"A pele é a nossa principal barreira de proteção", afirma Aedo Khouri

Publicado segunda-feira, 21 de junho de 2021 às 06:04 h | Atualizado em 20/06/2021, 19:55 | Autor: Yumi Kuwano

Mesmo com todas as restrições a respeito de realização de festas e aglomerações, não é incomum vermos comemorações acontecendo Bahia afora, nas ruas ou ambientes domésticos, principalmente no mês em que é tradição acontecer o São João. Além da possibilidade de se contaminar com a Covid-19, existem riscos de acidentes com fogos de artifício. A Bahia inclusive lidera o ranking de internações por queimaduras desse tipo no país. No ano passado, houve uma grande redução nos números em relação aos anos anteriores. Já neste ano, o ortopedista, traumatologista e cirurgião da mão Aedo Khouri estima que os números devem aumentar, principalmente porque as restrições são menores. E a mão é uma das partes do corpo mais atingidas pelas queimaduras por fogos. “Já têm chegado alguns casos por explosivos no centro de tratamento especializado em cirurgia da mão no Hospital Geral do Estado (HGE)”, diz ele, que trata nesta entrevista dos cuidados necessários com fogos e acidentes de trabalho.

Nesse período junino, temos muitos casos de acidentes com fogos de artifício na Bahia. Qual a gravidade desses acidentes, na maioria dos casos?

As lesões por fogos de artifício podem ser mais simples, como as queimaduras de primeiro e segundo graus, ou mais complexas, que podem acometer estruturas mais profundas como músculos, tendões, vasos, nervos e ossos, chegando a amputações de dedos ou de toda a mão. Além dos traumas nas mão, podem ocorrer cegueira e surdez.

Qual a faixa etária mais atingida? Esses acidentes acontecem muito com crianças?

A venda da maioria dos artefatos é proibida para menores, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas quase 25% dos feridos por fogos têm menos de 18 anos. Fogos de classe A, como estalos e traques, possuem venda livre, ao passo que fogos de classe B só podem ser vendidos a partir de 16 anos. Fogos classe C são permitidos para maiores de 18 anos e a venda da classe D deveria ser permitida apenas para profissionais que possuem licença, o que nem sempre é respeitado. Um levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina mostra que 45% dos acidentados têm entre 19 e 59 anos e quase 30% têm mais de 60 anos.

Qual a orientação no momento em que se sofre uma lesão nas mãos? Quando a pessoa deve procurar um especialista

As queimaduras mais simples devem ser tratadas apenas com água fria ou soro fisiológico com envolvimento de um pano úmido no membro. Nas queimaduras mais complexas, devemos acionar o Samu (192) ou corpo de bombeiros e o paciente deve ser encaminhado a um serviço médico com urgência. É importante evitar a automedicação e o uso de receitas caseiras como a aplicação de pasta de dente, manteiga, borra de café, pois, além de aumentar a contaminação, dificultam a limpeza da ferida, causando mais infecções.

É algo difícil de tratar, não é? Porque a integridade da pele se perde…

Sim, sem dúvidas, pois a pele é a nossa principal barreira de proteção. A partir das queimaduras de segundo grau, já há um grande potencial de contaminação de feridas e exposição de estruturas nobres que necessitam da proteção da pele. Nos casos mais dramáticos, procedimentos cirúrgicos de reconstrução devem ser realizados em regime de urgência, em que é necessário a presença de um cirurgião da mão, especialista com treinamento em reconstruções e microcirurgias nas mãos. Alguns casos mais graves, como eu disse, envolvem a amputação de um ou mais dedos, sendo necessário um procedimento conhecido como reimplante. Para isso, deve ser feito o acondicionamento correto, através do resfriamento do segmento amputado, mas sem o contato direto com gelo, ou seja, devemos envolver esse dedo em um pano úmido e colocá-lo em um saco. Após isso, colocá-lo em um recipiente com água e gelo. Além do condicionamento adequado, o tempo para a realização do procedimento é essencial e determinante para o reimplante.

Além do reimplante, há outros casos em que deve ser feita a cirurgia?

Sim, existem muitos procedimentos de reconstrução que são empregados a depender da lesão ocorrida individualmente. Limpeza cirúrgica com desbridamento de tecidos desvitalizados, fixação de fraturas, sutura de tendões, vasos e nervos, além da confecção de retalhos e enxertos para cobertura das áreas de perda de pele e tecidos. Casos mais graves podem evoluir com sequelas físicas, econômicas e psicológicas.

Quais os cuidados que se deve ter na hora de manusear fogos? Existe algum tipo de proteção para as mãos?

Temos que seguir sempre as orientações dos fabricantes dos fogos. Ver a data de validade, se esse produto tem o selo de certificação, evitar comprar de locais que não são certificados. Importante também é escolher um local que seja aberto, com uma distância de pelo menos 50 metros das pessoas. Devemos nos afastar da rede elétrica e locais que tenham substâncias inflamáveis. São cuidados básicos, mas que no calor da festa e com o uso de bebida alcoólica, acabamos esquecendo das orientações. Existem luvas e vestimentas especiais, para alguns casos, mas o mais seguro é o uso de suportes que evitem o contato direto com a mão. A recomendação é afastar os explosivos ao máximo do corpo.

Por que acidentes de trabalho com as mãos são tão comuns? Segundo dados do IBGE, 35% dos acidentes de trabalho ocorrem nas mãos, braços e antebraços e a maioria dos danos são causados por objetos cortantes.

A maioria dos acidentes que acometem as mãos são causados por falha humana, por não seguimento das orientações técnicas e não utilização dos equipamentos de segurança. Um tipo de acidente de trabalho bastante comum é o ocorrido pela serra-mármore, popularmente conhecida como Makita. É um instrumento de alta rotação, com efeito abrasivo, projetado para o corte de mármores e outras pedras, mas pela presença da disponibilidade de discos de corte de madeira no mercado e por ser uma ferramenta mais barata, a mesma é indiscriminadamente utilizada para cortar madeira nas obras, causando inúmeros acidentes. A maioria dessas lesões são encaminhadas para o Hospital Geral do Estado e pela sua enorme frequência acarretam prejuízo econômico gigantesco ao estado, além dos danos físicos e psicológicos aos pacientes, muitas vezes com sequelas definitivas. É definitivamente um problema de saúde pública que merece atenção.

Acidentes graves com motos acontecem muito? Acha que o aumento no número de entregadores por aplicativo e toda a pressão sofrida por eles para realizar as entregas com rapidez têm contribuído para os acidentes?

Sim, existe uma epidemia de acidentes motociclísticos no país. Traumas cranioencefálicos, fraturas de membros e lesões neurológicas graves ocorrem todos os dias em um ritmo cada vez maior. As lesões decorrentes destes acidentes mais tratadas pelos cirurgiões da mão são as fraturas e as lesões de plexo braquial, um conjunto de nervos que saem do pescoço e são responsáveis pelos movimentos e sensibilidade dos membros superiores.

Quais as consequências de quem tem uma queimadura ou sofre algum outro tipo de acidente com as mãos?

A mão é um órgão sensitivo-motor que proporciona a principal integração entre nós e o ambiente que nos cerca. São 27 ossos, além de músculos, ligamentos e tendões que, apesar de pequenos e delicados, conferem força e precisão para nossas atividades de trabalho e lazer. O polegar é o grande protagonista, assumindo de 40% a 50% da função da mão. Na maioria dos traumas por fogos, o indivíduo está efetivamente segurando o explosivo em movimento de pinça, que é o que mais utilizamos no dia a dia ao segurar objetos e no uso do touch em smartphones e tablets. Sendo assim, nos acidentes, ocorre o prejuízo desta função nobre de pinça e da realização de movimentos de precisão.

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