"A educação antirracista precisa de um mergulho muito maior"

Escritora se prepara para lança seu terceiro livro, Aziza, a preciosa contadora de sonhos

Publicado segunda-feira, 21 de março de 2022 às 06:02 h | Atualizado em 20/03/2022, 18:31 | Autor: Vinícius Marques
Cássia Valle, atriz e escritora
Cássia Valle, atriz e escritora -

A atriz, escritora, produtora cultural, professora, museóloga, historiadora e psicopedagoga Cássia Valle possui um currículo extenso, que ela gosta de dizer que começou em 1991, quando entrou para o Bando de Teatro Olodum. Foi lá que Cássia resolveu cursar museologia, graças a uma outra atriz do Bando, Nilde Vieira. Da museologia, Cássia decidiu cursar história e daí em diante as pesquisas acadêmicas também fizeram parte de sua construção como artista. “O teatro é um divisor de águas para minha própria vida, minha construção como mulher, negra, ativista, militante e para minha vida intelectual, porque foi lá que conheci esse curso que me encantou tanto e gerou a historiadora, a mestre em Patrimônio Cultural, e  agora estou mestranda de novo, em Educação”, diz ela. Foi no Bando também que a artista viu uma chave virar e, em 2017, ao lado da amiga Luciana Palmeira, decidiu escrever seu primeiro livro infantil, Calu, uma menina cheia de histórias, que no mesmo ano foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria melhor livro infanto-juvenil. Mais tarde, a história de Calu ganhou um segundo livro, o Bloquinho de Poemas e Canções, que resultou no espetáculo Sarauzinho da Calu, no Festival A Cena Tá Preta, organizado pelo Bando, no Teatro Vila Velha. O espetáculo acabou vencendo o Prêmio Braskem de Teatro 2020. Ela brinca que o Sarauzinho é como se fosse sua pós-graduação do Bando: “Tem muitas coisas daquele método que aprendi e vivi lá que aplico no Sarauzinho”. Agora, ela está se preparando para lançar, ao lado da amiga Luciana, seu terceiro livro, Aziza, a preciosa contadora de sonhos, com lançamento marcado para o dia 26 de março, às 16h, na livraria Escariz do Shopping Barra. No livro, Cássia e Luciana abordam a autoestima de crianças negras e preconceito racial nas escolas. Nesta entrevista, Cássia conta como foi o processo de construção dessa nova personagem, suas influências e sobre o estudo decolonial para crianças negras.

Como foi o processo para a escrita de Aziza, a preciosa contadora de sonhos? Qual foi a inspiração?

Eu passeei muito pelas escolas fazendo lançamentos, ouvindo as crianças, e ouvindo os relatos das crianças, porque a gente pensa que não, mas o racismo está em todo lugar. E claro, a criança não é racista, mas ela realmente reproduz o que  vê em casa. Então, eram muitos relatos de crianças que diziam sofrer racismo pela sua cor, pelo seu cabelo, pelos seus traços, pela própria questão religiosa e isso é muito forte. Nós não somos invisíveis mesmo, mas algumas pessoas preferem não nos ver. Melhor não ver ao dizer que 'isso não existe na infância', porque muito pelo contrário,  a gente viu isso dolorosamente e Luciana também, em Brasília. Eu ouvi as histórias dela e o curioso é que as duas, em lugares diferentes, ouvimos coisas muitos parecidas, nos relatos de crianças, sobre a questão do desrespeito à sua diversidade, ao outro. E aí veio Aziza. A gente queria muito falar... na verdade, queremos falar sobre um menino, tem um chamado aí, mas a gente tinha na cabeça que isso é uma trilogia, ainda vai nascer uma outra menina até aparecer um rapaz. Já temos até um argumento para ele, mas tem um pacto aí que vêm três meninas primeiro. A gente estava com um material maravilhoso na frente, mas eu recuei um pouco. Disse que não dava para ser dura como a gente é no Bando, que temos a coisa da militância, mas com criança a gente tem que dar uma ludicidade. E com Calu, no Sarauzinho, alguns poemas foram nascendo, e eu lembrei que temos um poema que nasceu por último, que é o do Dragão da Maldade. Nós pegamos o Dragão da Maldade, que fala de uma criança que passa num lugar e todo mundo a xinga de 'cabelo duro', 'cabelo de macaco', 'cabelo de aranha', e ela dá uma resposta com ludicidade, através de poema. E a partir desse poema a gente colocou um argumento, vimos que aquele poema dava história. E esse dragão é o Dragão da Maldade, que veio num sonho para ela e falava coisas que essas crianças ouvem nas escolas. São crianças que dizem isso para outras crianças, mas colocamos o dragão como uma metáfora porque  acho que o dragão é uma coisa mitológica, forte, bem a cara do racismo, do mal, e aproxima as crianças pela coisa do fantástico e ela é a vencedora desse dragão. Não conto o livro todo, mas tem um momento que ela vence e faz o dragão repensar todo seu processo também.

Como sua formação como historiadora e psicopedagoga, além da atuação como professora e membro do colegiado gestor do Bando de Teatro Olodum, ajudaram  na construção dessa história?

O Bando é minha primeira escola, vem a universidade que completa tudo isso, mas gosto de dizer que a minha grande universidade é o Bando de Teatro Olodum. A gente tem um espetáculo chamado Áfricas, que é a minha inspiração também. Fazemos um mergulho na história do continente africano, para falar para todo mundo que esse continente é muito maior do que uma cidadezinha, como pensam, e que lá não existe só leão, elefante... Ali tem pessoas que fazem cultura, que têm muita inspiração. É no Bando que tenho uma relação maior com minha religiosidade, então, a Aziza, tanto quanto Calu, têm um respeito enorme com sua ancestralidade, e  aprendi muito isso no Bando também. O Bando é minha matéria-prima maior, meu grande mestre, esse lugar, meus colegas, e esse é mais um livro em homenagem ao Bando. E, é claro, à universidade, porque também faz parte do meu complemento. Mas sempre fui, na universidade, aquela que queria ir para além da ciência, essa ciência que a gente faz com tanta exatidão. Sempre quis, nas minhas pesquisas da universidade, valorizar a cultura popular e essa sabedoria. E a Aziza está coberta disso. O livro é uma grande homenagem a Oxumarê também. Cada livro tem um Orixá. Oyá e Oxumarê e sempre Oxum, porque é minha mãe, está carregada de elementos deles nesses livros, tanto em Calu quanto em Aziza, de uma forma lúdica, para as crianças pensarem, entenderem e respeitar sua própria diversidade e ter orgulho disso. O principal em Calu era que a representatividade importa, e Aziza vem dizer que me respeitar importa, quem eu sou, com as minhas diferenças, com todas as minhas possibilidades de ser vários seres. Eu quero respeito. E a escola tem que ser o território que fomente isso, precisamos de mais políticas públicas, sim. Precisamos que os professores sejam capacitados sempre, porque não adianta uma capacitação só para falar rapidamente da educação. A educação decolonial é um processo muito maior. A educação antirracista precisa de um mergulho muito maior. Não vai ser numa oficina rápida que o professor vai pegar tudo isso, e ele não é o culpado, mas a gente precisa ter um projeto pedagógico que realmente pense. Já estamos atrasados demais, falando sempre da cultura do colonizador. Precisamos de respeito, e não um respeito só por causa da lei, um 'toma aí', a gente precisa estar malhando isso, se aprofundando, capacitando professor, pensando em política pública, parar totalmente de fingir que o racista não existe. Precisamos encarar que ele existe e mudar, colocar todo mundo na roda. Não adianta só nós, negros, falarmos. Essa guerra não é nossa, esse Dragão da Maldade não foi a gente que inventou. Não somos guerreiros, não. Queremos igualdade, respeito, chega de guerrear, chega. Estamos mais a fim de tentar buscar qual papo vai fazer a gente realmente parar para pensar que existe uma reparação a ser feita. Nossas crianças existem e temos estatísticas de  que já têm processo de depressão, de crianças que não se aceitam porque é difícil se aceitar quando todo mundo cai matando nela. Isso é muito grave porque estamos falando de crianças, mas depois ela vai ser adulta. Não existe mais lugar para continuarmos reproduzindo as coisas que fizeram tão mal a todos nós durante todos esses anos.

A protagonista Aziza é uma personagem que conhece e ama suas raízes africanas. Como foi o processo de pesquisa para a construção dessa personagem? Você conheceu muitas Azizas?

Muitas Azizas nessas escolas. Claro que a gente vai fazer um grande mergulho, Luciana faz isso muito bem nos livros que sempre nos baseamos, então, vêm aí Conceição Evaristo, Ângela Davis, sempre, nossa grande mestra, apesar de que estamos falando para crianças, mas temos que pesquisar. Também uma pesquisa no trabalho da Bell Hooks, principalmente o primeiro livro dela, que parece ser para criança, mas no fundo é para todo mundo, o Meu Crespo é de Rainha. A gente tem um trabalho bem forte, eu e Luciana fizemos um mergulho bem bacana. E essas são uma das bases da nossa pesquisa, porque um livro não sai sem pesquisa. Além de ouvir, que é um processo de pesquisa da cultura oral, mas também é preciso essa outra pesquisa para ter um embasamento. 

O livro é voltado para crianças entre 5 e 12 anos, ou seja, as chamadas primeira e segunda infâncias, certo? Como é abordar os temas de preconceito racial nas escolas e a autoestima de crianças negras para esse público mais jovem?

Isso, pensando em já botar essa pontinha aí de reflexão nessa primeira e segunda infâncias. Acho que a nossa grande arma é a ludicidade. Aziza é um livro que vem aí com uma música feita especialmente para Aziza, composta por Céu Dantas, que quem canta é a Aya Dantas, filha dele, que também faz parte do Sarauzinho da Calu. Dessa vez, a gente veio com muitas possibilidades porque queremos entrar nas escolas de verdade. Aziza é bilíngue, tem narração, parecendo aqueles disquinhos antigos, fizemos uma coisa bem parecida. Tenho minha pesquisa em Memória, foi bom para pensar por aí. Acho que temos que abordar com bastante seriedade, mas trazer a ludicidade. A ludicidade pega a gente por outro lugar, porque é muita dor. E claro que, de cara, não vamos falar de tanta dor com criança, porque a gente não quer, mais uma vez, colaborar com esses problemas que vão ter os adultos lá na frente, com tanto problema que a gente tem de baixa autoestima, de rejeição de imagem e várias outras coisas. Já basta também as próprias oportunidades que são tão diferentes. A arma é a poesia e a ludicidade.

Você falou agora há pouco sobre esse estudo decolonial, e hoje existem escolas que procuram pautar no ensino infantil uma pluralidade maior, fugindo do que vemos comumente, que é um ensino com um foco maior na cultura eurocêntrica. Você acredita que isso contribua de alguma forma com um ambiente escolar mais saudável para crianças negras?

Sem dúvida. Essa é a receita que queremos espalhar para as escolas inteiras. Imagine, quando você ouve falar sobre você, valorizando você como quem você é, trazendo sua própria história para ser discutida na sala de aula, claro que essa criança também super aumenta sua autoestima e pensa 'eu faço parte!'. A escola, que deveria ser o lugar do acolhimento, lhe afasta. Por que você estuda sobre quem, cara pálida? Cadê você ali? Você se sente o quê? Num Brasil como esse, numa Bahia como essa, acho que estamos atrasados. Mas que bom que temos algumas  exceções e eu mesmo faço questão de falar que livros meus são adotados nessas escolas e sempre digo: não basta adotar, vender livro é muito bacana, mas quero, sim, saber o que fazem com meu livro lá. Sabemos que, às vezes, é só adotar para dizer 'Que bacana! A gente tem na nossa prateleira uma porção de livros com crianças de protagonismo preto', mas eu faço questão e futuco: vai fazer o que com minha obra? Luciana também é assim. Agora ela está com um mestrado em Educação e vai fazer justamente um trabalho de pesquisa nessas escolas que estão trabalhando com nosso primeiro livro, saber o que está dando de resultado, o que fez, e está fazendo o que exatamente? Acho que vai ser uma pesquisa ótima.

No dia 21 de março, Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, vocês farão um pré-lançamento do livro para as crianças do Lar irmã Benedita Camurugi. O que espera da receptividade deles?

Vai ser somente para as crianças, algo mais fechadinho, vamos aproveitar para distribuir um caruru, pensando nessa coisa da ancestralidade, da memória, e vai ser uma manhã deliciosa. Teremos contação de história também. Eu já sei que as crianças estão super curiosas, porque fui mandando algumas coisinhas. Como tem narração, eles já ouviram a história narrada. Estão vibrando para conhecer a personagem. Espero que a boneca, que encomendamos, chegue. Calu teve uma boneca e Aziza agora vai ter uma boneca especial também. As crianças amam a boneca, ter algo para manipular. É outra parte da ludicidade. Vai ser uma manhã bem especial e nesse dia especial, 21 de março, Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Então, está tudo colado, tudo a ver com Aziza, que vem com essa bandeira, e o pré-lançamento nesse lugar especial para essas crianças. O Lar Camurugi também tem uma escolinha, então, já entramos nesse território da escola, que eu acho que é o lugar principal que temos que inserir Aziza, pois tudo começa na escola. 

Conte um pouco dessa sua parceria com a Luciana Palmeira. Este já é o terceiro livro que vocês escrevem juntas, você contou que já estão pensando no próximo, provavelmente com um menino, já tem uma previsão?

Eu e Luciana somos parceiras há muito tempo. Somos amigas de infância, resolvemos ser museólogas juntas, historiadoras juntas e criar os livros juntas, apesar de ela morar em Brasília (DF), mas as ideias sempre estão aqui. A gente troca muito, então, já lhe digo que temos dois projetos, mas ainda sem data para produção.

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