Pandemia derruba valores de venda e aluguel dos imóveis comerciais

Publicado sábado, 06 de março de 2021 às 06:04 h | Atualizado em 05/03/2021, 19:09 | Autor: Priscila Dórea e Sarah Cardoso*

Com o aumento na procura por imóveis residenciais e o desaquecimento no interesse por imóveis comerciais, o mercado imobiliário se dividiu bem entre resultados positivos e negativos desde o início da pandemia. Devido ao isolamento e ao home office, pequenas e grandes empresas tiveram que devolver seus espaços presenciais de trabalho, e, de acordo com o levantamento FipeZAP, nos últimos 12 meses, os preços de venda e locação do segmento acumularam quedas de 1,32% e 1,18%, respectivamente.

Quando o assunto é a Bahia, José Alberto de Vasconcellos, diretor de patrimônio do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia (Creci-BA), chama a atenção para o boom de salas comerciais lançadas no estado nos últimos anos. Os empreendedores viam que os outros estavam tendo sucesso, construíam os seus espaços e jogavam no mercado. “O número de imóveis ofertados se tornou muito grande, afetando a lei de oferta e procura e, consequentemente, o preço. Como houve uma piora na situação econômica do país, muitas coisas pararam, e isso fez com que muitas empresas entregassem suas salas alugadas. E, claro, sala vazia sem nenhum interessado imediato faz os preços caírem”, conta.

Porém o corretor Adalberto Duque explica que esses valores não baixaram tanto quanto se esperaria diante da situação em que o mercado vive. “Os preços se mantiveram relativamente estáveis aqui na Bahia, principalmente quando o assunto são as casas comerciais maiores. Esses locadores geralmente possuem uma condição financeira melhor e conseguem manter preços considerados altos ao levarmos em conta a crise que estamos passando. E a procura, mesmo que escassa, ainda existe”, explica.

Com cerca de 10 a 15 imóveis comerciais de médio e grande porte não ocupados, a corretora Iolanda Mattos acredita que essa fatia do mercado imobiliário ainda vai continuar um bom tempo em queda. Por isso, ela alerta que uma das primeiras medidas que os corretores de plantão devem tomar é buscar conscientizar o locador sobre esse excesso de imóveis em oferta e a pouquíssima procura, sinalizando que talvez seja mais vantajoso para ele baixar um pouco o valor. E, claro, colocar bons imóveis no mercado.

“Precisamos oferecer também facilidades de pagamento para o locatário, assim como comodidade em todas as etapas do processo, algo que muitos deles têm procurado desde o início da pandemia. É necessário também oferecer opções aos clientes, seja de pagamento, tempo de locação ou estilo de imóvel”, explica a corretora.

Busca por alternativas

“Em meio à pandemia, o mercado comercial busca formas alternativas para respirar”, afirma Edivaldo Constantino, economista da DataZAP, braço de inteligência imobiliária da ZAP+. O aumento considerável do trabalho remoto, tendência que foi acelerada com a pandemia, trouxe efeitos significativos no mercado imobiliário, principalmente no segmento comercial. Entretanto, para ele, essa não deve ser a forma de trabalho única e exclusiva em um mundo pós-pandêmico.

“Espera-se que o mercado de trabalho adote cada vez mais regimes híbridos, entre o online e o presencial. Isso significa que os escritórios ou salas comerciais não deixarão de ser relevantes no novo cenário que surgirá. Além disso, questões como cultura e valores são mais bem disseminados dentro do mundo empresarial em locais físicos. Nesse contexto, espera-se que o aumento de imóveis comerciais flexíveis, em que os funcionários passam parte do seu tempo no escritório e em home office. Espera-se também algum movimento de descentralização das sedes de firmas, permitindo que os funcionários trabalhem em espaços de coworking ou em unidades menores e que, eventualmente, podem ser mais próximas de suas casas”, explica.

As empresas já estão procurando alternativas, principalmente as de grande porte, conta o corretor Alex Dórea, e muitas já estão adotando o regime híbrido de funcionários, entregando casas comerciais maiores e em troca locando espaços de trabalho menores. Outro movimento que o corretor tem observado é a compra de espaços ocupados, que o locador não tem mais condição de manter. De acordo com Dórea, essa é uma modalidade chamada de venda casada, onde o investidor enxerga o imóvel e o locatário como um bom investimento.

“Fechei uma negociação dessas não tem muito tempo, era um aluguel antigo, de uma locatária dentista que sempre pagou direito. Tem se tornado recorrente que os investidores não hesitem em fazer uma oferta ao encontrarem um bom imóvel comercial acompanhado de um bom inquilino”, relata.

O leque de imóveis comerciais disponíveis no mercado e a procura por alternativas e soluções que não se resumam a um regime completamente home office são alguns dos fatores que mostram que o mercado de imóveis comerciais pode se recuperar antes do esperado, mesmo que aos poucos.

“Evidentemente a gente sabe que isso é uma coisa temporária e eu acredito que vá mudar, porque o nosso país está acostumado com essas crises e os altos e baixos da nossa economia. A pandemia só veio agravar uma situação que já vinha acontecendo antes e, em pequena escala, essa filosofia do home office contribuiu para isso”, diz Vasconcellos.

*Sob supervisão da editora Cassandra Barteló

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