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De Guiné a Salvador: africano cruzou o oceano e se tornou lutador de MMA

Alex Torres*
Por Alex Torres*
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Mohamed Camara, que fugiu clandestino de navio para o Brasil, trocou o sonho de jogador de futebol pelo de lutador profissional de MMA | Foto: Alex Torres | Ag. A TARDE
Mohamed Camara, que fugiu clandestino de navio para o Brasil, trocou o sonho de jogador de futebol pelo de lutador profissional de MMA | Foto: Alex Torres | Ag. A TARDE -

"Cara, acredito que a vida de nenhum africano é fácil". Com essa frase, o jovem da Guiné, Lamo Mohamed Camara, de 28 anos, começou a contar a sua história e revelou detalhes sobre como ele cometeu uma das maiores loucuras de sua vida: cruzar o oceano Atlântico clandestinamente, em um navio cargueiro, e arriscar a vida no Brasil, mais precisamente em Salvador.

Como ele mesmo fala, ao adentrar na embarcação italiana, Gran San Paolo, em outubro de 2008, com destino à capital baiana, ele só poderia ter duas certezas. No entanto, a esperança de dias melhores fez com que ele quebrasse as barreiras do desconhecido e arriscasse o pouco que tinha para viver em um outro continente.

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"As pessoas contavam história de que, quando os clandestinos eram encontrados, os funcionários do navio batiam neles e, depois, jogavam no mar para o tubarão comer. Isso acontece, tem gente que sumiu e ninguém sabe até hoje. Ou seja, talvez eu nunca chegasse no Brasil e, se eu chegasse, teria que dormir na rua, porque não conhecia ninguém. Essas eram as minhas certezas, mas se eu não tentasse, jamais iria saber o meu destino. Caso desse certo, sabia que minha família não iria passar mais fome e eu também poderia ajudar meu povo", contou.

A viagem, que durou cerca de 14 dias, teve um início relativamente 'tranquilo'. Apesar das condições difíceis encontradas no navio, Mohamed estava conseguindo sair ileso de qualquer possível risco. No entanto, o guineense foi descoberto pelos tripulantes e preso dentro da embarcação. Segundo ele, foram seis dias sem comer e a única coisa que fazia era beber água, em péssimas condições. "Tinha muito limo. Para beber, eu colocava minha camisa por cima e sugava a água para não ver aquela coisa nojenta", lembrou.

Questionado sobre a vida que costumava levar em seu país, antes de fugir para o Brasil, Mohamed Camara revelou a infância difícil. Morando na Guiné, ele nunca chegou a conhecer sua mãe, que faleceu ainda no parto e, pouco tempo depois, perdeu seu pai por uma bala perdida durante a guerra civil em seu país. Por isso, o menino acabou indo morar com os tios.

"O fato de não ter conhecido minha mãe faz uma diferença muito grande. Às vezes, vejo as mães abraçadas com seus filhos e penso o quanto gostaria de tê-la aqui comigo, poder dizer que a amo. Infelizmente, eu nunca pude e sinto muito falta. Quando vejo mãe e filho abraçados e um declara amor pelo outro. Penso como queria ter minha mãe, nem que fosse por apenas um dia. Meu pai também faleceu depois, por uma bala perdida em uma guerra civil. Ele e meu irmão sempre foram meus heróis", revelou.

No Brasil, o africano foi acolhido. Na verdade, além das pessoas que chegaram a ficar sob a tutela do jovem de 17 anos, a Bahia inteira abraçou Mohamed em sua chegada. A história de um jovem da Guiné que fugiu para o Brasil em um navio cargueiro atraiu o povo que queria conhecer mais sobre a vida daquele rapaz. Aqui, o guineense ganhou um pai e uma mãe, pessoas que ele mantém contato até hoje.

"Minha história atraiu o povo. Avisaram para uma juíza da minha chegada e essa mulher hoje é minha 'mãe'. Ela ligou para o filho dela, que eu chamo de 'pai', e eles me ajudaram. Através disso, morei um tempo sob a tutela do Vovô do Ilê. Depois, eles me tiraram de lá e me deram tudo que eu tenho hoje. Tenho uma eterna gratidão por eles e todos que entraram em minha vida", afirmou.

Imagem ilustrativa da imagem De Guiné a Salvador: africano cruzou o oceano e se tornou lutador de MMA

Mohamed Camara soma uma vitória e uma derrota no MMA e mira o UFC​ | Foto: Reprodução | Instagram

Bola x Luvas

Mohamed lembra que quando chegou ao Brasil o grande sonho dele era ser jogador de futebol. Fã do atacante Ronaldo Fenômeno, ele foi levado por Newton Mota para realizar uma peneira do Bahia. No entanto, após perceber que não levava muito jeito com a bola nos pés, o caminho talvez fosse colocar a luva nas mãos e tentar a sorte como lutador.

"Pensei que talvez esse sonho não fosse meu. Comecei a pensar no que eu fazia de bom quando estava na África, e lembrei que eu era bom de briga. Gostava de fazer isso e não parava até sair ganhando, era algo incrível. Cheguei aqui na Champion com meu 'pai' e professor Dórea, que me perguntou como poderia me ajudar. Eu falei que queria ser lutador. Ele perguntou se eu queria ser lutador ou apenas treinar, eu respondi que lutador. Ele disse que aqui era academia para ser a campeão. Aquelas palavras me deixaram 'animadão'", disse.

Logo no início, ele queria tentar reproduzir aquilo que era feito na áfrica e 'sair batendo em todo mundo'. Mas, antes de trocar socos com algum adversário, Mohamed precisava aprender os fundamentos básicos do boxe. Segundo o guineense, ele chegou na Academia Champion, no bairro da Cidade Nova, em Salvador, sem saber absolutamente nada de luta. Todo o processo de aprendizado durou cerca de três meses, até que ele pudesse finalmente estar apto para subir em um ringue.

"Falavam para dar um jab, um cruzado e eu não sabia o que era. Me ensinaram tudo passo a passo. Três meses depois eu fiz meu primeiro sparring. Irmão, tomei tanta porrada que urinei sangue quando cheguei em casa. Fiquei assustado, falei com mestre Dórea e ele disse que era normal, tinha que descansar. Com o tempo, fui aguentando a porrada e evoluindo", falou Mohamed em tom mais descontraído.

UFC na mira

No boxe, até o momento, a trajetória foi mais vitoriosa. Em 2016, ao fim do terceiro assalto, Mohamed Camara sagrava-se campeão baiano de boxe amador, na categoria até 69 kg. Mas aquilo para ele não bastava, o grande sonho do menino que saiu da África aos 17 anos agora é entrar no MMA, no evento mais importante do mundo, o Ultimate Fighting Championship (UFC).

Para correr atrás do seu objetivo, o guineense trocou o Farol da Barra pelo Cristo Redentor. Recomendado por Luiz Dórea, Mohamed foi treinar em um local especializado em MMA no Rio de Janeiro, a tradicional e renomada Nova União. Para se ter uma ideia, a academia comandada pelo professor André Pederneiras, já abrigou grandes nomes do UFC atual, como José Aldo, Renan Barão, Thales Leite, BJ Penn e Junior Cigano.

Segundo Mohamed, com especialização na luta em pé, a sua grande dificuldade no MMA estava na luta agarrada, mais especificamente o jiu-jitsu e wrestling. Na verdade, o grande problema não estava nem no estilo da arte marcial, mas nas lesões ocasionadas pelo impacto com o solo. "No início, eu me machucava muito praticando jiu-jitsu e wrestling, por isso terminou atrasando um pouco meu desenvolvimento. Machucava mão, joelho, não sabia como cair".

Os machucados fizeram com que ele desse prioridade para outros tipos de luta, ignorando um pouco a parte mais pegada das artes marciais. No entanto, logo em seu primeiro combate, ficou exposto as fragilidades ocasionadas pela falta de um bom jiu-jitsu em seu currículo. Hoje, com duas lutas em seu cartel, Mohamed Camara acumula uma derrota e uma vitória, respectivamente. Essa última, inclusive, poderá render ao atleta o prêmio de luta do ano contra Marcos Silva, pelo Shooto Brasil 90.

"Na minha primeira luta eu estava muito bem em pé, derrubei meu oponente duas ou três vezes, estava claramente vencendo até que ele me levou para baixo e eu caí na guarda dele, dentro de um triângulo. Quando ele encaixou, fiquei sem saber o que fazer e fui finalizado. Por conta disso, resolvi intensificar ainda mais meu wrestling. Mesmo machucando, fui evoluindo ainda mais. Na seguinte, a gente venceu e foi algo incrível. Vencemos por pontos, mas foi muito bom. Inclusive, por conta disso, estou concorrendo a luta do ano no Brasil", contou o africano, que já tem luta marcada para março deste ano, no Shooto 100, mas ainda sem adversário definido.

Se continuar nesse caminho, os frutos tendem a ser bastante proveitosos para Lamo Mohamed Camara. Frutos esses que, segundo ele, não irão demorar para serem colhidos. Antes de cinco anos, ele já se imagina erguendo o cinturão dentro dos pesos leves com o locutor Bruce Buffer anunciando ao fundo o novo campeão mundial. Para o guineense que cruzou o mar para chegar ao Brasil, o céu é o limite.

"Irmão, eu vou ser campeão mundial. Não preciso nem de cinco anos. Antes disso, já vou entrar no UFC. Vamos chegar 'brocando' tudo, quebrando todo mundo. Cara, eu acredito. Como disse, meus objetivos, meus pensamentos, meu sonho de vencer são tudo como pensamento. É algo que não tem limite, você pode chegar aonde chegar. Eu sou como pensamento e não vou parar. Vou ser campeão mundial e ninguém pode me parar", projetou.

Reencontro com a família

Com o sucesso obtido aqui no Brasil, Mohamed conseguiu realizar um outro sonho que tinha: Reencontrar seus tios e o povo da Guiné. A volta dele para o continente africano demorou um pouco, mais precisamente nove anos, no entanto, o prazer de poder ver e ajudar seu povo foi algo indescritível. A viagem só não foi melhor por um pequeno detalhe, o lutador ainda carrega consigo o desejo de rever seu irmão, que foi estudar fora e hoje trabalha como engenheiro.

"Quando eu cheguei na Africa, eu não consegui encontrar com meu irmão. Ele estudou no Canadá e agora está morando no Marrocos. Ele é engenheiro, mas sei que oportunidades não vão faltar de nos encontrarmos. Eu consegui rever minha família e o povo de lá, levei muito dinheiro para a galera, mas acabou muito rápido. Eu ajudei todo mundo e meu dinheiro acabou. Nunca vi gastar 15 mil em 11 dias. Deve ser ruim ser rico assim. Preciso ser milionário urgente", brincou.

Mesmo com toda a dificuldade vivida, Mohamed agradece a todos aqueles que cruzaram seu caminho. Atualmente, o saldo de conquistas após sua vinda para o Brasil é extremamente positivo. "Hoje eu agradeço por ter passado por tudo isso, porque foi ensinamento. Tem gente que me pergunta como passei por tudo e eu só sei que eu passei. Com muita dificuldade, mas passei e estou aqui bem. Tive pessoas incríveis em minha vida. Talvez se não fosse por isso, não estaria aqui. Se eu tivesse oportunidade, faria tudo da mesma forma", finalizou o lutador.

*Sob a supervisão do editor Nelson Luis

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