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Arquiteto apresenta projeto para criação de um parque público na Ponta do Sapocá

Publicado às | Atualizado em 06/12/2021, 15:34 | Autor: Gilson Jorge
Visão da praia de Tubarão e as ruínas da fábrica | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE
Visão da praia de Tubarão e as ruínas da fábrica | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE -
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A extinta sede do Clube Português da Bahia, na Pituba, tinha apenas oito anos de fundada quando recebeu em seus salões, há 50 anos, a elite baiana para celebrar a duplicação da capacidade de produção da Cimentos Aratu, no outro lado de Salvador, o Subúrbio Ferroviário.

A empresa do Grupo Votorantim foi instalada durante a década de 1960 para atender à demanda de uma cidade que apresentava uma taxa de crescimento populacional de 55%.

A capital baiana se expandia freneticamente com a urbanização da própria Pituba, uma antiga fazenda, e se preparava para lançar as bases da nova área de desenvolvimento, com a criação do Centro Administrativo da Bahia, a abertura da Avenida Paralela, o terminal rodoviário, o Shopping Iguatemi e tudo o que viria ao redor.

O sucesso da primeira fábrica de cimento na Região Metropolitana de Salvador, em pleno regime militar e numa época em que não existia agenda ambiental, foi saudado pelo então governador Antonio Carlos Magalhães, abençoado pelo arcebispo Dom Avelar Brandão e comemorado por lideranças políticas e empresariais, que brindaram à unidade fabril localizada na Ponta do Sapocá, uma elevação natural de 30 metros de altura entre São Tomé de Paripe e Tubarão, numa das paisagens mais lindas da cidade.

A ressaca só viria na década de 1990, após a redemocratização do país, quando denúncias de dragagem da Baía de Todos-os-Santos e destruição de corais para a retirada de calcário marinho, matéria-prima do cimento, levaram à desativação da fábrica após intervenção judicial.

Quando a unidade fechou as portas, Erasto de Carvalho era apenas uma criança brasiliense de dois anos. Mas duas décadas depois aqueles quatro silos industriais de 80 metros de altura, que podem ser vistos a olho nu desde a Praça Municipal, mexeriam definitivamente com o seu imaginário.

Patrimônio industrial

Matriculado no curso de Arquitetura da Ufba, por conta do seu interesse em preservação do patrimônio industrial, em que a universidade baiana é referência, Carvalho participou em 2012 de uma atividade acadêmica com 30 universitários no subúrbio.

Imagem ilustrativa da imagem Arquiteto apresenta projeto para criação de um parque público na Ponta do Sapocá
Arquiteto Erasto de Carvalho no terreno da antiga Cimentos Aratu | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Era preciso desenvolver um projeto de habitação social em uma vila de pescadores, mas a visão daquela estrutura industrial abandonada em meio à mata atlântica, perto de um mar de águas cristalinas, serviu de inspiração para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que seria apresentado anos depois: um parque público nos 60 hectares da Ponta do Sapocá, utilizando a estrutura de concreto abandonada.

“É o ponto mais alto de toda a baía”, destaca o arquiteto. Para conseguir tirar as fotos, mesmo sob ameaça, ele teve que parar o carro longe da entrada da fábrica, na Rua Doutor Eduardo Dotto, em um único trecho onde há um clarão no meio da vegetação local.

Finalista da 27ª edição do prêmio Opera Prima, em 2017, o projeto Ponta do Sapocá, Parque público em pré-existência industrial foi discutido no último dia 24 de setembro durante uma audiência pública virtual da Câmara Municipal do Salvador, solicitada pelo vereador André Fraga, sob o título E Se a Ponta de Sapocá virasse um parque público?

“Eu mostrei o projeto quando ele era secretário municipal [de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência]. Agora que ele está na Câmara me convidou para fazer a apresentação”, explica o arquiteto, que sonha com um mirante no topo dos silos com o qual se possa observar a Ilha de Maré, Madre de Deus, a foz do Rio Paraguaçu. “Isso aqui não deixa nada a dever ao Caribe”, declara.

As ruínas da fábrica, aliás, serviram de cenário para o filme Depois da Chuva (2013), de Cláudio Marques e Marília Hughes. Na descrição do projeto, o arquiteto justifica que a fábrica como está representa uma barreira física e psicológica entre a população e a paisagem, e que um parque seria uma forma de reconectar as pessoas ao local. “Normalmente, escrever um TCC é um tormento. Todo mundo quer se livrar, mas para mim foi um prazer enorme fazer esse trabalho”.

Foram 10 visitas ao local, incluindo tentativas frustradas de entrar na fábrica. “Uma vez, apareceu um segurança que não queria me deixar fotografar nem do lado de fora”, lembra o arquiteto.

Contrapartida

No projeto proposto por Erasto foram incluídos, além do mirante, um planetário, um ginásio esportivo e um restaurante popular. “Seria até uma forma de dar uma contrapartida à comunidade pelos danos causados pela fábrica”, justifica o arquiteto, que em seu mestrado desenvolveu um projeto de escola de saveiros na antiga fábrica da Jurubeba, na Boa Viagem.

Sonhar é uma etapa importante para a arquitetura. E a audiência pública mostrou que há mais pessoas sonhando com um parque na região. “A gente sente que o projeto de Erasto é a concretização necessária de um sonho que é da comunidade”, afirma a arte-educadora Natureza França, que chegou a Tubarão em 1985, com dois anos de idade, junto com a família que deixou Cachoeira em busca de trabalho.

Quando cresceu, Natureza se deu conta dos danos ambientais causados pela fábrica. “Muitos pescadores morreram afogados nos buracos cavados pelas dragas no fundo do mar. As pessoas gritavam para quem entrava na água ter cuidado com o buraco da draga”, lembra a arte-educadora.

Natureza ressalta, entretanto, que é necessário ter no local um parque público que não seja focado apenas no turismo, mas contemple as manifestações culturais da própria comunidade, onde se pratica o samba de roda.

“A gente acredita que esse projeto tem que ter no seu ventre, no seu eixo principal, a cultura, as memórias”, diz ela, que vê Tubarão como um polo de cultura que pode crescer.

“Tubarão tem muita coisa para isso. A gente precisa daquela fábrica para a gente. As indústrias, as entidades, os empresários que lucraram com as perdas que nós tivemos nesse território com a implantação da fábrica, precisam retribuir para a gente”, afirma a arte-educadora.

De concreto, por enquanto, somente as ruínas da fábrica. Até porque o local é uma propriedade privada. Mas a audiência deu visibilidade a um projeto que até pouco tempo era apenas o sonho do arquiteto.

“Tudo nasce de uma ideia. Acredito que reunindo lideranças locais e um projeto estruturado, podemos ter sucesso no convencimento da prefeitura e do governo do estado”, diz o vereador.

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