Busca interna do iBahia
HOME > ESPORTES

ESPORTES

Renegados no país, jogadores levam vida ambígua no exterior

Ricardo Palmeira
Por Ricardo Palmeira
| Atualizada em
Jorginho, artilheiro em Malta, celebra gol pelo Hibernians
Jorginho, artilheiro em Malta, celebra gol pelo Hibernians - Foto: Divulgação | Uefa

Poucos baianos devem ter ouvido falar de Malta, ilha de 400 mil habitantes que fica ao sul da Itália. Porém, se puderem ver imagens do artilheiro do último campeonato nacional de futebol de lá, terão a sensação de tratar-se do Campeonato Baiano dos anos 1990.

Jorginho, campeão pelo Hibernians e autor de 25 gols, é a cara do irmão, Ueslei, que foi ídolo do Bahia (1992/94, 1998/2000 e 2005) e teve boa passagem pelo Vitória (1997). Em Malta, ele achou um lugar para mostrar talento e seguir carreira sem maiores fardos.

Em janeiro de 2008, após quatro anos no Japão, onde jogou ao lado de Ueslei no Nagoya Grampus, Jorginho voltou ao Bahia, clube em que havia atuado nas categorias de base. Bastaram poucas semanas para descobrir o quão duro seria defender o Tricolor.

"Fui titular nos quatro primeiros jogos do Baiano. Só que faltou paciência comigo, pois eu precisava me readaptar ao futebol brasileiro. A pressão era muito forte. Meu irmão é o 4º maior artilheiro da história do Bahia (com 140 gols). As pessoas cobravam que eu fosse igual. E eu era um jogador que buscava mais dar passes para gol. Ueslei me alertava: 'Você precisa aprender a fazer gols. Atacante que não faz gol não é lembrado'. Até hoje, digo a minha esposa que talvez fosse melhor a gente ter ficado no Japão".

Imagem ilustrativa da imagem Renegados no país, jogadores levam vida ambígua no exterior
Foto: Editoria de Arte | A TARDE



Liga dos Campeões

Jorginho deixou o Tricolor em abril daquele ano com um único gol e se tornou mais um dos milhares de brasileiros a rodar o planeta. Há um mês, viveu uma glória: marcou na Liga dos Campeões da Europa, o campeonato de clubes mais badalado do mundo. Foi pela fase preliminar, em 14 de julho, na vitória por 2 a 1 sobre o Maccabi Tel-Aviv. Uma semana depois, em Israel, o Hibernians levou 5 a 1 e foi eliminado.

"Foi maravilhoso marcar em uma competição de tão alto nível. Só não vou tirar onda com Ueslei, dizendo que eu fiz gol na Liga dos Campeões e ele não, porque ele é um ídolo e vai me rebater: 'Foi campeão de quê? Jogou onde?' (risos)". Ueslei gargalha: "Que nada! Sou feliz demais pelo sucesso do meu irmão, que tem evoluído a cada dia na carreira".

A história dos brasileiros no exterior fascinou o jornalista e escritor inglês Alex Bellos, autor do livro 'Futebol: o Brasil em Campo'. O primeiro capítulo fala de quatro jogadores que, na década passada, foram para as Ilhas Faroé.

Tudo sobre Esportes em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Ele declarou ao A TARDE: "Existe historicamente na Europa a cultura da grife do 'futebolista brasileiro'. É como um 'chefe de cozinha francês'. Países de pouca tradição adoram essas contratações. E me fascinou ver a ambiguidade para os brasileiros do que é jogar em países distantes. É um céu pelo salário digno e orgulho de serem admirados por amigos. Mas pode ser um inferno: vi jogadores frustrados por estarem numa cultura estranha e longe de quem amavam".

Imagem ilustrativa da imagem Renegados no país, jogadores levam vida ambígua no exterior
Foto: Editoria de Arte | A TARDE



Espalhados pelo mundo

Não é complicado achar baianos que vivam essa ambiguidade. Paulinho mora desde 2008 no Chipre - onde defendeu três clubes - sem perder o foco: fazer seu 'pé de meia' para, daqui a três anos, voltar a morar em Salvador.

"Quando cheguei ao Chipre, eram muitos brasileiros. Quase todos foram embora nos anos seguintes. Me senti sozinho, sem amigos. Minha vida é só casa e trabalho. Muitas vezes, penso em desistir de tudo e ir embora. Mas vejo que tenho uma vida digna, bom salário, e fico. Minha esposa é quem me dá força", contou o jogador, que comprou dois apartamentos de três quartos em áreas nobres da capital baiana.

Renê Santos, por sua vez, está na Geórgia. Na primeira temporada, 2013/14, foi eleito o melhor zagueiro do campeonato pelo Zestafoni e transferiu-se para o Dínamo Tbilisi, time mais popular do país. Um segredo para o sucesso, ele diz, é enturmar-se com a cultura local.

"Cheguei com contrato de seis meses e pensei: 'Será o semestre que mudará minha vida'. Me dediquei ao máximo nos treinos e fiz amizades com georgianos. Meu melhor amigo é o Chanto (Chanturishvili, meia do Dínamo). Curto a Geórgia e vou muito às praias. Não penso em voltar tão cedo", disse. Mas, perguntado se prefere praias baianas ou georgianas, ele emenda: "Ah! As da Bahia são bem melhores, né? Sem dúvidas!".

Imagem ilustrativa da imagem Renegados no país, jogadores levam vida ambígua no exterior
Foto: Editoria de Arte | A TARDE


>> Propostas podem ser armadilhas para golpes contra jogadores

Supostas propostas do exterior são frequentemente armadilhas para atletas iniciantes. Há um ano, veio à tona o caso de Décio Francisco Leite da Costa, que se passou por olheiro de clubes italianos e tirou R$ 2 mil de três famílias no Rio de Janeiro sob a promessa de levar jovens para a Europa.

Rinaldo Martorelli, goleiro do Palmeiras nos anos 1980 e atual presidente da Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais), conta: "Há alguns meses, ajudamos a resgatar seis garotos abandonados por um empresário em Frankfurt, na Alemanha. Agora ajudamos uma mãe que deu R$ 16 mil a um empresário que havia prometido empregar o filho dela num clube. Não posso revelar nomes, pois são menores de idade e os processos criminais ainda estão em andamento. Mas é preciso alertar: jogador nunca paga para jogar. Ele só ganha!".

Martorelli acrescenta: "Um atleta nos pediu ajuda para traduzir um contrato em romeno. Conseguimos a tradução junto à embaixada no Brasil. Quando fomos procurar o atleta, ele já tinha viajado. Não tivemos mais notícias dele. Se teve problemas, não nos procurou por vergonha. Infelizmente, é comum vítimas não revelarem o que sofreram por ficarem envergonhadas".

Para atletas estabelecidos, o problema está nas falsas promessas de clubes estrangeiros. Há três semanas, o atacante Alexandro acertara com o Bahia, mas deixou Salvador ao receber proposta dos Emirados Árabes. "Cheguei lá e, na hora de assinar contrato, não era o mesmo valor que haviam proposto", disse. Para sua sorte, o Bahia o aceitou de volta.

Rafael Bastos, ex-meia da dupla Ba-Vi, hoje no Figueirense, relata sua história no Al-Nassr, da Arábia Saudita, em 2013: "Levei um golpe. Não recebi salários e, quando tentei ir embora, tomaram meu passaporte. Com a intervenção da Fifa, consegui deixar o país um mês depois".

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Compartilhar no Whatsapp Clique aqui

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

Relacionadas

Mais lidas