'A vida é bela', ou tenta ser, em hospital psiquiátrico em Kiev

Antes da guerra, havia 120 pessoas para cuidar dos pacientes. Metade não voltou ao trabalho

Publicado sexta-feira, 18 de março de 2022 às 23:33 h | Atualizado em 18/03/2022, 23:33 | Autor: AFP
Tudo é pensado para que as rotinas sejam mantidas e os internos também se esforcem
Tudo é pensado para que as rotinas sejam mantidas e os internos também se esforcem -

Às vezes, quando a guerra sacode as paredes de sua clínica psiquiátrica no noroeste de Kiev, Oksana se esconde para chorar. Depois, essa enfermeira se recompõe, força um sorriso e volta ao seu trabalho: garantir aos internos que "está tudo bem" na Ucrânia. 

"A primeira vez foi tão forte que tivemos que nos sentar. Desde então, nos acostumamos e esperamos que os mísseis não atrapalhem nosso caminho", diz Viktor Jouravski, diretor do centro especial para homens. Seus olhos pequenos refletem a noite de bombardeios que acabou de vivenciar. 

"As explosões foram muito fortes. E quando começam a disparar, não dormimos a noite toda", explica. Desde o início da ofensiva russa, esses bairros no noroeste de Kiev vivem em meio à guerra.

Uma guerra que mata e destrói todos os dias nas cidades de Irpin e Butsha, a poucos quilômetros deste centro, que abriga 355 pacientes em prédios retangulares cercados por áreas verdes. 

Algumas noites, "choro inconsolável no meu quarto para que ninguém possa me ver", admite a enfermeira-chefe Oksana Padalka. 

Antes da guerra, havia 120 pessoas para cuidar dos pacientes. Metade não voltou ao trabalho. Entre eles uma enfermeira que mora em Butsha, na linha de frente, e de quem Oksana não tem notícias "há duas semanas". 

A mulher evita mostrar suas emoções aos "meninos", como chama os pacientes entre 18 e 80 anos cujas famílias não podem cuidar deles e que vivem no centro.

"Somos sua família"

"Se eu tomar algum remédio, no dia seguinte, de manhã, estou tranquila", confessa Oksana. A mulher se maquia e chega sorrindo na frente de seus pacientes. 

"Se eles virem que permanecemos calmos, eles pensam que tudo está normal, que tudo ficará bem. Mas alguns dizem que estão com medo", outros perguntam quando a guerra vai acabar". 

"Nós os abraçamos, dizemos a eles que somos sua família, mostramos que estaremos aqui para cuidar deles, que tudo está indo bem, que a vida é bela". 

A tranquilidade se espalha pela biblioteca do centro. Uma dezena de reclusos, entre 35 e 60 anos, joga tranquilamente xadrez, pinta ou faz artesanato.

Tudo é pensado para que as rotinas sejam mantidas e os internos também se esforcem. "Temos eletricidade, comida, essa rotina lhes dá tranquilidade", diz o diretor. 

A única mudança é que os pacientes vão dormir "praticamente vestidos" para que possam descer rapidamente para o bunker do porão em caso de bombardeio. 

O refúgio é um lugar espartano da era soviética, em que os internos tiveram que se refugiar "em três ou quatro ocasiões" por menos de uma hora, explica o diretor. As caminhadas no jardim também estão mais curtas e os residentes não conseguem acessar a internet.

"Não queremos que eles fiquem chateados com informações negativos" ou "vejam horrores", diz Padalka.

"Glória à Ucrânia"

Impossível, no entanto, reduzir as horas de televisão, diante da qual alguns passam o dia todo. Mas é permitido assistir apenas à emissora pública ucraniana, que envia mensagens positivas sobre o conflito e a resistência ucraniana enquanto garante a vitória sobre os invasores russos. 

Os moradores cantam com entusiasmo o slogan repetido incansavelmente: "Slava Ukraïni" ("Glória à Ucrânia"). 

"A Ucrânia vai ganhar, é claro", diz Yura, na casa dos 40 anos, enquanto pinta na biblioteca, onde abundam as decorações patrióticas em azul e amarelo, cores da bandeira ucraniana.

Por enquanto, nada está faltando no centro. Mas ninguém sabe o que acontecerá se faltar água corrente ou se a eletricidade acabar e o local for isolado pelos combates.

Em um corredor, vários pacientes vagam sem rumo ou olham pela janela sem dizer uma palavra, solitários e dispersos. 

"Temos patologias graves em alguns casos", diz um médico, antes de se despedir, sorrindo: "É claro que se (o presidente russo Vladimir) Putin viesse aqui, nós o internaríamos imediatamente".

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