ESPORTES
Por um Maracanaço positivo
Marcado pela surpreendente derrota em 1950, o País do Futebol espera 64 anos para curar a frustração de não vencer a Copa do Mundo em casa. Das sete seleções campeãs, só a brasileira não festejou diante de sua gente. Justamente a única que ganhou fora de seu continente – em 1958 e 2002.
A quarta edição do Mundial, 12 anos depois da anterior, foi um sucesso. Com ela, a populista ditadura de Getúlio Vargas conseguiu elevar a auto-estima dos cidadãos. Mas sofreu um duro golpe com a derrota de 2 a 1 na final, para o Uruguai, que deprimiu os anfitriões como nunca.
As competições de 1942 e 1946 haviam sido canceladas por causa da Segunda Guerra Mundial. E o futebol renasceu com vigor, recordes de público, grandiosidade e entusiasmo. Há quem considere que, aí, o torneio virou a celebração global que o consagrou.
O Congresso da Fifa acertou em delegar a missão ao Brasil, em 25 de julho de 1946. Solitário candidato, como agora, o País progredia no pós-guerra, enquanto nações poderosas se recuperavam.
ABSTENÇÕES – Terceira colocada em 1938, a Seleção via a bola se popularizar internamente. A Argentina, potência boleira da época, logo teve recusado seu sonho de realizar o torneio. E não veio.
As equipes do Leste Europeu nem se inscreveram entre as 33 que disputaram as Eliminatórias. A Itália superou desfalques e dor, aceitando defender seu título, apesar de ter perdido seu time-base num acidente aéreo que matou a delegação do Torino, em 1949.
A Índia caiu fora, proibida de atuar sem chuteiras. Pela primeira vez, os britânicos, que criaram as leis deste esporte, participaram do Mundial. Mas a Inglaterra deu vexame, derrotada pelos Estados Unidos, por 1 a 0, na considerada maior zebra das Copas.
Rival do Brasil, a Iugoslávia aceitou correr de Belo Horizonte ao Rio Grande, em três dias. Porém, a França teria se rebelado contra a tabela, que determinou jogos em Recife e Porto Alegre, com intervalo de quatro dias e 3 mil quilômetros. Por isso, não cruzou o Oceano Atlântico.
Mais duas equipes classificadas se ausentaram, deixando a competição com 13 concorrentes. No Grupo 4, apenas Uruguai e Bolívia disputaram a vaga.
Da Europa, chegaram Espanha, Inglaterra, Itália, Suécia, Suíça e Iugoslávia. Das Américas, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai, México e Estados Unidos.
O troféu passou a chamar-se Jules Rimet, homenagem ao presidente da Fifa que lutou na origem e na ressurreição da competição.
PRAZOS – Dinheiro público ajudou a melhorar os armengados estádios. E ergueu a então maior arena do planeta, o Maracanã, em tempo recorde, de 2 de agosto de 1948 a 24 de junho de 1950.
Mas, na inauguração, ainda faltavam reparos. Como tradição verde-amarela, quase todas as obras atrasaram. A Fifa precisou dar uma prensa na Confederação Brasileira de Desportos, precursora da CBF.
Era ano de eleições, e os candidatos pongaram nos craques nacionais, na efervescente capital Rio de Janeiro. Claro, atrapalharam a preparação da equipe.
O oba-oba cresceu no ritmo do sucesso da Seleção. Antes da final, já publicavam-se manchetes e pôsteres dos brasileiros como os donos da taça.
No ano anterior, em casa, o Brasil havia sido campeão sul-americana sobre o Uruguai. A base do time defendia o Vasco, que faturou, em 1948, o título continental.
Naquele escrete de uniforme todo branco, havia excesso de grandes jogadores, com destaque para o meia-atacante Zizinho, ídolo de Pelé, e o artilheiro da Copa, Ademir Menezes.
A CAMPANHA – A estréia, no Maraca, animou rapidamente a torcida local, com goleada de 4 a 0 sobre o México.
A demagógica entrada de atletas de clubes paulistas terminou no empate em 2 a 2 com a Suíça, no Pacaembu. A Iugoslávia dependia apenas de uma igualdade no Maracanã, para ir à fase final e eliminar o Brasil. Tomou 2 a 0.
Foi a única vez em que a Copa não se decidiu num duelo. Brasil, Espanha, Uruguai e Suécia realizaram um quadrangular. Os brasileiros dependiam de um empate na última rodada. Isso jamais havia ocorrido e nunca se repetiu.
Os anfitriões haviam humilhado suecos, por 7 a 1, e espanhóis, por 6 a 1. Os uruguaios empataram com a Espanha. Mas deram 2 a 1 no Brasil, no evento batizado de Maracanaço, e estragaram tudo.