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A figura mítica do vaqueiro na fotografia contemporânea

O vaqueiro já foi e ainda é tema que desperta interesse de muitos artistas, escritores e fotógrafos

Publicado segunda-feira, 05 de dezembro de 2022 às 06:00 h | Autor: Cristina Damasceno* | [email protected]
Rui Resende fotografou vaqueiros do Raso da Catarina por quatro anos
Rui Resende fotografou vaqueiros do Raso da Catarina por quatro anos -

O imaginário popular construído sobre a ideia do sertão inclui como um dos principais protagonistas, de resistência à rudeza e aridez da região, o vaqueiro. Valente, ele desbrava as adversidades da caatinga nordestina protegendo e conduzindo o gado solto para lugares favoráveis e seguros. 

O vaqueiro já foi e ainda é tema que desperta interesse de muitos artistas, escritores e fotógrafos. A começar com Pierre Verger, que fotografou nos anos de 1950 cenas típicas do peão nordestino. Um dos lugares escolhidos pelo fotógrafo foi o município de Feira de Santana, conhecido no período do império como principal área de criação de gado da província. Lá, semanalmente acontecia uma feira de gado que Verger visitou com a sua câmera.

Acho Verger um exímio retratista, pois ele como poucos fotógrafos consegue capturar a essência humana. Um retrato dessa época que gosto muito é o de um jovem vaqueiro, com enquadramento bem aproximado, focalizado de baixo para cima, onde o seu rosto em contraste com a luz lateral e marcado pela sombra do chapéu realça um olhar intenso.

Existem também outros registros de Verger sobre o tema na Paraíba, no município de Umbuzeiro, imagens documentando uma vaquejada em corridas de morão, evento que se caracteriza em demonstrar a destreza do vaqueiro e de como lidar com o rebanho. No site da Fundação Pierre Verger  també pode-se ver duas fotos que detalham a indumentária da profissão, como um close na bota de couro onde a espora e estribo se sobressaem e, com o mesmo enquadramento, outra imagem das mãos de um peão calçadas com meias-luvas de dedo em couro cru e detalhes da cela. 

Uma cena que me impressionou e até hoje guardo na memória foi presenciar a chegada dos Encourados de Pedrão no desfile do 2 de julho. Quando vi um grupo com cerca de quarenta homens montados em cavalos, vestidos em trajes de couro, se reunir no largo do Pelourinho, naquele momento percebi a força e a beleza dessa cultura que até então eu desconhecia.

Por tradição, os Encourados de Pedrão abrem o cortejo cívico nas comemorações da independência da Bahia. Sua participação na festa está atrelada ao envolvimento da Companhia de Cavalaria dos Couraças, pertencentes à localidade de Pedrão, centro norte do estado, que tiveram um papel decisivo no combate às tropas portuguesas, na batalha de Pirajá, episódio histórico que contribuiu para a independência do Brasil.

Os vaqueiros de Pedrão também foram motivos de encanto nas lentes do artista Silvio Robatto que, desde o início dos anos de 1970, costumava fotografar o desfile do 2 de julho. Os negativos do cortejo fotografado ao longo de muitos anos foram digitalizados por Silvio, que selecionava as imagens e retrabalhava com programas digitais. Dentre esses trabalhos está um tríptico com retratos de vaqueiros, em preto e branco, em diferentes posições em contraste de luz se sobressaindo do fundo embaçado.

Na maior ampliação que predomina a composição das imagens, ele conservou o estado natural do negativo, sem intervenções. O perfil do homem mantém detalhes de sua face oculta enfatizada pelo chapéu e parte das vestes; à direita, em outra fotografia, o olhar intenso do retratado se acentua devido a detalhes em vermelho de uma linha que contorna a borda vertical direita e parte horizontal da imagem. Na última, à esquerda, o vaqueiro aparece em meio perfil envolto em tons amarelos que com o plano de fundo se mistura em nuances azuis. 

De forma inovadora para a época, Silvio com suas singulares composições reverencia a memória desses heróis.

Na literatura, o vaqueiro aparece como personagem na obra de um dos principais escritores brasileiros do século 20, João Guimarães Rosa.  Nos anos 1950, ele acompanhou durante cerca de dez dias uma caravana na região norte de Minas Gerais, próximo à divisa do estado com a Bahia, para conhecer a vida do sertanejo.

A rudeza do entorno e da lida que força o homem a converter sua pele em couraça, sem perder sua nobreza, está caracterizada em muitos de seus livros.  A figura do vaqueiro ganha um aspecto universal estando poeticamente associada ao respeito e sabedoria de como devemos lidar com as adversidades da vida.

Boi, bicho brabo

Norteado por uma grande admiração e apreço por essa tradição, o fotógrafo Rui Rezende seguiu os passos dos vaqueiros do Raso da Catarina, parte centro leste da Bahia, durante quatro anos.

Em conversa, ele me descreveu a emoção que teve ao encontrar um acampamento de vaqueiros, quando executava um trabalho na localidade. A cena marcante desse primeiro encontro foi vital para Rui conquistar a amizade e confiança do grupo e viajar com eles durante onze vezes. No decorrer de semanas no meio do mato, ele bebeu água do gravatá, espécie de bromélia, e dormiu no chão em cima do gibão, vestes de couro.

Uma peculiaridade do Raso da Catarina contraria outras regiões do Brasil: é que o gado vive totalmente solto e muitas vezes os animais somem, lá o vaqueiro é o dono do seu próprio boi. Em pontos específicos na caatinga eles partem para caçar o gado desaparecido que se transforma em um animal silvestre, atacando muitas vezes o vaqueiro.

“Eles caçando o gado e eu caçando as fotos”, afirma Rui, que se anima ao contar o causo do boi fujão de Raimundo Varjão, sumido durante quatro anos, que por pouco não pega o fotógrafo em cheio e na fuga acabou danificando a lanterna do seu carro.

O entusiasmo dele é visível no livro, intitulado Vaqueiros do Raso da Catarina, com fotografias de sua autoria juntamente com um texto escrito pelo jornalista e professor, Cícero Félix. Rui fez questão que o lançamento da primeira edição fosse na região, pois seria quase impossível que os retratados pudessem comparecer ao evento na capital.  Esse livro vai além do primor das imagens esteticamente bem elaboradas e revela elementos antropológicos que se estendem e nos aproxima da cultura sertaneja.

O herói da Caatinga

Já a representação do vaqueiro na exposição denominada Vaqueirama, do fotógrafo Ricardo Prado, teve como referência as narrativas dos super-heróis derivadas do seu interesse pelas ilustrações em quadrinhos. 

A mostra apresentada na galeria Pierre Verger, situada na Misericórdia, centro da cidade, pode ser visitada até fevereiro do próximo ano. O ensaio fotográfico composto por 29 imagens tem a curadoria da fotógrafa Célia Aguiar e texto do artista Chico Liberato.

Nas fotografias feitas por Ricardo, entre 2015 e 2019, em Bom Jesus da Lapa, na Bahia e Pernambuco, os vaqueiros aparecem em retratos posados e em ação. Em particular, uma das imagens expostas que revela um bando de vaqueiros em movimento galopando seus cavalos, onde o rastro da poeira no chão árido se mistura no cenário, me fez lembrar um filme de velho oeste. 

Na galeria, os retratos, em grande maioria, têm como pano de fundo uma lona improvisada ou a própria natureza, onde individualmente os vaqueiros posam, de corpo inteiro com iluminação artificial. O ângulo escolhido por Ricardo para a realização do trabalho foi o contra-plongée, uma tomada de baixo para cima, que salienta a ideia de força e poder do fotografado. Essa técnica geralmente engradece o modelo e é utilizada de maneira a envolver emocionalmente o observador, aspecto em concordância com o conceito de herói escolhido pelo autor.

Quanto ao mito do guerreiro montado em seu cavalo, é uma herança da Antiguidade Clássica que remete às convenções iconográficas de inúmeras estátuas equestres em bronze de cavalheiros triunfantes.

A memória destes monumentos espalhados no ocidente por diversos períodos históricos, ainda continua preservada no inconsciente popular, de uma certa maneira, até os dias de hoje.

Sem dúvida, a auto-representação do vaqueiro, tendo como segunda pele sua indumentária rústica de couro e conduzindo seu cavalo, é marca de uma identidade que continuará, frequentemente, sendo motivo de inspiração em vários segmentos da arte, ultrapassando a fronteira do visível e adentrando o horizonte da imaginação.

*Doutora em Artes Visuais e professora de Fotografia na Escola de Belas Artes da Ufba

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