Armas nucleares táticas, uma opção para Moscou?

Opção continua sendo um dos inúmeros cenários possíveis da guerra

Publicado quarta-feira, 23 de março de 2022 às 23:57 h | Atualizado em 23/03/2022, 23:57 | Autor: AFP
Hipótese ressurgiu logo após o início das hostilidades, quando Putin ordenou seus generais "colocarem forças de dissuasão do exército russo em alerta especial de combate"
Hipótese ressurgiu logo após o início das hostilidades, quando Putin ordenou seus generais "colocarem forças de dissuasão do exército russo em alerta especial de combate" -

Uma pergunta frequente desde o início da invasão russa da Ucrânia é se Moscou poderia usar suas armas nucleares táticas em uma área muito limitada, o que quebraria um tabu que existe desde 1945.

A hipótese ressurgiu logo após o início das hostilidades, quando o líder russo Vladimir Putin disse ter ordenado a seus generais "colocar as forças de dissuasão do exército russo em alerta especial de combate". 

Essa opção continua sendo um dos inúmeros cenários possíveis da guerra, especialmente porque o exército russo precisa obter alguns sucessos militares para negociar. 

Embora suas tropas tenham avançado para a Ucrânia no mês passado, elas também encontraram resistência feroz das forças ucranianas. 

Uma arma nuclear tática, com carga explosiva menor que uma arma nuclear estratégica, é transportada por um veículo lançador com alcance inferior a 5.500 km. 

"Existe um risco real. (Os russos) precisam desesperadamente de vitórias militares para transformá-las em alavancas políticas", disse à AFP Mathieu Boulègue, do centro de análise britânico Chatham House. 

"A arma química não mudaria a rumo da guerra. Uma arma nuclear tática que destruiria uma cidade ucraniana, sim. Improvável, mas não impossível. E nesse caso, seriam 70 anos de teoria da dissuasão nuclear caindo." 

Mas ainda há um grande passo entre o risco e a realidade. 

A doutrina russa é objeto de debate. Alguns especialistas e militares, especialmente em Washington, sustentam que Moscou abandonou a doutrina soviética de não usar a arma nuclear primeiro. 

As opções de Moscou agora incluiriam a teoria da "escalada para desescalada", ou seja, usar a arma em proporções limitadas para forçar a Otan a recuar.

1.588 ogivas implantadas

Mas declarações russas recentes colocaram essa interpretação em dúvida. Moscou só usaria a arma nuclear na Ucrânia se houvesse uma "ameaça existencial" contra a Rússia, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, à CNN na terça-feira, citando um dos pontos da doutrina oficial russa. 

"Não vimos nada que nos levasse a concluir que deveríamos mudar nossa postura estratégica de dissuasão", disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby. 

Do ponto de vista técnico, Moscou está bem equipada. De acordo com o Boletim dos Cientistas Atômicos, "1.588 ogivas nucleares russas estariam implantadas", incluindo 812 em mísseis terrestres, 576 em mísseis submarinos e 200 em bombardeiros. Pouco menos de 1.000 cabeças estão armazenadas. 

Para Pavel Luzin, analista do 'think tank' Riddle, com sede em Moscou, a Rússia poderia usar uma arma nuclear tática "para desmoralizar um adversário, para impedir que o inimigo continue lutando". O objetivo é antes de tudo "demonstrativo", acrescenta à AFP. 

"Mas se o adversário quiser continuar lutando, pode ser usado de forma mais direta".

De fato, as ameaças podem ser minimizadas nos altos escalões, mas têm um efeito: o risco não pode ser totalmente descartado.

Grande custo político

"Em caso de impasse ou humilhação, é possível imaginar uma escalada vertical. Faz parte da cultura estratégica russa intimidar e cavar fundo para reduzir a escalada", disse um alto funcionário francês, sob condição de anonimato. "Putin não entrou nesta guerra para perdê-la", acrescenta. 

Outros preferem acreditar que o tabu absoluto permanece. Se Putin decidir destruir uma única cidade ucraniana para mostrar sua determinação, a área ficaria potencialmente desprovida de vida humana por décadas. 

"O custo político seria monstruoso. Eles perderiam o pouco apoio que lhes resta. Os indianos recuariam, os chineses também", disse à AFP William Alberque, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS). 

"Não acho que Putin fará isso", acrescenta. O fato é que, fora a questão ucraniana, a Rússia não gozaria hoje do status de superpotência militar sem armas nucleares. O país não representaria tal ameaça apenas com suas forças convencionais. 

Há um mês, a Rússia demonstrou uma imensa capacidade de destruição, mas ao mesmo tempo mostrou verdadeiras fraquezas táticas, operacionais e logísticas.

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