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Alessandra Oliveira
Por Alessandra Oliveira
| Atualizada em
Em abril, Ronei Jorge apresentou faixas do novo disco em shows no Teatro Gamboa Nova
Em abril, Ronei Jorge apresentou faixas do novo disco em shows no Teatro Gamboa Nova - Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

Discos de vinil. Volta e meia Ronei Jorge, 43, dá um jeito de tocar no assunto durante conversa em seu apartamento na Graça. A adoração, alimentada desde a infância, parece ter sido a grande responsável por tornar-se compositor e cantor. “Sou aficionado por ficha técnica”, confessa sorrindo. Gosta de saber quem são os responsáveis por trás da melodia, letra, harmonia. Se pudesse, seu primeiro CD solo, em produção atualmente, seria em formato LP. Algumas faixas do disco, ainda sem data de lançamento, foram adiantadas ao público durante temporada no Teatro Gamboa Nova, em abril.

Na adolescência, seus ambientes favoritos eram lojas de vinil e locadoras de videocassete. Gastava metade do seu tempo com música e a outra metade, com cinema. Nessa conta não precisa ser nenhum expert em matemática para perceber que não sobra porcentagem para os estudos. Aluno “disperso”, Ronei só se interessava por português e gênero literário. “Arcadismo, romantismo… eram como gêneros musicais”.

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Sua primeira banda, a Mutter Marie, era formada pelos amigos do Colégio Marista que frequentavam sua casa para ouvir e tocar. Um deles é o guitarrista Luciano Simas, colega da sétima série até o terceiro ano. “Começamos na raça, na curiosidade. Era um ritual para colocar a emoção para fora”, lembra o amigo, apelidado de Pajé. Desde então, não deixaram de ser parceiros. Trabalharam em uma segunda banda, a Saci Tric e, hoje, compõem trilhas.

Na turma, era Ronei quem apresentava as novidades. Começou a fazer coleção de álbuns desde cedo. Uma das suas irmãs, Andrea Martins, única a também seguir carreira artística, conta que ele costumava presentear quem gostava com discos. O compositor não sabe exatamente quantos LPs e CDs guarda em casa, mas aposta entre 100 e 200.

Pelo que recupera na memória, confessadamente falha em datas, estava na casa dos 20 quando se tornou sócio de uma loja de discos, a Mosca. Nesse período, próximo ao de largar o curso de ciências sociais na Ufba, cantava e compunha na Saci Tric. Ao lado de Luciano (guitarra), Nuno Ricardo (baixo), Toni Couto (guitarra) e Ordep Lemos (bateria) gravou seu primeiro CD demo autoral (1997) e o disco Saci Tric Ao Vivo no Theatro XVIII (1999).

Sem gênero

Quando seu pai, Roney (sim, com y), lhe perguntou o que gostaria de ouvir antes de lhe comprar uma fita, Ronei disse “rock”. Não sabia exatamente o que era, mas todo mundo ouvia rock mesmo. Ganhou uma de heavy metal. A consequência? O gênero das suas duas primeiras bandas. Luciano classifica Mutter Marie como “quase punk”. Apesar de começar assim, o compositor afirma que seus ídolos são brasileiros.

A música nacional, que chegou até ele na adolescência, tornou-se seu permanente objeto de criação. “A primeira vez que ouvi Caetano, Milton, Gil, João Donato, abriu-se outro universo. A música brasileira é muito poderosa, imbatível. Fui ao show de Caetano e aquele cara era o máximo para mim. Não havia diferença dos artistas internacionais”.

Seu estilo foi tomando forma na banda Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, iniciada em 2003. O grupo, formado por Edson Rosa (guitarra), Sérgio Kopinski (baixo) e Maurício Pedrão (bateria), gravou um disco homônimo (2005) e o álbum Frascos, Comprimidos, Compressas (2009). “Não sou um compositor clássico de música brasileira. Não tenho conhecimento e apropriação para traduzir de forma pura nenhum gênero. Para mim sempre foi por uma ótica pop de tudo”.

O rock permanece na família pela voz de Andrea, da banda O Canto dos Malditos na Terra do Nunca. Ela diz ter sofrido “total influência” do irmão 12 anos mais velho. “Quando era novinha, uns 10 anos, ouvia ele tocar violão e ficava curiosa. Ele me mostrava o violão, letras, revistas. Criamos uma relação musical de troca”. A confiança artística entre eles pôde ser vista no Teatro Vila Velha em 2015, quando dividiram palco. De vez em quando, um assiste ao outro em cena para prestigiar e dar pitacos. Também compõem juntos trilhas para filmes e peças. “Ele desenha a letra, como um roteiro. Talvez porque goste de cinema”.

Medo e surpresa

Se gostasse de um cantor ou diretor cinematográfico, Ronei devorava todas as suas obras. Alugava até sete filmes de uma só vez. Lembra bem do dia em que segurou forte o punho da mãe Elza ao entrar na sala de cinema com as luzes já apagadas. A sétima arte lhe despertava medo, surpresa, fascínio. Enquanto rememora, a gata Tizuka recosta confortavelmente no colo do dono. Seu nome, assim como o do macho Ozu, é uma homenagem a diretores.

Após se formar em cinema pela Faculdade de Tecnologias e Ciências (FTC), passou muito tempo sem produzir algo na área. Então, em 2013, assinou roteiro e direção do documentário Jessica Cristopherry, junto com Paula Lice e Rodrigo Luna (os três formam a BuhFu! Filmes). Selecionado em 25 festivais internacionais e premiado em nacionais, como Cine Ceará (Melhor Curta) e Festival do Rio (Prêmio do Público), o filme retrata a transformação de Paula, que é atriz, roteirista e diretora, na drag Jéssica – nome que ela dava às personagens inventadas na infância. A obra inspirou um reality show, produzido pela Movioca Content House, com estreia marcada para este ano no canal fechado E! Entertainment.

“Ronei é o equilíbrio, supercalmo. Se um quer A e outro, B, ele apresenta um C, que concilia”, conta Paula. Antes da formação em trio (e até hoje), ele compõe trilhas para peças interpretadas por ela. “Ele é da canção, da melodia, das letras bonitas; um formato que as pessoas questionam. Você escuta uma música e quer que seja a trilha sonora da sua vida”.

A BuhFu! também produziu o documentário Ridículos (2016). Dessa vez, foi Rodrigo quem se transformou. Ele protagonizou uma iniciação na arte da palhaçaria. Exibido na Mostra Baiana do Panorama de Cinema, recebeu o prêmio de Melhor Montagem no XI Encontro Nacional de Cinema dos Sertões, no Piauí. Agora, os três estão trabalhando em um longa de ficção, intitulado Drácula, I love you. O trabalho é inspirado no álbum da cantora, arranjadora e compositora Tuca, morta em 1978.

Renovação

Para além da música também está o Tropical Selvagem – grupo de “criação artística em múltiplas linguagens” composto, desde 2013, por Ronei, João Meirelles e Lia Cunha. Em 2015, o trio lançou um EP homônimo. Além das criações autorais, o grupo auxilia artistas independentes. No coletivo, Ronei aprendeu a pensar o show em totalidade. “Os instrumentos, as vozes precisam ter sentido narrativo”. É possível perceber essa influência no seu trabalho solo, feito em conjunto com Maurício Pedrão (bateria), Carla Suzart (voz e baixo), Aline Falcão (voz e teclado) e Taciano Vasconcellos (guitarra). Com a fala mansa, que não se altera durante toda a conversa, diz que nunca se sentiu cantor, não gosta de dizer que é cineasta, muito menos instrumentista. Toca violão o bastante para mostrar suas músicas. O que lhe rouba a atenção é a composição. A preferência explica seu passatempo na infância, Playmobil – bonecos com partes móveis e uma série de elementos com os quais interagir. ”No fim, é tudo aquela coisa... contar histórias”.

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