“Quero sempre mais”, diz nadadora Ana Marcela

Publicado sábado, 04 de dezembro de 2021 às 06:05 h | Atualizado em 03/12/2021, 21:35 | Autor: Celso Lopez

Ana Marcela é, hoje, o maior nome da história da natação em águas abertas no mundo. Após conquistar praticamente todos os títulos possíveis, com exceção do Mundial nos 10 km, a nadadora falou exclusivamente com o A TARDE, na segunda entrevista com os atletas baianos que concorrem à honraria principal no Prêmio Brasil Olímpico – já vencido duas vezes por ela. Também campeã olímpica, ela conta o que ainda a motiva para seguir competindo. Um sonho: atravessar os 33 km do Canal da Mancha.

Você já ganhou o Prêmio Brasil Olímpico outras vezes. Se ganhar agora, o prêmio terá o mesmo significado que já teve antes ou hoje em dia você se importa menos?

Toda e qualquer premiação é importante, mesmo que já tenha vencido em outras oportunidades. Cada prêmio tem uma história por trás dele, não são iguais.

Você também foi indicada para o Prêmio Inspire, para a atleta mais influente da temporada. É uma nova categoria, está ansiosa? Qual outra atleta você enxergaria como favorita nessa premiação?

É uma nova categoria e achei muito bacana o COB ter criado este reconhecimento. Todas as atletas que estão concorrendo ao Prêmio são merecedoras, portanto só de ter sido lembrada já é uma honra. Todas as concorrentes foram indicadas porque, no seu esporte ou de alguma forma, inspiraram pessoas. É uma homenagem para todas as atletas que inspiram outras mulheres não só por suas carreiras esportivas, mas também por suas lindas e inspiradoras trajetórias.

Hoje você pode dizer que é a maior atleta da história da natação em águas abertas. Como se sente sobre isso? Esse era o objetivo desde cedo?

A medalha de ouro me colocou de vez nesse posto, mas ele não é eterno. Pelo contrário, minha responsabilidade só aumentou, sou o alvo a ser batido. Cada vez mais tenho que me dedicar e me esforçar para me manter no topo. Meu objetivo é sempre fazer meu melhor, tanto no treino como na competição.

Ganhar o ouro na Olimpíada provavelmente tornaria você inconstestável. Esse foi um combustível a mais para buscar a medalha?

Como disse, me preparei muito para esses Jogos Olímpicos. Queria muito vencer e fiz tudo para que essa medalha viesse. Fiz por mim mesma e pelo Brasil.

A preparação para a Olimpíada de Tóquio foi minuciosa, segundo seu treinador, Fernando Possenti. Foi maior do que todas as preparações que já tinha feito antes?

Sim, o planejamento foi feito muito tempo antes. Nos fechamos e tudo foi absolutamente cumprido à risca. Não foi fácil. Tive que fazer renúncias e abdicar de momentos de lazer e em família. Mas tudo valeu a pena. Fernando e a comissão multidisciplinar planejaram tudo da melhor forma.

Em um vídeo da Olimpíada Todo Dia, você contou um fato que ninguém sabia. Você treina imaginando a adversária, mesmo quando não tem uma pessoa física do lado. Ainda faz isso? Continua funcionando?

Faz parte, temos que pensar em todas as alternativas possíveis e imagináveis, facilita o processo mental na hora da decisão.

Você tem alguma prova preferida com determinada distância para percorrer? Ou isso pouco importa?

Prefiro as provas longas, 25 km, 36 km, por exemplo, em mar aberto.

Por conquistar vitórias e bons resultados tão rápido na carreira, acha que resultados como a da Rio-2016 machucam mais do que deveriam?

Foi preciso passar pela Rio-2016 para que o ouro pudesse vir em Tóquio.

Na natação de águas abertas, hoje, você de fato se considera a melhor atleta do mundo?

Sempre acho que posso melhorar. É claro que estou em um momento excelente, mas sempre tem a melhorar.

Muitos atletas de várias modalidades acabam deixando os campeonatos mundiais um pouco de lado para focar no ciclo olímpico, mas você é a mulher brasileira com mais medalhas em campeonatos mundiais, incluindo todos os esportes. Você acha que treinar para o mundial pode atrapalhar seu ciclo de alguma forma? Ganhar o mundial significa poder dizer que é a melhor do mundo naquele momento?

Tudo que é planejado pode ser alcançado. Nada atrapalha se for previamente agendado e programado.

Você ainda não ganhou o mundial nos 10 km, se conquistá-lo, você se sentirá completa em sua carreira? Essa seria uma sinalização de que você pode parar por não ter ‘mais nada’ para conquistar?

Vou atrás desse título, mas ainda não penso em parar. Não faz parte da programação (risos).

Você nada desde os dois anos e está na seleção desde os 14, depois de chegar ao topo e ter experimentado as mais diversas experiências, vencendo ou perdendo, o que ainda te mantém motivada para treinar, completar outros ciclos e buscar mais medalhas?

Eu amo o que faço. Amo nadar e competir. O que me motiva é querer sempre mais. Sempre ser melhor do que ontem. Fernando também é movido a recordes. Quando vencemos em Tóquio ele já começou a contagem regressiva para Paris.

Desde muito tempo você representa Santos, mas, de alguma forma, também representa a Bahia, lugar onde nasceu. O que você pensa sobre a produção de novos talentos aqui? Há incentivo/investimento o suficiente, conhece promessas que ainda não surgiram ao público? Poderia citar alguma?

Me preocupo muito com o futuro do esporte. É muito difícil fazer esporte no Brasil e ter incentivo para tal. Minha intenção é montar uma escolinha onde, além de ensinar a nadar para prevenir afogamentos, possamos descobrir e revelar novos talentos. Quem sabe novas ‘Ana Marcelas’ surjam por ai?

Em entrevista, você disse que o seu próximo objetivo é atravessar o Canal da Mancha, que tem 33 km. Já está se preparando para esse desafio? Tem ideia se a preparação será diferente em relação às provas de campeonato mundial e Olimpíadas?

É um sonho e um desafio que pretendo realizar e concluir. Mas no momento certo. Agora o foco está voltado para os Jogos Olímpicos de Paris. E, como este ciclo é mais curto, acredito que terá que ficar para depois de 2024.

Você revelou também que desde Londres faz acompanhamento com a mesma psicóloga. Ainda continua com essa rotina? Qual é a importância dessa base psicológica para você? Acha que haveria, por exemplo, alguma chance de você ter desistido antes, no Mundial de Xangai ou na Rio 2016, se não tivesse esse acompanhamento?

Desistir não faz parte da minha vida. Sou uma pessoa muito obstinada. O acompanhamento psicológico sem dúvida foi e é muito importante nesse processo. Dra. Carla está comigo desde 2012, são quase 10 anos. Toda a equipe multidisciplinar e o suporte dado pelo COB foram fundamentais.

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