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A gente morre e fica tudo aí

Confira a crônica de Franklin Carvalho

Publicado domingo, 07 de abril de 2024 às 05:00 h | Autor: Franklin Carvalho*
Imagem ilustrativa da imagem A gente morre e fica tudo aí
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Há tempos que o velho Cícero não veste camisa para sentar ao almoço. Depois que lhe faleceu a primeira mulher, até se arranjou com uma dona mais nova, mas não a obedece, perdeu os bons modos, mostra as presas. Está assim com todo mundo.

Dia desses, cansado de receber telefonemas enganosos sobre movimentações na sua conta bancária, berrou ao falsário do outro lado da linha uma tonelada de desaforos. Chamou-o de ladrão para baixo. O velho, que é branco como um milho novo, pintou-se todo de sangue na hora.

— Ninguém é honesto! — reclama Cícero, entre um suspiro e outro, enquanto arrasta o corpo exausto entre o jardim e o quintal da casa.

E talvez ninguém seja mesmo. A sua nova mulher, que antes era uma diarista e cozinheira de suas marmitas, inventou de melhorar as receitas e foi coabitar com o velho. Mas nunca escondeu que está com ele para garantir sua sobrevivência, e reclama de não obter nada daquele pão-duro. E ela comenta essas coisas por todos os lugares onde anda, alegrando as rodas de fofocas.

Cícero chama o filho de “Devagar”. A nora, de “Onça”, “Sargentona” e “A Rainha Elizabeth”. Emprestou dinheiro a juros aos vizinhos, para ver se ganhava uma renda extra, mas foi lesado pelos que mais diziam ser amigos. Procurou uma igreja pequena e pagou o carnê da “Fogueira dos Empresários”, para receber dos devedores, mas o investimento não deu resultado. Só um segundo prejuízo.

Sua única solução foi viver na modéstia, dentro de casa mesmo, da rede para os tamboretes, ou para a espreguiçadeira, ou sob as mangueiras do quintal, onde come com sal as frutas verdes.

Crê que muitos esperam que o sal o mate, e depois esquece esse pensamento. Lembra da falecida, que tinha refluxo, e que somente depois da morte dela o refluxo passou a atacá-lo, parecendo uma herança. Recorda que todos os problemas da casa, desde uma conta de água que vinha alta até o mês em que cortaram a luz, tudo na rua e nas repartições era a esposa resolvia. Ele só ficava por trás, resmungando, reclamando, dando pressa.

— Fale com o dono dos porcos, não com os porcos — ele exigia.

Tem um enorme sentimento de dívida para com ela, para com o seu nome, para com a sua memória.

— Nem respeitaram o velório. Gente de bermuda e chinelo. A humanidade perdeu a compostura! — rumina, magoado.

O velho Cícero é um homem quase asqueroso. Só não o é porque antes vive muito só, na lonjura onde andam os seus olhos secos, nos seus momentos de mudez e perplexidade, em que divaga em branco enquanto espera o suor pingar das rugas.

É homem de cera, e quando for para o céu (todos vão para o céu!) já chega lá banhado, para não dar trabalho, duro e cor de nuvem, da alvura do que não há.

Porque lhe basta uma hora morna na tarde, basta degustar o sabor familiar da manga ainda amarga para abstrair toda raiva e esquecer o refluxo e bendizer o sal que lhe talha a língua.

E se tornar um santo, como todos podemos ser, ao menos por meia hora, todos os dias. Ao menos quando desfrutamos, devotos, daquilo que nos dá gosto.

*Franklin Carvalho é escritor, autor de Tesserato - A tempestade a caminho (Ed. Noir)

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