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09/10/2022 às 6:00 • Atualizada em 10/10/2022 às 13:10 - há XX semanas | Autor: Gilson Jorge

#PORJULIA

Campanha virtual faz refletir sobre a memória de escritoras pioneiras

Iniciativa busca o reconhecimento da escritora Júlia Lopes de Almeida

Júlia Lopes de Almeida, uma das fundadoras da ABL
Júlia Lopes de Almeida, uma das fundadoras da ABL -

O casarão em que habitavam a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida e seu marido, também escritor, o português Filinto de Almeida, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, foi um ponto de encontro de intelectuais, no fim do século 19. Machado de Assis, Ruy Barbosa, Olavo Bilac e dezenas de escribas eram recebidos nesse endereço para saraus organizados pelo casal, que se deixava chamar "Julinto", união de Julia e Filinto.

Nascida em 1862, Júlia era grande numa época em que as meninas eram alfabetizadas apenas para não envergonhar os maridos, mas não podiam sonhar em ocupar os espaços destinados aos homens. A moça, que iniciou a carreira em 1881, com um artigo publicado na Gazeta de Campinas sobre a atriz italiana Gemma Cuniberti, chegou a vender mais livros do que Machado. Defensora dos direitos civis, do divórcio e da educação formal de mulheres, também foi uma voz em favor da abolição da escravatura.

Num movimento criado por Júlia e seus amigos intelectuais, surgia, em 1897 a Academia Brasileira de Letras. Amplamente inspirada na Academia Francesa, criada em 1635 pelo Duque de Rochelieu e Fronsac, a ABL destinava-se a fomentar a língua e a literatura nacionais.

Como na entidade parisiense, a ABL foi planejada para ter 40 membros, entre os quais o casal Julinto. Mas o apego aos valores da Academia Francesa fez com que os futuros acadêmicos decidissem em votação que apenas homens ocupariam as cadeiras da ABL. Chic e machista, como a Paris da época, a instituição aceitou Filinto e barrou Júlia. Uma regra que seria quebrada em 1977, com a eleição de Rachel de Queiroz como imortal.

Coleção

Este ano, quando se comemoram 160 anos do nascimento da escritora, a editora carioca Vermelho Marinho lançou uma vaquinha virtual para bancar a publicação de um box com três livros do casal Julinto. Ânsia Eterna, um dos maiores sucessos da escritora; Dona Julia, livro de contos de Filinto, e A Casa Verde, escrito a quatro mãos. A depender da arrecadação, a coleção pode ser lançada antes do Natal deste ano ou às vésperas do próximo dia da Mulher.

"Júlia teve um papel importante na educação feminina e na transformação do papel da mulher", diz a consultora editorial Fernanda Emediato, coordenadora do Projeto Júlia 160, criado pela Editora Vermelho Marinho, com campanha nas redes como #PorJulia.

Fernanda Emediato coordena o projeto Júlia 160
Fernanda Emediato coordena o projeto Júlia 160 | Foto: Giuli Lacorte | @_casaestudio

"Os temas abordados por Júlia são extremamente atuais, ainda mais no momento que vivemos. Ela escreveu, por exemplo, sobre a necessidade de desarmar os cidadãos, já que em um momento de raiva uma pessoa comum podia se tornar um assassino", afirma a pesquisadora Anna Faedrich, que assina um texto de apresentação no box.

O trabalho de Júlia, morta em 1934, ainda permaneceu circulando até a morte de Filinto, em 1945. Depois disso, era como se ela não tivesse existido. Esse fenômeno do esquecimento de autoras brasileiras foi descrito pela pesquisadora Constância Lima Duarte como “memoricídio”.

"O termo se refere a mulheres que escreveram, tiveram leitores e boa recepção da crítica, mas na virada do século 19 para o 20 não ingressaram nas histórias da literatura do país", explica Nancy Vieira, professora do Instituto de Letras da Ufba. Nancy, que na década de 90 integrou um grupo de pesquisa sobre mulheres na literatura, destaca duas autoras baianas que, a seu juízo, não foram suficientemente estudadas: Ana Ribeiro Góes Bittencourt, que escreveu sobre a Sabinada e a Independência na Bahia; e Amélia Rodrigues, que dá nome a um município baiano. "São obras que registram a realidade baiana e que são capazes de traçar uma descrição bastante significativa da vida social da época", declara.

Amélia Rodrigues, por sinal, teve um de seus livros, O Mameluco, reeditado este ano pelo selo ParaLeLo13S, da Livraria Boto-cor-de-rosa. "Amélia é conhecida por suas grandes contribuições como educadora e poeta, sendo realmente pioneira como mulher na sua época e no contexto social em que vivia", afirma a editora do selo, Sarah Rebecca Kersley.

O Mameluco, que trata da mestiçagem e das relações raciais no Brasil, foi originalmente publicado em episódios, em 1882, no Jornal Echo Sant'Amarense. O projeto da ParaLeLo13S, selecionado pelo Rumos Itaú Cultural, uniu os textos de Amélia Rodrigues a ilustrações de Flávia Bonfim e um ensaio crítico da professora Milena Britto. "Podemos ver como o trabalho de Amélia dialoga e se insere de forma impressionante lado a lado com os romancistas canônicos da mesma época", aponta Sarah.

Corpo e alma

O feminismo na literatura não poderia ser mais vivamente representado do que na alma e no corpo de uma garota de 14 anos, no interior da Bahia que, em plena Ditadura Vargas, decide ser atriz e um ano depois estreia em um palco de Ilhéus. Da terceira geração de imigrantes alemães, inteligente, bonita e amante da leitura, Elvira Foeppel foi, durante 10 anos, um pequeno vulcão na terra do Bar Vesúvio, até ser expulsa da cidade, por não aceitar o papel destinado às mulheres: casar, ter filhos e se comportar bem.

Em seus anos ilheenses, a jovem dividia o tempo entre conversas intelectuais com Jorge Amado e Jorge Medauar e a gostosa liberdade de fazer o que lhe desse na telha. Formada em pedagogia, ia dar aulas a trabalhadores rurais e não tinha problemas em transar com os alunos. Quando outra mulher lhe censurava, ela dava em cima do marido da beligerante.

Depois de aprender a pilotar avião, numa época em que mulheres nem dirigiam automóveis, pegava o monomotor de seus paqueras ricos e fazia voos rasantes sobre quem lhe infernizava a vida. Essas histórias começaram a vir à tona em 2000, dois anos depois da morte de Elvira Foeppel, no Rio de Janeiro.

A professora de literatura da Ufba, Ivia Iracema Alves, tinha lido algo sobre o falecimento de uma escritora baiana, então desconhecida na própria terra, e entregou à sua orientanda no mestrado, Vanilda Salignac Mazzoni, uma folha de papel A4 com o nome Elvira Foeppel e uma interrogação. Ao questionar a orientadora, Vanilda ouviu que não se sabia nada dela e que ela começaria a pesquisa do zero.

Mais além das peripécias juvenis que teriam inspirado Jorge Amado a compor a personagem Malvina, de Gabriela Cravo e Canela, Vanilda descobriu no Rio de Janeiro, aonde Elvira foi levada com o patrocínio de um ‘coronel’, uma escritora vibrante, que logo no primeiro ano na Cidade Maravilhosa já escrevia contos para a revista O Cruzeiro, e que depois se tornaria amiga de Clarice Lispector e Nélida Piñon.

"Elas formavam o que se chamou a terceira onda do modernismo, a fase da introspecção. Mas falar que a obra de Elvira se resume à introspecção é muito raso. Se alguém acha difícil ler Clarice Lispector, não entre em Elvira", afirma Vanilda, doutora em literatura e autora do livro A Violeta Grapiúna, vida e obra de Elvira Foeppel, além de co-organizadora do livro Da Sombra à Luz: seleção de contos de Elvira Foeppel.

Elvira, que recusou a ideia de integrar a Academia de Letras de Ilhéus e pediu aos amigos para não ser enterrada naquela cidade, escreveu regularmente até a de cada de 60, quando passou a dividir seu tempo entre o trabalho na revista Súmula Jurídica, que pagava suas contas, e o cuidado dos pais, debilitados.

Com a morte dos genitores, aposentou-se e levou uma vida recolhida, sem abandonar o gim, sua bebida predileta. Elvira, que completaria 100 anos em 15 de agosto do próximo ano, foi enterrada no Cemitério São João Batista, no Rio. "No seu atestado de óbito, constava como causa da morte a cirrose", diz a pesquisadora.

Mercado

O mercado de literatura, que no geral já é difícil, segue impondo barreiras extras para escritoras em relação aos escritores. "Ainda hoje, há mulheres que optam por adotar um pseudônimo masculino ou usar as iniciais do prenome e apenas o sobrenome por extenso", declara a consultora editorial Fernanda Emediato.

Integrante do grupo Enegrescência, formado em 2016 para fomentar o movimento literário de jovens negros, a pesquisadora Gonesa Gonçalves acredita que para falar do apagamento histórico da escrita feminina no Brasil é preciso retornar ao Brasil enquanto nação colonizada. "Pensar que o projeto de nação que tínhamos era pautado em ideias ocidentais e isto incluía pensar a mulher como um ser intelectualmente inferior", declara. Mas, ainda bem, sempre aparece alguém para mudar a história.

Primeira mulher negra a publicar um livro no Brasil (Úrsula, 1859), a maranhense Maria Firmina dos Reis é um marco na história da literatura. Aliás, ela vai ser homenageada este ano pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Mas ainda há um longo caminho para a naturalização e o reconhecimento das escritoras negras. Um dos primeiros livros de uma autora negra a ter sucesso editorial foi Quarto de Despejo, escrito pela mineira Carolina Maria de Jesus para narrar em forma de diário a sua experiência como empregada doméstica e moradora de uma favela em São Paulo.

Base

Publicado pela primeira vez em 1960, o livro serviu como base para outros produtos culturais, livros, filmes, um programa Caso Verdade para a televisão, protagonizado por Ruth de Souza, uma peça de teatro, também protagonizada por Ruth de Souza, e até um documentário feito com Carolina por uma equipe de TV da Alemanha, em 1971.

Uma das grandes referências literárias do país na atualidade, a mineira Conceição Evaristo, autora de Olhos d'água, chegou a lançar uma anticandidatura para a Academia Brasileira de Letras em 2018, para a cadeira de Nelson Pereira dos Santos. Como era de se esperar, até porque não fez o ritual de pedir votos, perdeu a vaga para Cacá Diegues.

Gonesa, aliás, lembra de um episódio do ano passado em que um colégio do Cabula, em Salvador, afastou uma professora que recomendou aos alunos a leitura do livro Olhos d'água.

"A escola suspendeu o uso do livro, que é indicado em vestibulares, pois os pais estavam reclamando da linguagem. Diziam que a linguagem do livro de Conceição Evaristo era inadequada, coisa que não acontece com escritores como Jorge Amado", reclama Gonesa.

A pesquisadora acha que essa é mais uma forma que a sociedade encontra de inviabilizar a literatura de mulheres e de mulheres negras. "Quando a literatura contida no livro não contempla o projeto de sociedade há uma tentativa de bloquear a sua divulgação", afirma.

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