A luta pelo reconhecimento e igualdade dentro e fora nas rodas de capoeira

Publicado domingo, 21 de junho de 2020 às 06:00 h | Atualizado em 20/06/2020, 13:35 | Autor: Gilson Jorge

O número 26 da Rua do Taboão tinha, há pouco mais de um século, uma moradora que, em 1918, viraria notícia em uma pequena nota de jornal. Julia Rosa dos Santos era dotada de uma arma muito perigosa, a cabeçada.

Com um golpe, era capaz de levar ao chão uma pessoa. E, dizia-se à época, costumava rir durante a fuga, celebrando o seu feito. Um dia a polícia chegou a tempo de evitar que escapasse e ela foi levada à delegacia.

Às vezes, se metia em confusões com vizinhas e invadia suas residências com uma navalha na mão. Resolvia suas questões na base da violência, como centenas de homens e mulheres do centro da velha Salvador.

Eram os capoeiras, como se chamava quem se reunia para “jogar pernada, na base da vã valentia”, como Gilberto Gil descreve em Tradição. Mas também quem praticava desordem na rua ou cortava a carne de outra pessoa com uma navalha, por dinheiro, rixa ou ciúmes.

Antes da descriminalização em 1937, a capoeira, então sem regras, era a luta de valentes, característica da região portuária e das ruas adjacentes ao Pelourinho mesmo depois que foi criminalizada, em 1890, pouco depois da abolição da escravatura.

Algumas mulheres fortes e valentes já eram conhecidas por quem estuda a história da capoeira. Adelaide Presepeira, que provocava arruaças com uma navalha nas celebrações do Dois de Julho; Maria Doze Homens, que deu porrada em uma dúzia; ou Rosa Palmeirão, que bateu impiedosamente em Pedro Mineiro, acabando com sua fama de valente, e acabou inspirando uma personagem homônima de Jorge Amado, em Mar Morto.

Mas a história de Julia, brevemente descrita no extinto Diário de Notícias, resgatada pela pesquisadora brasiliense Juliana Foltran, junto com outras centenas de pequenas notas de jornal, deu uma outra dimensão à presença feminina nos primórdios da capoeira.

O texto que descreve a detenção de Julia romantiza o momento, chamando atenção para a sua beleza física “de se lhe tirar o chapéu”, registra a nota que tem o sugestivo título de “Julinha Indiabrada, assim com i mesmo”.

Com base neste e em outros tantos relatos levantados durante suas pesquisas no Arquivo Público do Estado da Bahia, a pesquisadora brasiliense escreveu a tese de doutorado em história pela UnB Mulheres Incorrigíveis: capoeiragem, desordem e valentia nas ladeiras da Bahia (1900-1920).

Coautor do livro Capoeira Identidade e Gênero, o historiador e capoeirista baiano Josivaldo Pires de Oliveira, mestre Bel, elogia o trabalho, que aguarda publicação. “Revela o protagonismo feminino em um período histórico”, afirma Bel, que é professor da Uefs e ajudou Juliana na qualificação da tese.

Gingas da história

Graduada em serviço social e, assim como o seu marido baiano, capoeirista, Juliana Foltran decidiu estudar o que considera “o apagamento da mulher na história da capoeira”.

Os estímulos foram histórias ouvidas em Salvador sobre mulheres que entravam na roda escondidas da família e um evento em Brasília em que o mestre Pastinha foi homenageado como o homem que permitiu o acesso feminino às aulas de capoeira.

“Meu radar feminista ligou. Normalmente, as mulheres têm que forçar a porta. Fui atrás de uma das meninas que aparecem numa foto com o mestre e ela me disse que teve que insistir para ser aceita”, diz Juliana.

Como um golpe de capoeira em uma parte sensível do corpo, a sua tese, defendida no ano passado, incomoda parte da comunidade acadêmica baiana. Procuradas por A TARDE, duas fontes se recusaram a comentar a tese.

A pesquisadora brasiliense não especifica quantas histórias levantou no Arquivo Público, mas o trabalho fala em centenas de mulheres capoeiristas.

Os recortes de jornais que ilustram a tese trazem desde uma cozinheira que causou um ferimento na testa da cunhada, após uma discussão, a uma mulher que entrou em luta corporal com um homem que queria lhe tomar nove mil réis. “Ninguém era só capoeira, a pessoa tinha uma ocupação, mas também brigava”, defende Juliana.

No texto, a pesquisadora critica a banalização dos motivos que levavam mulheres à luta corporal em praça pública, quando aos homens a briga por razões semelhantes ganhava contornos de valentia. “Onde se encontra o argumento que coloca a briga por mulheres como parte da cultura da capoeira, mas a dos homens, não?”, indaga a tese.

Berimbau

Primeira mulher de classe média a tocar berimbau, a musicista, folclorista e escritora Emília Biancardi afirma que nunca ouviu mestre Pastinha fazer ressalvas à prática de capoeira por mulheres, mas lembra que ele colocava como condição que as aulas não fossem em sua academia. “O que ele dizia é que não dava para levar as meninas para lá porque só tinha homens”, lembra.

Ela mesma foi impedida pela mãe de frequentar o Pelourinho, então uma zona de meretrício, quando pediu a mestre Pastinha que a ensinasse a tocar o instrumento, pouco depois de criar o grupo folclórico Viva Bahia, em 1962.

Emília teve aulas particulares em sua casa, na Ladeira do Arco, Barbalho, no quintal, pagas por sua mãe, e algumas meninas tiveram aulas de capoeira com o mestre. “Duas delas tiveram que desistir depois, porque os noivos não as queriam lá”, assinala.

Com o seu Viva Bahia, a folclorista se tornaria com o tempo uma das responsáveis pela divulgação da capoeira no exterior, com viagens para a Europa, América do Norte e Oriente Médio.

Alguns capoeiristas faziam tanto sucesso que nem voltavam ao Brasil, como o mestre João Grande, que se estabeleceu nos Estados Unidos.

A presença feminina na história dessa tradicional luta/dança inspirou a realização do filme Mulheres da Pá Virada: trajetórias na capoeira, lançado no ano passado, com financiamento da Fundação Gregório de Mattos (FGM), pelas capoeiristas do coletivo Marias Felipas, Chistine Zon Zon, Joana Marçal e Adriana Albert Dias. O filme de 44 minutos está disponível na plataforma Vimeo.

Adriana é autora do livro A Malandragem da Mandinga: o cotidiano dos capoeiristas em Salvador na República Velha (1910-1925), lançado em 2004 pela Edufba.

“O trabalho de Juliana é um importante referencial para a compreensão da presença feminina na capoeira”, declara Adriana, que atualmente realiza estudos para o doutorado na Ufba sobre capoeira e masculinidades.

Tensão

Mesmo com o avanço das mulheres na luta nas últimas três décadas, a tensão continua existindo dentro e fora das rodas. Feministas em busca do reconhecimento da mulher, homens e mulheres na defesa da tradição.

“A capoeira é um campo de disputas, e, às vezes, infelizmente, tensões que existem entre as pessoas são levadas para a roda”, afirma mestre Bel.

A professora de capoeira Moema Ribas afirma quase ter levado um chute no rosto durante uma roda formada em frente à Igreja do Bonfim no dia da Lavagem, em 2010. A agressão partiu da mulher de um capoeirista depois que Moema insistiu para jogar.

“Meu marido foi aceito na roda. Na minha vez, ele fez sinal de negativo. Só me permitiu jogar com a intervenção de outro mestre e, mesmo assim, só deixou que eu jogasse com outra mulher”, pontua a professora.

Algumas capoeiristas se queixam de que as mulheres são sempre as primeiras a sair da roda, independentemente da ordem

de chegada, de serem preteridas quando há muita gente para tocar os atabaques e até de levarem mais tempo do que os homens para ser reconhecidas como mestras.

“Ainda há o fator racial. Para as mulheres negras, as coisas são ainda mais difíceis do que para as brancas”, reclama a mestra Dandara Baldez.

“Eu viajo para outros estados e vejo que em Salvador é ainda mais raro ver mulheres em posições de destaque na capoeira”, completa Everaldo Figueiredo Filho, o mestre Veru.

Capoeira mulher

A professora Daniele Canedo pratica capoeira de forma ininterrupta há 16 anos e tem corda azul, último estágio antes de se conseguir o título de mestra na academia que frequenta.

Ainda assim, não é raro que ela ouça alguém se referir a si como “a mulher do mestre Calango”, reclama. A última vez que isso aconteceu foi em janeiro deste ano, durante um evento na Bélgica.

Daniele coordena no Instagram um grupo chamado Capoeira Mulher, em que se fala de maternidade, sororidade na capoeira, mas também de racismo. A conta tem mais de 11 mil seguidores.

Assim como os adjetivos Endiabrada e Presepeira carimbavam as mulheres que há um século desafiavam a valentia masculina, nas rodas de hoje ainda surgem apelidos que, mesmo simpáticos, sinalizam uma maneira diferente de ver a presença feminina. “Me chamam de Dani Pimentinha. Não me incomoda, mas não vejo esse apelido sendo usado em homens”, pondera Daniele.

O que faz arder a roda de vez em quando é quando alguém puxa uma cantiga com letra que sugere a dominação masculina ou violência contra a mulher. Aí é hora de tirar o machismo da roda.

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