Condôminos do Sulacap revelam expectativas com revitalização

Publicado domingo, 20 de março de 2022 às 06:05 h | Atualizado em 19/03/2022, 19:39 | Autor: Gilson Jorge
Prédio teve projeto de  Anton Floderer e Robert Prentice
Prédio teve projeto de Anton Floderer e Robert Prentice -

Pela porta de vidro do consultório odontológico que ocupa a sala 508 do Edifício Sulacap, no Centro de Salvador, enxerga-se o jovem dentista Felipe Ribeiro atendendo um paciente. Faltam oito minutos para o meio-dia de uma terça-feira e outras duas pessoas aguardam sentadas na sala de espera.

 Há quatro anos, Felipe compartilha com o pai, Luiz Lima de Jesus, em esquema de rodízio, o consultório que tem uma vista para a Baía de Todos-os-Santos que deixa qualquer um, e não apenas os pacientes, boquiaberto.

Enquanto Felipe se ocupa de dentes alheios, seu pai abre a sala ao lado, também pertencente à família e que está em reforma. Minutos depois, desembrulha um pacote bege e mostra o quadro feito pela paciente Dora Cardoso, um mês e meio depois que ela fotografou a paisagem da janela, que vai decorar em breve a sala usada por Felipe.

Pai e filho pintam de formas diferentes a experiência de trabalhar em um dos edifícios mais bonitos da cidade. Luiz, que comprou a primeira sala ainda no início da década de 1980, quando o Sulacap ainda era administrado pela Sulamérica Capitalização, que o construiu em 1946, relembra os dias de glória em que o imóvel funcionava quase perfeitamente e era uma referência para os serviços de profissionais liberais. 

Hoje, discorda que o prédio seja visto como emblemático da cidade. "Não acho que seja emblemático.  Isso aí o pessoal está querendo criar", afirma o septuagenário dentista. 

Ele também reclama da sensação de insegurança na rua e da diminuição de vagas de estacionamento no Centro, o que a seu ver afasta a clientela. "Pago uma diária de R$ 30 para estacionar.  Meu filho estaciona na rua. Mas tenho 70 anos, não aguento correr", diz, rindo.

Felipe, que no começo da carreira não tinha grandes expectativas em relação ao imóvel, passou a acreditar no futuro do edifício art déco com algumas medidas e projetos da nova administração. 

E também pelos investimentos públicos e privados no entorno do Sulacap: os novos hotéis na Praça Castro Alves e Rua Chile, a revitalização do Comércio e do Centro Histórico.  

Visão da parte interna do prédio, localizado entre a Av. Sete e rua Carlos Gomes
Visão da parte interna do prédio, localizado entre a Av. Sete e rua Carlos Gomes |  Foto: Rafaela Araújo | Ag. A TARDE
 

Potencial futuro

"Meu pai trabalha no Sulacap há 40 anos e essa visão pessimista que ele tem é muito pelos sonhos que ele depositou e que foram frustrados pela decadência do Centro ao longo de anos. Eu estou otimista.  Acho que sou como era meu pai quando mais novo", afirma o dentista Felipe Ribeiro, que visualiza o Sulacap voltando a ser um local procurado por quem busca serviços.

Luiz dá um voto de confiança aos novos administradores do condomínio, que tem 118 salas, cerca de 50% funcionando com negócios e uma taxa de inadimplência em torno de 30%. "Ainda é cedo para avaliar o trabalho deles e algumas coisas estão melhorando", concede o dentista.

Eles, no caso, são o síndico Adson Improta, a mulher Aline Gois e a filha Aila Gois, que desde maio de 2021 comandam, a partir de uma sala no segundo andar, a AppDoor, empresa responsável pela realização de eventos ligados ao prédio, como a ação de marketing realizada pela cervejaria Devassa no Carnaval, em que sob o comando de Carlinhos Brown artistas fizeram uma performance nas janelas do edifício.  

A concessão do espaço para a ação rendeu ao condomínio R$ 30 mil. Um dinheiro que, de acordo com o síndico, foi usado para quitar débitos trabalhistas e na manutenção do sistema hidráulico do condomínio.

Luiz foi o último condômino a ceder sua janela para o evento da cervejaria. Temia ser responsabilizado judicialmente em caso de um eventual acidente ocorrido em sua propriedade. Acabou cedendo nesse episódio, mas costuma fazer críticas a algumas decisões.  Como o anúncio de que haveria um futuro café no terraço do prédio, precedido pela implantação de um café no hall. 

É um dos assuntos que, às vezes, geram discussões nos corredores do prédio, mas sem perder a ternura. "Eu costumo brincar que com a gente é entre tapas e beijos", ameniza Aline Gois, da AppDoor.

Filho e pai, os dentistas  Felipe Ribeiro e Luiz Lima de Jesus compartilham consultório
Filho e pai, os dentistas Felipe Ribeiro e Luiz Lima de Jesus compartilham consultório |  Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE
 

Projeto

Aline e Adson garantem a existência de um projeto para a construção de uma galeria e um café lá no alto. Mas ainda são ideias no papel. E embora se projete a abertura de uma porta na parede do terraço, caso haja liberação por parte do Iphan, é importante ter em mente que seria um café nas instalações internas. 

Não há a menor possibilidade física de alguém se imaginar tomando um café enquanto observa a baía. A largura do corredor no terraço seria um empecilho até para a bandeja na mão do garçom.

O Café WM, instalado há três semanas no hall, surgiu de um convite feito pelo casal ao empreendedor Walmir Menezes, que até então servia os bolos e tortas produzidos por ele mesmo em um café instalado no Edifício Bráulio Xavier, no outro lado da praça. 

Walmir declara-se animado com o potencial do prédio.  "Eu gostava mais de prédios novos, especialmente para morar. Mas com o tempo passei a apreciar construções mais antigas",  diz o comerciante, que morou por 23 anos na Suíça, onde trabalhou com confeitaria.

Se o prédio tem um passado glorioso e um potencial futuro, o presente é de muito trabalho e de problemas. No ano passado, uma vistoria da Defesa Civil apontou problemas estruturais.  No mês passado, uma vidraça despencou de uma sala no quarto andar na calçada da Avenida Sete. Cristãos diriam que graças a Deus ninguém ficou ferido.

E a presença evangélica no condomínio é notável.  Ao lado da sala da AppDoor funciona a sede municipal do Partido Social Cristão (PSC), uma agremiação com grande presença de evangélicos e que tem como advogado no diretório estadual o próprio síndico. Sua esposa integra o PSC Mulher.

Além de clientes antigos de outras partes da cidade, as salas do Sulacap contam com políticos do PSC quando há eventos do partido e de secretárias de vereadores e de funcionários do executivo, já que a Prefeitura e a Câmara Municipal ficam logo ali, cruzando a Rua Chile. 

Policiais que circulam pela área também fazem parte da clientela. Na manhã do dia último dia 11, um policial civil entrou apressado no Sulacap, subiu até o primeiro andar e comprou um cabo de dados para carregar a bateria de seu celular na loja Canguru. Estava em meio a uma operação em busca de suspeitos e não pôde alongar conversa. 

"Quando ele tem tempo,  ficamos batendo papo", afirma a dona da loja, Naiana Falcão, uma serena comerciante evangélica que declara-se animada com o prédio e ressalta o privilégio de trabalhar olhando as águas da baía. 

Expediente

Nos últimos 10 anos, Naiana se divide entre a empresa e os cuidados de casa. Quando encerra o expediente, às 17h, vai caminhando até a residência no Tororó, onde reencontra a filha de 10 anos.

Naiana não foi sempre assim, tranquila. Menos de 24 horas antes de seu bebê nascer, numa quarta-feira de Cinzas, com 23 anos de idade e uma barriga de oito meses de gravidez, subiu na sacada de sua loja, com janela para a Rua Carlos Gomes, para saudar a passagem do trio de Ivete Sangalo, logo após o tradicional contorno em frente ao prédio onde Naiara trabalha com a família desde que era adolescente. "Foi Ivete que disse para ela descer da janela", dedura a irmã mais nova da comerciante, também evangélica.

A euforia do trio elétrico passou para a família Falcão, mas a pouco mais de um metro da janela permanece um risco realmente eletrizante, um cabo de alta tensão da rede elétrica. 

"De vez em quando vem um funcionário da Coelba comprar aqui e ele fala para a gente não se aproximar, não jogar água ou objetos", conta Raiana, irmã de Naiana. 

De acordo com ela, os funcionários da Coelba sugeriram que  procurassem a empresa. Mas Raiana reconhece que há algum tempo o perigo era desconhecido e jogava-se água pela janela e, no Carnaval, ficava gente aglomerada por ali.

Playlist

Na sala 204, um escritório de advocacia, o som de canções evangélicas pode ser ouvido ao longo de todo o expediente.  Quando o telefone toca, o advogado Flavio dos Santos pede permissão ao interlocutor para atender a chamada, mas não diminui o volume da música que sai de uma playlist aleatória baixada pela internet. 

Ex-católico convertido ao protestantismo depois de conhecer a namorada com quem se casou há 24 anos, Flavio é um tipo família. O casamento veio mais ou menos no mesmo período em que adquiriu a sala para cuidar de questões trabalhistas, cíveis, previdenciárias. Ele continua botando fé no Edifício que lhe permite resolver quase tudo a pé. Bancos, cartório, o que não encontra na Avenida Sete está no Comércio. E quando precisa pode ficar trabalhando à noite ou aos domingos. 

"Já teve síndico querendo tirar essa prerrogativa, de ficar até mais tarde,  mas  como o sistema da justiça fica aberto, às vezes preciso ficar alimentando o processo com informações ", destaca. E como mora em Nazaré, se dá ao luxo de fazer as três refeições em casa, junto com a mulher e  três filhos.  "É um luxo comer em casa numa cidade grande como essa".  De vez em quando, a mulher o espera na portaria na hora do almoço e eles descem a Castro Alves de mãos dadas.

Dentro do condomínio, os comerciantes vão precisar dar as mãos também.  A lista de coisas por fazer inclui a cobertura de toda a fiação para Internet, que hoje fica aparente. A administração tem falado em outros projetos para angariar recursos e trazer atividades para o prédio, como desfiles de moda e exibições de rapel, além da exploração da fachada. "Quem não gostaria de ter sua marca em um outdoor como o Sulacap?", questiona Improta.

O prédio de formas arredondadas, com projeto dos arquitetos Anton Floderer e Robert Prentice, que aparece em quase todas as fotos de encontros de trios e  abrigou na década de 1960 o estúdio JS, onde Gilberto Gil gravou jingles no início da carreira, busca encontrar de novo o seu caminho.

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