Artesãos baianos superam os tempos desfavoráveis da pandemia

A Bahia possui atualmente 14 mil artesãos cadastrados; desses, 5 a 6 mil estão ativos e produzindo

Publicado domingo, 06 de fevereiro de 2022 às 06:05 h | Atualizado em 05/02/2022, 19:49 | Autor: Vinícius Marques

A arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi uma vez disse que o artesão é o designer original. Ela acreditava que era o artesanato que representava as pessoas como nação, como povo, e mais especificamente aqui, como baianos. 

De acordo com dados da Coordenação de Fomento ao Artesanato (CFA), organização de política pública do Governo do Estado, através da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), a Bahia possui atualmente 14 mil artesãos cadastrados; desses, 5 a 6 mil estão ativos e produzindo. 

Esses números, no entanto, abrangem apenas aqueles que têm o artesanato como única fonte de trabalho e renda. “Temos esse outro universo, de pessoas que por terem outras atividades econômicas acabam não se cadastrando e não têm a Carteira Nacional de Artesão, mas  o estado da Bahia é um dos estados polo do artesanato no Brasil, e, em nível nacional, 2% do PIB é movimentado pelo trabalho do artesão e artesã”, afirma a socióloga e Coordenadora Estadual do Artesanato, Ângela Guimarães.

O CFA vem funcionando no Porto da Barra desde 2019 e substituiu o Instituto de Artesanato Visconde de Mauá, que intermediava o fomento à produção artesanal na Bahia há 76 anos e foi extinto em 2015.

  Desde então, a Coordenação trabalha com a finalidade de preservar a política de promoção e de incentivo em parceria com a Associação Fábrica Cultural, via Contrato de Gestão com o estado, para  comercializar obras artesanais, além de promover projetos de qualificação.

A organização separa a produção artesanal baiana em 27 territórios de identidade, divididos em nove Polos Territoriais, cada qual com suas principais técnicas e linguagens. Cerâmicas, bordados, xilogravuras, arte em tecidos e retalhos, trançados de fibras e muito mais – a criatividade é infinita.

“A Bahia é muito plural. Somos vistos como referência, exaltados, procurados e queridos. Em todos os espaços nacionais somos recebidos com acolhimento e carinho por causa de um artesanato rico, que representa essa diversidade no nosso estado e que dialoga com questões locais e ambientais”, conta Ângela.

Essa preocupação ambiental é parte intrínseca na produção artesanal. O artesão José Roque conta que é impossível não pensar nisso quando está produzindo suas cestas de fibra de piaçava. 

Natural da comunidade quilombola Boitaraca, em Nilo Peçanha, ele é familiarizado com a piaçava desde pequeno. “Aqui, a piaçava vive em harmonia com o meio ambiente. Há uma preocupação hoje do poder público em preservá-la, e quando isso acontece, a Mata Atlântica também é preservada”, conta o homem de 55 anos.

O trabalho como artesão se mistura ao de técnico em agronegócio, mas desde pequeno José mostrou interesse na arte enquanto observava o pai produzindo cestos de cipó. Entretanto, ele nunca teve a mesma habilidade com o material, mas encontrou na piaçava uma forma mais fácil para adentrar no universo artesanal. 

Em uma viajem para Ituberá, José aperfeiçoou a técnica de manuseio com a piaçava e, junto a outros 25 artesãos da região, formaram a Associação Mãos que Fazem Arte.

Criação e mercado

O artesão José Roque lembra que, no início da pandemia, muitas lojas ficaram desabastecidas e que agora, ao ver suas obras serem reabastecidas no mercado, percebeu que a sustentabilidade também se tornou parte do interesse dos clientes. 

“Talvez por conta da pandemia e dos últimos acontecimentos com a Amazônia, as queimadas, as pessoas parecem estar mais preocupadas em levar algo sustentável para casa e para presentear, nada que venha trazer mais danos ao meio ambiente”, analisa.

O período inicial da pandemia, difícil para todo o mundo, acertou em cheio a produção desses artistas, que se viram sem a chance de expor e até mesmo produzir novas obras. 

Numa tentativa de mudar o cenário, a CFA migrou as vendas presenciais para o ambiente virtual, com a criação de um site contendo um catálogo e informações sobre os artistas.

Para além da comercialização, Ângela Guimarães diz que continuaram o processo de capacitação também de forma online. Em 2021, um curso com temas voltados à gestão do artesanato foi disponibilizado na plataforma do YouTube da organização, contendo 10 módulos e 80 horas de carga horária. Trezentos e onze artesãs e artesãos de mais de 110 municípios foram certificados. Depois, com o avanço da vacinação, decidiram retomar com eventos de pequeno a médio porte, a exemplo das feiras de artesanato.

Sete cidades do estado receberam essas feiras, que reuniu mais de 200 artesãos. No mesmo período, uma Rodada de Negócios em parceria com o Sebrae Bahia foi realizada, onde mais de 60 artesãos apresentaram produtos e negociaram com lojistas e compradores de várias partes do país, totalizando mais de R$ 350 mil em vendas e encomendas.

“A renda desses artesãos depende da realização de ações de comercialização. Seja do funcionamento das lojas que temos em Salvador,  da nossa plataforma virtual ou pelas rodadas de negócios. Buscamos, naquele momento que foi permitido, gerar renda porque sabemos que o segmento do artesanato foi um dos mais atingidos pela pandemia”, conta a coordenadora estadual.

Turismo

O artesão Rony Santana, da Associação de Artesanato do Bairro Novo de São João do Panelinha, localizado em Camacã, também lamenta as dificuldades que a pandemia trouxe para o setor: “Afetou bastante a nossa produção. O setor do artesanato se faz junto com o turístico e, com o baixo movimento do turismo por conta da pandemia, ficamos alguns meses sem trabalhar porque não tínhamos como fazer as vendas e nem apresentar nosso trabalho”.

Rony trabalha com a criação de utilitários para cozinha manipulando materiais como coco, osso e madeira, apesar de também fazer qualquer peça de artesanato relacionado a biojoias, como brincos, pulseiras, colares e anéis. Isso porque foi com as biojoias que ele foi introduzido ao artesanato. 

“É uma história de gerações. Um tio fazia, ele aprendeu com outros moradores da cidade, ensinou ao meu irmão, cresci vendo e comecei a gostar e aprendi também”, conta o artesão.

Com apenas 28 anos, Rony  nunca teve outra profissão além do artesanato. “Terminei os estudos, tive oportunidade para outros serviços, mas por gostar tanto do artesanato estou fazendo até hoje”.

 Apesar do interesse da família pelas biojoias, os utilitários de cozinha feitos do coco e da madeira são a grande paixão do artesão. Talheres, tábua de carnes, facas, colheres, garfos, copos, xicaras, Rony produz tudo isso. Seja para uso ou decoração.

“Nossas peças são únicas, produzidas por pessoas criativas. O valor de uma peça artesanal não está somente no valor aquisitivo, na questão financeira, mas também no carinho, no afeto que aquela arte é transmitida pela peça”, afirma Rony.

Experiência

Com uma história de longo tempo no artesanato, Marlice Almeida, 67, é hoje uma mestra artesã. Esse título é concedido para aqueles que são reconhecidos como verdadeiros professores da arte que praticam. Formada em artes plásticas pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Marlice quase tornou-se socióloga. Abandonou o curso faltando apenas oito disciplinas. “Fui para a arte, que era minha paixão”, diz. 

De 1980 para cá, ela já representou a Bahia em exposições pelo Brasil, como também em outros países. Durante todos esses anos, uniu seu aprendizado como quase socióloga ao trabalho nas artes, realizando diversos ensaios que foram publicados em livros do extinto Instituto Mauá, onde atuou e sente falta ainda nos dias de hoje.

“Foram 76 anos do instituto em que, primeiramente, colocou a mulher no mercado de trabalho numa época industrial,  trabalhando com as comunidades matriciais, orientando, e trazendo para dentro da cidade, para dentro da capital, porque havia o consumo do artesanato nosso, da nossa representação”, sintetiza.

Isso não significa que ela esteja insatisfeita com o que tem sido feito no CFA. Marlice acredita que “a Coordenação está tentando fazer um trabalho bem-feito”, mas para ela faltam mais discussões para implementação de políticas públicas que permitam uma produção que não vise apenas o lucro do artesão.

“Vejo hoje uma série de artesãos que deixa de fazer o dele para fazer aquilo que vende. Isso não é um artesão, é uma pessoa que está direcionada a sobreviver,  mas ele não tem alma de artesão, não tem alma criadora. Não é só o mercado que faz o artesanato, é a alma do artesão também, da criação, a capacidade dele de materializar a sua vivência  através de um objeto. Eu sinto falta disso”, afirma.

Terapêutico

 Marlice coordena a Sala de Cerâmica do Palacete das Artes, museu localizado no bairro da Graça, em Salvador. Desde 2015, quando ela implementou um curso de cerâmica no museu, já trabalhou com cerca de 100 alunos. 

“Alguns vão para experimentar argila, como trabalhar com argila, e às vezes continuam; e alguns  buscam algo profissionalizante e vão para passar o tempo praticando  e descobrem que cerâmica é uma coisa que você tem sempre que estar trabalhando”, diz, definindo o perfil dos alunos.

Para ela, trabalhar com cerâmica é terapêutico. E é essa sensação que busca passar para seus alunos, que a mestra espera voltar a receber o mais breve possível. No entanto, a turma que deve retornar nos próximos meses já está fechada e foi selecionada em 2020, pouco antes da pandemia ser decretada.

“Meus alunos são meio ecléticos, mas dentro desse público hoje já tenho alguns que são profissionais e meu maior prazer é dizer que tenho mais de 20 alunos que têm ateliês próprios. Uma sementezinha plantada e que hoje alguns vivem só da cerâmica. Isso dá prazer. Isso me faz achar que  estou seguindo o caminho certo, que está dando fruto”, celebra.

 Mas para além de ver crescer essa semente em seus alunos, Marlice deseja que, para 2022 e nos anos que irão vir, o artesanato receba um maior reconhecimento da população e dos órgãos públicos. “É preciso fortalecer, é trabalho, mas antes de ser trabalho é cultura”, afirma.

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