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A escola que mudou a Bahia: 70 anos da primeira faculdade de dança do Brasil
Conheça a história da escola que criou o único doutorado em dança do país

Em 1957, aos 17 anos de idade, a paulistana Lia de Carvalho desembarcou em Salvador acompanhada de outras três dançarinas, pelas mãos de Yanka Rudzka, uma coreógrafa polonesa que tinha uma companhia de dança moderna na capital paulista e foi convidada pelo então reitor Edgard Santos, para dirigir a recém-criada Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, a primeira do gênero no Brasil, que inicialmente funcionava no Pelourinho.
Lia e suas companheiras vieram participar do primeiro espetáculo montado pela escola, mas a garota decidiu ficar em Salvador e fazer a graduação em dança. Uma escolha que a tornaria anos depois uma das grandes referências da arte na Bahia, já com seu nome de casada, Lia Robatto.
"Tive o privilégio de vivenciar um momento único de dinamização cultural de Salvador a partir do movimento modernista de artistas plásticos independentes e, principalmente, da implementação das artes e da cultura na então Universidade da Bahia", lembra,
A Escola de Dança surgiu no contexto em que a Universidade da Bahia, com dez anos de existência, caminhava para se tornar um centro de excelência nas artes, com destaque também para as escolas de teatro e de música, comandadas respectivamente por Martim Gonçalves e Hans Joachim Koellreutter.
Junto a essas três escolas, equipamentos como os recém-inaugurados Teatro Castro Alves e o Teatro Vila Velha ajudaram a transformar o Centro de Salvador na década de 1960 em um território cultural. Jovens artistas como Caetano Veloso e Glauber Rocha se misturavam à comunidade acadêmica, dentro e fora da universidade.
"Os alunos e professores de música, teatro e dança costumavam assistir ensaios, palestras, oficinas e apresentações uns dos outros", recorda Lia, para quem aquela movimentação prenunciava o ensino integrado de diversas linguagens, prática que seria oficializada pela Ufba em 2008, com a implantação dos bacharelados interdisciplinares do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (Ihac).
Lia, que se declara filha da Escola de Dança da Ufba, afirma que na universidade ela aperfeiçoou a capacidade de desenvolver as suas próprias ideias criativas, algo que começara a fazer ainda na adolescência em São Paulo, com a Sociedade Pró-Arte Moderna (Spam), a companhia da coreógrafa polonesa que a trouxe para Salvador.
A artista, que foi professora das escolas de Dança e de Teatro, afirma que o reitor Edgar Santos, a quem qualifica de "genial", possuía uma diretriz bem clara: a modernização contínua da Bahia. "Ele foi um inovador que antevia um futuro significativo para sua universidade e o bem público para a Bahia", declara.
A professora considera que um dos trunfos da arte gerada no circuito universitário baiano da época era a presença das culturas populares tradicionais regionais, ibéricas, traços indígenas, sertanejas e a forte herança africana de Salvador. "Havia influências diversas que permeavam toda a poética criativa vigente, nesta rica combinação prospectiva do passado mesclada com o futuro, das variadas formas de simbolização do mundo", declara Lia.
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Nosso Clyde

A Escola de Dança da Ufba também atraiu talentos internacionais, como o estadunidense Clyde Morgan, que na Bahia adotou o Alafiju como parte de seu nome. Nascido em uma família protestante com laços com a cultura islâmica no estado de Ohio, Clyde veio ao Brasil por influência de um professor que era amigo do maestro Heitor Villa-Lobos.
Instalado no Rio de Janeiro, Clyde foi apresentado a Bibi Ferreira pela mulher do maestro, a também musicista Arminda Neves d'Almeida. Depois de aparecer no programa de TV de Bibi, o artista estadunidense foi convidado a dar aulas da dança moderna e danças africanas na Escola de Dança da Ufba, em 1971. Acabou recebendo um convite para se tornar professor permanente da instituição, além das escolas de música e artes cênicas, e diretor artístico do Corpo de Dança Contemporânea.
Ao assistir a um espetáculo da sua mulher, Laís Morgan, no Teatro Vila Velha, o professor ficou impressionado com a performance bailante no palco do ator Mário Gusmão. "Foi a primeira vez que eu vi um negro brasileiro fazendo dança. Eu fiquei fascinado e achei que podia contribuir como coreógrafo", lembra o estadunidense, que se tornou amigo de Mário.
Em 1973, por ocasião do Sesquicentenário da Independência da Bahia, ambos encenaram o Oratório Cênico, que obrigou o estadunidense, ainda sem o domínio do português, a mergulhar nos fatos históricos locais e personagens brasileiros e baianos, como Tiradentes, Maria Quitéria e Joana Angélica. "Eu não tinha muito conhecimento das danças brasileiras, mas interpretação em dança era a minha especialidade", afirma o professor, que avalia a empreitada como bem-sucedida.
Clyde, que morou na Nigéria antes de se mudar para o Brasil, só teve contato com as danças do Candomblé na Bahia. "As práticas dançantes que conheci lá eram de outra natureza. Só na Bahia eu fui instruído e incluído nas danças dos Orixás", pontua o estadunidense, cuja passagem pela Escola de Dança da Ufba, entre 1971 e 1978, foi objeto do documentário Alafiju: o legado deixado por Clyde Morgan na Escola de Dança da Ufba, do jornalista George Diniz Teixeira. Clyde é ogã do Ilê Axé Opô Afonjá.
Celebração

Vice-diretora da Escola de Dança da Ufba, e desde o último dia 16 professora titular da instituição, a artista da dança Gilsamara Moura considera que os 70 anos da unidade é uma celebração muito especial para o Brasil e para o mundo. "Essa escola tem uma história rara em relação à construção do pensamento da dança", afirma ela, para quem essa construção inclui memória, inovação e um pensamento de dança conectado com as questões do cotidiano e conceituais da dança.
Uma das questões cotidianas trabalhadas na Escola de Dança da Ufba é o feminicídio, tema da dissertação de mestrado de Thaís Bandeira, que impactada pela experiência da maternidade decidiu trabalhar como doula, a profissional que oferece apoio emocional e físico a gestantes, antes, durante e após o parto, atividade que foi regulamentada apenas no início deste mês pelo Governo Federal, mas que a mestranda exerce há 11 anos, com a estimativa de ter atuado em 140 partos.
Também no início deste mês, a Câmara dos Deputados aprovou a regulamentação da dança como profissão, tendo como base o Projeto de Lei 4768/2016, de autoria do ex-senador Walter Pinheiro (PT-BA). O texto segue para a sanção do presidente da República.

Em 2021, durante a pandemia, quando não podia exercer seu trabalho como doula, Thaís experimentou simultaneamente, como tantos humanos ao redor do planeta, o medo de morrer e a apreensão gerada pela falta de renda. Nesse momento, chegou às suas mãos um vídeo sem áudio de uma campanha contra a violência doméstica do Tribunal de Justiça de São Paulo.
No vídeo em preto e branco, mulheres portavam cartazes recomendando que vítimas de violência doméstica procurassem ajuda e dizendo que elas não estavam sozinhas. "Ter recebido o vídeo naquele período foi um arrebatamento para mim. Embora eu estivesse no meu sufoco pessoal, ao mesmo tempo eu estava no paraíso. Eu moro bem e não passei por insegurança alimentar e, sobretudo, porque não havia um algoz em casa", pontua Thaís.
Quando o Governo Federal liberou recursos para os artistas, Thaís inscreveu em um edital o projeto de videodança chamado Mesa Posta, de oito minutos, que aborda questões de enfrentamento e rompimento com o machismo. "Eu apresento uma perspectiva libertária que, para mim, é muito importante. É uma decisão artística, de não ficar apenas na retratação do problema", afirma a mestra, que se obriga a apresentar uma solução libertadora.
Tanto em Mesa Posta quanto nos outros dois videodanças, Ela não é minha e Descanse e não desista!, a artista não apresenta nenhum drama que termine sem final feliz para as mulheres. Os trabalhos compõem a Trilogia Discursiva Dançante e o terceiro vídeo integrou a dissertação Descanse e não desista!: a estética feminista de existência e a criação de narrativas críticas na cena da dança.
Conexão com a subjetividade

Acostumada a ajudar a trazer vidas ao mundo, Thaís acredita que profissionais da dança acabam tendo elas mesmas uma outra existência à parte do seu CPF. "Temos um recurso de trabalho que nos coloca em muita conexão com a subjetividade, com a corporeidade", afirma Thaís, que se considera feminista desde a infância, antes de receber informação sobre o feminismo.
Ela sublinha que a profissão de doula é um trabalho de gênero, de mulher para mulher. "Ao dizer isso, eu incluo as mulheridades. As mulheres trans estão incluídas", pondera a doula, que vê nesse exercício profissional uma forte inspiração para a dança.
Ao explicar por que escolheu a dança, Thaís afirma que aos 18 anos queria ter uma vida inspiradora. E afirma ter desfrutado muito da sua graduação. "É uma linguagem totalmente voltada ao gesto, ao movimento. E isso nos coloca em um estado de investigação postural, subjetivo. São muitos componentes criativos solísticos ou de coreografias em grupo que nos colocam para criar narrativas", pontua.
A escola tem dois teatros em funcionamento dentro de suas instalações, o Teatro Experimental e o Teatro do Movimento e oferece cursos de graduação, mestrado profissional, mestrado acadêmico e doutorado acadêmico, o único doutorado em dança do Brasil.
A programação em comemoração aos 70 anos da escola se estenderá ao longo do ano e começa nesta terça-feira, 28, véspera do Dia Internacional da Dança, às 17h, com uma apresentação do Grupo de Dança Contemporânea no Teatro Experimental da Escola de Dança da Ufba.
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