Estilista Isaac Silva lança coleção Cores da Bahia

Publicado segunda-feira, 06 de dezembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 06/12/2021, 15:44 | Autor: Álene Rios

Em meio a tecidos, revistas e o som da máquina de costura do ateliê de Morena, em Barreiras, no interior da Bahia, Isaac Silva descobriu os encantos do universo do vestuário. Passou a maior parte da sua infância no local que pertencia a uma grande amiga da família.

Foi por lá, também, que o gestor de moda e designer, de 33 anos, sentiu que havia a possibilidade de trabalhar com o que admirava, ainda que a moda, então, fosse inacessível e sinônimo do cheiro de roupas novas no Natal ou Ano Novo.

Com a efervescência do mercado da moda nos anos 2000, Isaac veio morar em Salvador e aproveitou todos os cursos gratuitos relacionados ao tema enquanto ainda não podia investir na carreira.

Logo depois, formou-se em design de moda pela Universidade Salvador (Unifacs), e posteriormente, em São Paulo, onde reside atualmente, fez o curso de produção de vestuário.

Em 2015, lançou a marca Isaac Silva e, desde então, tem investido no que acredita: a moda como instrumento de transformação com potências sensoriais e políticas.

A experiência deu tão certo que, em breve vai abrir uma nova loja no bairro de Pinheiros e, em novembro último, apresentou uma coleção pela quarta vez na maior semana de moda da América Latina, a São Paulo Fashion Week.

Em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data simbólica para a luta antirracista, a passarela da SPFW esquentou ao ganhar cores, aromas e a musicalidade baiana do pagodão com as novas criações da coleção Cores da Bahia, com tops, minissaias, maiôs, looks esportivos, entre outros.

Além do trabalho, obviamente, quando perguntado sobre o que mais gosta de fazer, Isaac responde empolgado e sem hesitação: “Viajar para Salvador”. Sua paixão pela capital baiana, aliás, fez com que o designer levasse a plateia do evento para viajar junto com ele.

O desfile contou com a colaboração da Havaianas pela segunda vez e apresentou um cast diverso, com modelos que dançavam imprimindo vida e movimento à exibição das peças. Também emanou no desfile a fragrância de alecrim, da Avatim – identidade olfativa da marca Isaac Silva.

Consciência

A indústria da moda é responsável por 8% da emissão de gás carbônico na atmosfera e fica atrás apenas do setor petrolífero. Mas, com consciência, Isaac inclui a sustentabilidade como um dos pilares para sua ação no setor que também é o quarto que mais emprega.

Ele trabalha com tecidos tecnológicos como a fibra de algodão, que no verão é fresca mas no inverno esquenta, numa cadeia de produção limpa onde 90% dos tecidos são de origem nacional.

“A moda, feita da melhor maneira possível, transforma tudo: o sistema, a mão de obra e traz autoestima para as pessoas. Nenhuma marca hoje em dia vai se sustentar se ela não for diversa e não tiver sustentabilidade. São dois pilares, na verdade, o da sustentabilidade e o da humanização, então, se as marcas não trabalharem com a questão da sustentabilidade e da diversidade, não tem porque essa marca existir”, defende.

Fascinante

Para Neon Cunha, 51, publicitária, colaboradora da marca e amiga de Isaac há 15 anos, a palavra que o define é entrega. Ela considera o designer uma das pessoas mais fascinantes no sentido de humanidade e complexidade, divertido, consciente, uma pessoa que tem comprometimento e propósito ao olhar e falar.

“A gente não tinha uma representatividade de um estilista negro propondo tanta provocação na moda, inclusão de corpos, pensamento e resgate histórico. Não é um resgate numa coisa pontual ou numa coisa marcada, mas no compromisso de alteração, de dizer ‘nós vamos por aqui para ampliar o pensar a moda’. Não é somente sobre uma questão de ser inclusiva ou não, mas de ser uma moda de processos de transformação, com pensamento de crítica e de contribuição para um pensar social”, diz Neon.

A transformação fala por si nas peças de Isaac Silva, onde a roupa é feita para vestir o corpo de uma pessoa, independentemente da identificação do gênero.

Para ele, ainda que uma pessoa se identifique com um gênero específico, a roupa está disponível para que ela possa vestir. “Não trabalho com as seções de gênero feminino ou masculino, eu faço roupas”, explica.

“Vejo que hoje a mudança tem que acontecer, de 10 em 10 anos a moda muda. Tem a frase ‘Acredite no seu axé’, então, se eu não acreditar na moda que eu faço... ‘Acredite no seu axé’ é a maneira da moda que eu acredito, e a moda que eu acredito é esse trabalho que venho fazendo”.

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