Jogo dos sete erros: os pecados capitais que levaram o Vitória à Série C

Publicado quarta-feira, 01 de dezembro de 2021 às 06:05 h | Atualizado em 30/11/2021, 23:30 | Autor: Alex Torres

O rebaixamento do Vitória para a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro já parecia uma tragédia anunciada. Assim como no desempenho na Série A, onde o time escapou duas vezes (2016 e 2017) até cair em 2018, o Leão da Barra conseguiu se livrar do descenso à Série C em 2019 e 2020, até consolidar a segunda queda em sua história em 2021.

Quando se olha para o ambiente que foi instaurado dentro do Vitória, fica difícil apontar um setor onde não seja possível encontrar nenhum problema. Instabilidade política, salários atrasados, trocas no comando técnico, baixo nível do elenco, tudo isso pode ser apontado como fator que contribuiu no rebaixamento do Rubro-Negro.

Para tentar explicar as razões que provocaram rebaixamento, o Portal A TARDE pontuou os sete principais erros do Vitória na temporada 2021. O veterano da imprensa esportiva baiana Elizeu Godoy, que integra a equipe de Esporte do Grupo A TARDE, e o colunista Ângelo Paz, da Resenha Rubro-Negra, ajudam a mostrar os principais equívocos do Leão. Confira:

Aproveitamento como mandante

Um dos principais fatores para um clube ir bem em um campeonato de pontos corridos com 38 rodadas, sem dúvidas, é saber aproveitar as partidas como mandante. No entanto, o Leão da Barra não soube tirar proveito do estádio Manoel Barradas (Barradão) em suas partidas pela Série B.

Ao longo dos 19 jogos disputados no 'Santuário Rubro-Negro', o Vitória venceu apenas cinco vezes, além de quatro empates e incríveis 10 derrotas. O aproveitamento inferior a 34% dos pontos conquistados colocou o time baiano com o terceiro pior desempenho como mandante entre as equipes da Segundona.

“O time como mandante tem que ter o melhor aproveitamento possível. Mesmo que não tenha a torcida para apoiar, você está dentro do seu ambiente, onde você treina, anda todos os dias e isso tudo tem uma certa influência. O time que só tem cinco triunfos como mandante e inúmeras derrotas, não tem condições de almejar mudar de patamar e voltar à Série A. No início de qualquer competição, a comissão técnica pega a tabela e faz uma projeção do que pode acontecer no seu estádio. Tem equipes que vão apresentar dificuldade e tem aquelas que você precisa ganhar. Ganhar apenas cinco e perder 10 vezes em casa, para o patamar de Série B, evidentemente que não há condições de acesso”, afirmou Elizeu Godoy.

Falta de pontaria

Bastante criticado ao longo de toda a temporada, o ataque rubro-negro só conseguiu se ajeitar perto do fim do campeonato, já sob o comando de Wagner Lopes, que formou um tridente ofensivo com David, Marcinho e Fabinho. Mesmo assim, não foi o suficiente para salvar o Leão da Barra na luta para escapar do rebaixamento para a terceira divisão.

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Com 31 gols em 38 jogos, o Rubro-Negro teve o segundo pior ataque do campeonato, empatado com Remo e Londrina | Foto: Pietro Carpi | EC Vitória

Junto com Remo e Londrina, o Vitória teve o segundo pior ataque de toda a competição, com apenas 31 gols marcados nos 38 jogos do certame. Com menos de um gol por partida, o sistema ofensivo rubro-negro só foi superior ao do lanterna, Brasil de Pelotas, que balançou as redes apenas 23 vezes.

“Essa falta de pontaria também está atrelado a falta, de fato, de um camisa 9 para a Série B. O Vitória começou com Samuel, que foi relativamente bem na Copa do Nordeste, principalmente. Mas com a chegada da Série B, esse foi um problema diagnosticado logo de início. Inclusive que fez o Vitória contratar Dinei, que por sua vez se machucou muito rápido. Desde então, o Vitória não conseguiu se encaixar na frente. Estou colocando a ausência do camisa 9, mas isso é algo sistemática que vai desde o setor de meio-campo, com a parte de criação, até o ataque. O time só encaixou no final, quando Wagner Lopes improvisou David como um centroavante”, analisou Ângelo Paz.

Elenco muito jovem

Já planejado pelo ex-presidente Paulo Carneiro desde o início de sua gestão, o elenco rubro-negro para a temporada 2021 foi majoritariamente composto, de fato, por atletas formados nas divisões de base do clube. Salvo algumas exceções, grande parte das contratações realizadas também foram de atletas com idade abaixo dos 25 anos.

Apesar de um início promissor, onde o time chegou a ser semifinalista da Copa do Nordeste, o Rubro-Negro caiu de produtividade ao longo do ano e observou-se a necessidade de mais experiência no grupo leonino. Ao fim da Série B, a média de idade do elenco do Vitória ainda era considerada baixa, com cerca de 24,6 anos.

“Com relação à idade, não acredito que isso seja um valor preponderante, porque o Vitória já tinha um time mais mesclado (na Série B), quando comparado ao início do ano. Ao meu ver, houve uma aposta excessiva na divisão de base no começo da temporada. Qualquer equipe precisa do equilíbrio entre experiência e juventude. Tinha o Wallace, às vezes o Roberto, que nem era titular inicialmente. Para a Série B, acredito que faltou mesmo qualidade do elenco. O time não tinha capacidade de suportar uma Série B, tanto que houve uma busca por reforços”, contrapôs Ângelo.

Bastidores turbulentos

Possivelmente, seria impossível falar dos problemas da temporada 2021 do Rubro-Negro baiano sem falar especialmente das polêmicas extracampo que rondaram o clube. Além dos problemas financeiros referentes a atrasos salariais, que já eram uma realidade no Leão desde antes da gestão de Paulo Carneiro - e agravadas durante a pandemia - ainda houve as diversas ações trabalhistas movidas por ex-jogadores e, inclusive, atletas que ainda pertenciam ao elenco.

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Acusado de gestão temerária, Paulo Carneiro (foto) foi afastado da presidência, que ainda teve Luiz Henrique Viana e, posteriormente, Fábio Mota no comando | Foto: Divulgação | EC Vitória

Se somente isso não bastasse, o mandatário rubro-negro foi afastado de suas funções por acusação de gestão temerário e, posteriormente, o vice-presidente ainda pediu licença do cargo máximo do Conselho Diretor. Coube ao presidente do Conselho Deliberativo, Fábio Rios Mota, assumir o comando do clube na reta final do ano. Dessa forma, o Vitória encerrou a temporada 2021 tendo tido três presidentes (Paulo Carneiro, Luiz Henrique Viana e Fábio Mota).

“O ex-presidente do Vitória, Paulo Carneiro, pisou muito na bola. Falo dele enquanto pessoa jurídica, como gestor do clube, porque não tenho nada contra a pessoa física. Ele tem defeitos em excesso, acha que é um ser supremo, uma divindade e que sabe tudo de futebol, mas muito pelo contrário. Ele está totalmente defasado do mundo atual do futebol. Ele já foi um bom presidente lá atrás, mas hoje não sabe de absolutamente nada. Não tem amizade com presidentes de clubes, para conseguir jogadores que possam ajudar o Vitória. Paulo Carneiro se acha um Deus, descartou todo mundo assim que assumiu a presidência. Ele é um ‘prefeito ditador’ do futebol dentro do Vitória. Claro que o presidente tem hegemonia no cargo, mas precisa ouvir as pessoas. Teve apoio de muita gente que, atualmente, está tentando tirá-lo do Esporte Clube Vitória. A situação do Vitória não é somente Série C. Vai ter muitas ações trabalhistas e salários atrasados, mas o dele (Paulo Carneiro) nunca atrasou. Isso tudo influencia negativamente e refletiu no clube dentro de campo. Na situação que o Vitória está, que o torcedor me desculpe, mas é muito mais fácil ir para a Série D do que voltar à Série B”, avaliou Elizeu.

Excesso de empates

Na temporada 2021, o time conseguiu repetir (e piorar) algo que já foi um grande problema do clube na edição anterior do Brasileirão da Série B. Se em 2020, o Vitória empatou 15 vezes durante o campeonato, esse ano o Leão teve um empate a mais, fechando o torneio novamente com quase um turno de empates.

O excesso de resultados iguais na disputa contribuía diretamente no critério de desempates do clube ao longo da competição. Em praticamente todos os casos em que o time se igualava com adversários no número pontos, terminava ficando atrás devido ao baixíssimo número de vitórias, que, ao fim do campeonato, somavam apenas oito.

“No regulamento do Brasileirão da Série A e B, o primeiro item de desempate é número de vitórias. O Vitória empatou muito, principalmente dentro de casa, além das várias derrotas. Muito melhor vencer uma do que empatar três. O Leão, mesmo se chegasse junto com Remo e Londrina, perdia por conta do excesso de empates e, consequentemente, da falta de triunfos. O time não era equilibrado. A defesa era um pouco melhor, mas o ataque não. Que isso sirva de exemplo, porque precisa-se jogar sempre em cima do regulamento, para não acontecer isso que aconteceu com o Vitória”, complementou Elizeu Godoy.

Saída de Rodrigo, chegada de Ramon

Apontado como 'herói' do time na edição 2020 do campeonato, também por livrar o Leão do rebaixamento, Rodrigo Chagas foi mantido no comando para a temporada 2021. Ídolo do clube e ex-treinador das divisões de base, o técnico foi um dos principais responsáveis por subir jogadores que vinham se destacando na 'Fábrica de Talentos' do Vitória.

Sob a batuta de Chagas, o plantel até conseguia demonstrar qualidade, mas ainda pecava em alguns aspectos, principalmente nas finalizações, fator muitas vezes argumentado como "falta de maturação do elenco". Mesmo assim, o treinador ainda conseguiu um aproveitamento superior a 52% dos pontos disputados.

Após um resultado ruim na Copa do Brasil, contra o Internacional, e um desempenho ruim nas duas primeiras rodadas da Série B. Rodrigo Chagas foi desligado do comando técnico rubro-negro, decisão apontada como precoce por muitos torcedores. Para o seu lugar, foi chamado o também ídolo do clube, Ramon Menezes, mas que não conseguiu sucesso e teve um péssimo aproveitamento, inferior a 30%.

“Acho que a demissão de Rodrigo foi prematura, principalmente porque ele formou uma equipe completamente sem investimento. O Vitória chegou à semifinal da Copa do Nordeste formado 80% por jogadores da base. A demissão veio após um jogo péssimo contra o Internacional dentro de casa, que tinha uma qualidade muito acima do Vitória. Já na Série B, o time não tinha conseguido engatar, mas não por causa do treinador. Ficou muito claro para todo mundo com o insucesso de Ramon posteriormente. Não acredito que tenha sido falta de qualidade de Ramon, foi o elenco mesmo”, opinou Ângelo.

Baianão com time de aspirantes

Por fim, o último aspecto que poderia ser pontuado na lista de 'pecados' seria a disputa do Baianão com o time de aspirantes. Considerado um tema bastante polêmico atualmente, a participação ou não das equipes no estadual ainda divide a opinião de muitos torcedores e cartolas do futebol.

Assim como em 2020, o Vitória utilizou o elenco de aspirantes para disputar o torneio. O primeiro fator que pode ser destacado é o entrosamento do time principal, que fica condicionado apenas à disputa da Copa do Nordeste. Além disso, o péssimo desempenho no Baianão, que culminou na eliminação precoce na primeira fase pelo terceiro ano consecutivo, colocou uma maior cobrança em cima de toda a equipe e, consequentemente, afetou também a moral do elenco.

“Com relação ao Baianão com o time de aspirantes é algo complexo. Porque precisamos nos questionar se o time principal tinha condições de disputar as duas competições em alto nível, se havia jogadores suficientes para isso. A gente viu que o principal era composto por jogadores da base e o dos aspirantes também eram, só que muitos ainda não rodados. Então, diante do elenco que o Vitória tinha ali, foi pensado o planejamento que melhor se adequava. Obviamente, quando a situação ficou mais complexa, Rodrigo resolveu colocar alguns jogadores que estavam no time de cima, mas não teve mais como reverter”, concluiu Ângelo.

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