CRÔNICA
O que acontece quando os filhos partem? Crônica sobre a velhice esquecida
Confira a Crônica deste domingo, 12

Entrei no quarto e a encontrei deitada na cama. Ao lado, outras camas com outras três senhoras deitadas, cada uma em seu próprio mundo, habitado por suas próprias dores e memórias. Como foram parar ali? Como eram suas vidas antes? Como se sentem hoje? Parei junto à cama desta senhora e ela sorriu pra mim.
Bastou perguntar como estava para abrir o baú da sua história. Pais sírio-libaneses vieram jovens para o Brasil. A mãe morreu no parto, quando ela nasceu. O pai sozinho criou 11 filhos. Não chegou a se casar de novo. Ela, sim, casou-se, teve dois filhos. “Eu tenho minha casa, mais uns quartos que eu alugo. Faço tudo ainda”, ela me disse, deitada, como quem já tem as horas do dia de sobra e pouca esperança.
A moradia ficava numa vila do litoral norte, perto da praia, onde cuidava das hospedagens que oferecia, do quintal cheio de plantas e do cachorro que lhe fazia companhia, seu melhor amigo. “Hoje eu chorei vendo a foto dele, sinto muita saudade”, lamentou. E quem cuidava do animal? “Tem um rapaz que vai lá botar comida pra ele.”
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Mas então o que a levou para aquela tentativa de um lar, que não era o seu – eu quis saber. Teria ficado doente ou algo do tipo? “Minha saúde é boa, não tenho nada não. Foi minha filha quem me trouxe pra cá. Ela não queria cuidar de mim”. Falou isso com um pouco de tristeza por dentro dos olhos que fitavam os meus, mas também resignação. O filho mais velho morando fora, a moça morando perto. Nenhum dos dois, disponível para o árduo trabalho do afeto.
Ouvir parte de uma história assim é ter mais perguntas do que respostas. Quem são esses filhos? Onde estão agora? O que levou a se afastarem tanto da mãe? Ou não teria sido bem assim? E se a história for outra? A gente nunca sabe o que de verdade se passa dentro de cada um, nos subterrâneos de cada estrada.
“Tem nada, não. Ela não quer cuidar de mim, mas tudo bem. Deus sabe das coisas, né, minha filha”, voltou a falar com um restinho de sorriso, certamente guardado de outro instante, escapando pela boca. A senhora ao lado, alheia à nossa conversa, parecia ainda mais alheia ao mundo, à vida lá fora. Pouca coisa me respondeu, quando fui falar com ela. Estaria ali mesmo ou em algum lugar mais distante?
Em outro quarto, mais uma cama, outra senhora foi logo me falando das dores que sentia no joelho da perna direita. Toquei, massageei de leve, perguntei se já foi ao médico, se tomou remédio. Teria que esperar a segunda-feira para passar por outra avaliação. Sim, estava medicada. Ainda assim, sentia dor mesmo deitada ou sentada, quase não podia andar. Tinha artrose, devia ser isso.
Enquanto eu saía do quarto, uma senhorinha passava completamente curvada sobre o andador que a ajudava a atravessar o corredor. Não conseguia se erguer de pé, mas também não dependia de quem a segurasse, traçava seus próprios trajetos. Um aparelho de metal eram os braços de apoio que talvez um dia lhe fizeram falta.
Saí de lá pensando nessas mulheres, em suas narrativas, naquela senhora à espera de rever o cachorro que era a única família que lhe restou. “Quando você for por lá, pode passar lá em casa, moro na primeira rua depois da praça”, me convidou, como quem estivesse de malas prontas para retornar no dia seguinte. Voltaria mesmo para o seu lar? Sairia, afinal, dali algum dia? Não pude saber mais. Mas, em casa, seu cachorro certamente estaria à sua espera.
*Luisa Sá Lasserre é jornalista e escritora, autora do livro de crônicas “Pensei, mas não disse” (Ed. Patuá)
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