu rosto, nasceu Piu, um garoto que cresce muito mais que os amigos e se torna um gigante de 2 m de altura que voa nas pistas para fazer sorrir toda uma nação.

O impossível não existe

Fazer melhor, ser melhor, correr mais rápido, tudo isso já está dentro do planejamento de Alison. Ele sabe que, mesmo líder do ranking mundial, tendo feito o melhor tempo da carreira, batido o recorde sul-americano e com quatro das cinco melhores marcas do ano, ainda pode ir bem mais longe. 

“Hoje eu entrei na pista, corri contra [Rai] Benjamin, [Karsten] Warholm. A gente tem noção de que essa marca é possível. Algum momento, 46 segundos foi distante para a gente. Como 45 segundos já foi, hoje já não é mais. A gente sabe o que tem que melhorar. A pergunta não é nem mais se é possível alcançar [a marca], mas quando vamos chegar. Se Warholm correu em 45 um dia, todos podem correr”, afirmou o atleta, sobre superar o melhor tempo da história, feito nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Não só pelo ouro, pela glória ou pelos recordes. Piu sabe bem o que quer quando o assunto é atletismo: que se lembrem dele pelo que fez nas pistas, onde acontecem as provas mais nobres da modalidade. “Eu e meu treinador sempre conversamos sobre fazer história. Quero ser uma lenda. Quero deixar meu nome. Que daqui a 30, 40, 50 anos, quando forem falar de atletismo, dos 400 m com barreira, vão lembrar quem foi Alison dos Santos e o que a gente fez na pista”, comentou.

Ouro em Mundial, Jogos Pan-Americanos de Lima em 2019, prata em Mundial de Revezamentos em 2021, bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Os principais títulos já estão no currículo do jovem de 22 anos, que ainda tem bastante tempo para colecionar mais. Alison dos Santos se juntou a Fabiana Murer, que conquistou o ouro no salto com vara em Daegu, na Coreia do Sul, em 2011, como os dois únicos esportistas brasileiros a subir ao topo do pódio no Mundial de Atletismo.

A partir de objetivos menores pelo caminho, a meta que pode tornar Alison ‘Piu’ dos Santos uma lenda do atletismo mundial é o ouro olímpico. Tarefa possível, porque em Oregon, na terça-feira, o atleta deu o troco em Warholm e Benjamin, campeão e vice na Olimpíada de Tóquio, respectivamente. O que resta, além da medalha, é bater as marcas dessas feras, já que as melhores da história são do próprio Warholm (45s94) e de Benjamin (46s17).

Porém, a mais importante ferramenta para vencer a prova da vida, Alison já tem: a alegria. Não só nas pernas, que usa para ultrapassar adversários em velocidades impressionantes, mas no rosto, independentemente de qualquer evento passado. A cada nova prova, o início é marcado pela tradicional dancinha. Foi assim quando conquistou o bronze olímpico, ao apresentar uma coreografia de funk antes de correr. Também foi assim na terça, quando dançou novamente antes da prova, como ele mesmo já disse, para evitar o nervosismo e se tranquilizar. Que a música não pare.

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