ESPORTES
Crise no Bahia não vem de agora

>> Torcedores fazem protesto no Fazendão
Não dá para dizer que é coincidência, exagero da torcida, perseguição divina ou tampouco falta de sorte. A cada temporada encerrada, ouve-se pelos quatro cantos da cidade que o Bahia está no fundo do poço.
Em novembro do ano passado, finalmente, o time conseguiu subir uma divisão dentro de campo. Mas há quem sustente, mesmo assim, que esse poço parece não ter fundo.
O primeiro rebaixamento enfrentado pelo clube, para se ter idéia, já completou uma década. No dia 9 de novembro de 1997, o tricolor empatava sem gols com o Juventude, em plena Fonte Nova, e começava a sujar o seu currículo de bicampeão nacional.
O início do calvário, porém, já teria ocorrido três anos antes. “Aquele gol de Raudinei serviu para jogar poeira debaixo do tapete”, afirmou o corretor de seguros Jorge Maia, ligado à oposição, que viveu intensamente a épica conquista da Taça Brasil de 1959 sobre o famoso Santos de Pelé.
Jorge se refere a um dos lances mais festejados, até hoje, pela torcida, que garantiu o título baiano de 94, sobre o arqui-rival, no chamado ‘apagar das luzes’. Aos 46 do segundo tempo.
Ele explica: “O gol serviu para diminuir o ímpeto dos grupos de oposição, que já existiam naquela época, insatisfeitos desde lá com Paulo Maracajá”. Conhecido como o Eterno Presidente, Maracajá havia acabado de entregar o cargo ao diretor Francisco Pernet para tomar posse no Tribunal de Contas dos Municípios, pois a lei orgânica do TCM não permite tal compatibilidade de funções.
Na ocasião, associações como a extinta Democracia Tricolor já acusavam o cartola, desde 1973 dentro do clube, de adotar métodos arcaicos de gestão, além de se perpetuar no poder.
Ele rebate. O prestígio e os recursos recebidos ao se eleger vereador e deputado estadual – às custas do Esquadrão de Aço e do senador Antonio Carlos Magalhães, falecido em julho de 2007, conforme o próprio admite – teriam aumentado e modernizado o patrimônio da equipe.
Desde o caneco brasileiro de 88, todavia, não se registrou aumento significativo das dependências do Bahia, tirante a reforma e ampliação do Fazendão, em 2004 (bancada pelo Banco Opportunity), e pequenas melhorias na sede de praia, como construção de quadras de futsal e implantação de um “toboágua”.
ACASO? – Outro indício de que os problemas vêm de longa data se deu ainda em 89, logo após o campeonato ganho diante do Inter, no Beira-Rio. Para grande irritação de Maracajá, na época, o ídolo Bobô, um dos principais heróis do feito em Porto Alegre, declarou que o Esquadrão precisaria esperar mais 30 anos para repetir uma glória daquelas.
“Essa frase realmente marcou, mas quando você trabalha com o poder centralizado, tudo saindo de uma única sala, é complicado”, justificou ele, hoje à frente da Superintendência de Desportos do Estado da Bahia (Sudesb). O antigo camisa 8 não chega a dizer que o título foi por acaso, porque defende a qualidade dos companheiros. “Só que o momento era outro no futebol”.
De tão contestada, a atuação de Maracajá será investigada pelo Ministério Público a partir desta quinta-feira, 12. Segundo o procurador-geral de Justiça Lidivaldo Britto, a apuração se justifica porque o tricolor é considerado um “patrimônio imaterial e, nesta condição, deve ser defendido”. O prazo para a conclusão é de 30 dias.