PAIXÃO ANALÓGICA
Por que a nova geração de Salvador está trocando o streaming pelo disco de vinil?
Jovens em Salvador redescobrem a vida nos vinis e fotos analógicas

Na era digital, tudo é imediato. O estilo de vida, as notícias, o consumo desenfreado. O imediatismo das mídias sociais dita as relações modernas. Mas reconectar-se ou, melhor dizendo, desconectar-se é preciso. Após a pandemia e entre grupos mais jovens, particularmente, o resgate de hobbies offline tornou-se um fenômeno crescente. Em Salvador, o cenário das mídias analógicas tem sido favorável para quem busca uma fuga do frenético espaço virtual.
Há dois anos e meio, como uma iniciativa do fotógrafo Adriano Viana, nasceu o Café e Câmera com o objetivo de incentivar conversas e troca de conhecimento sobre fotografia analógica na cidade. Em um espaço na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, o café se consolidou como um dos mais populares da cidade e foi reconhecido internacionalmente, chegando a ser recomendado pelo The New York Times em 2025.
Com um rico acervo de câmeras fotográficas analógicas e uma coleção de vinis clássicos, além de cartas e louças antigas, o local fascina um público jovem instigando a entender a história por trás dos elementos do café.
“O público mais jovem que chega no espaço geralmente pede “moço, você poderia colocar esse disco para eu ouvir?”, e ficam encantados com o som saindo da vitrola, ou a história e funcionamento das câmeras. E daí é uma conversa que vai entrando pelo caminho da fotografia, das cartas. Tudo está interligado ali”, conta Adriano. Entre rolos de filme, vinis e afetos, o Café e Câmera surge como um portal para quem nutre curiosidade e deslumbre pela tradição analógica – e isso se tornou o principal propósito do local.
“O café surgiu com a necessidade de compartilhar a minha arte e a fotografia analógica, mas hoje eu me sinto muito grato de ver que se tornou um meio para esse resgate de um contato, uma experiência mais humana, mais atencioso com o próximo”, relata o proprietário.
Não longe dali, no Sebo do Além, uma figura extraterrestre verde na janela não passa despercebida. Gerido pelo casal Heidy Lareski e Gabriel Gallardo há cinco anos, o sebo oferece livros variados – raros, autografados, primeiras edições, atraindo turistas, artistas, professores e, especialmente, jovens e pais incentivando a leitura. O casal acredita que os livros têm o poder de mudar a história da humanidade e suas estruturas.
“É um lugar cheio de novidades para as novas gerações, um quase museu. Os jovens gostam muito de explorar nosso lugar. É essencialmente um espaço analógico cheio de lembranças afetivas, sensoriais, estéticas, de valor cultural, patrimonial e educativo que estimulam a mente”, afirma Gabriel.
A brasilidade e valorização da cultura local também são pilares essenciais no espaço. A curadoria é feita minuciosamente buscando proporcionar uma imersão cultural única e incentivar uma troca mais humana entre os clientes.
“Precisamos desse mundo físico. Ver, tocar, sentir o cheiro, para nos sentirmos mais humanos. Acreditamos que o Sebo do Além, em meio a crescentes bares e restaurantes se configura como uma resistência, que luta pela arte e nossa cultura, que é o melhor de nós” reflete Heidy.
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Imersão

Para além dos portões do Carmo, no tradicional bairro do Garcia, na Galeria Liverpool, fica a Discou Discou, um espaço para amantes da música analógica, especialmente vinil, que tem até o seu dia no calendário brasileiro e é celebrado amanhã. Administrada por Véu Pessoa e Juan Almeida, que também são um casal, a loja é um reflexo da paixão de seus fundadores pela música.
Juan, músico equatoriano que veio ao Brasil para estudar na Ufba, já colecionava discos e iniciou a venda de seu acervo pessoal. Véu, atriz de formação, uniu-se a ele, profissionalizando o negócio e transformando o que era um hobby em uma loja com identidade visual e alcance internacional, enviando discos para países como China, Canadá e Suécia.
Para eles, o vinil representa muito mais do que um simples formato de áudio. É um pedaço de história. “A mídia analógica é como um contato com o artista. Ouvir um disco é um ritual. É uma relação mesmo de parar o que eu estou fazendo para ouvir um disco, tem uma intimidade e imersão diferentes de você colocar uma playlist em um streaming”, pensa Juan.
Eles observam um boom de jovens abaixo dos 30 anos, muitos até mesmo sem toca-discos, atraídos por curiosidade, heranças familiares e o prazer de explorar prateleiras em busca de vinis. MPB, rock clássico e independentes brasileiros são os principais focos da loja, que faz uma curadoria atenciosa pensando em cada detalhe na experiência dos clientes.
“A preservação dessas mídias e o resgate entre as novas gerações é muito importante, principalmente para um país tão musical quanto o Brasil. É importante para perpetuar essa relação mais próxima com a música, com os artistas do nosso país”, observa Véu.
Para Guilherme Almeida, de 25 anos, músico e colecionador apaixonado, o vinil foi um amor à primeira vista. A paixão se estendeu tanto que desde o ano passado, além de colecionador assíduo, ele começou a investir na comercialização de vinis com a sua loja virtual Retrofagia.
“Poder ter discos de artistas que tanto gosto em seu formato original foi algo totalmente novo para mim, e com certeza mudou a maneira como eu me relaciono com a música atualmente”, conta o jovem.

Há 11 anos na cena musical, passando por grupos e tendo experiências diversas na área, ele vê o ressurgimento de vinis, CDs e cassetes como uma maneira da geração se encontrar em meio a individualidade da era digital.
“Eu acredito que seja uma busca por proximidade real com o artista. O contato com a parte gráfica e física de um disco transmite também uma sensação de pertencimento e segurança, sem risco de perder o acervo por algoritmos. Jovens buscam isso para se sentir mais conectados com o mundo offline”, conclui.
Do café fotográfico à loja de discos, o mundo analógico de Salvador é composto por uma rede de resistências que, em um mundo de telas e pixels, mantém vivas as paixões físicas e incentivam um olhar especial para o que é tátil. Não somente pelo fator da nostalgia, mas como uma maneira de preservar a cultura, aflorar a sensorialidade, sensibilidade e o fascínio pelas criações humanas.
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