Corações soteropolitanos: histórias e motivos de quem decidiu vir morar em Salvador

Publicado domingo, 28 de março de 2021 às 06:02 h | Atualizado em 27/03/2021, 20:07 | Autor: Gilson Jorge

Nascido na pequena San José de Mayo, interior do Uruguai, Maxi Alonso já tinha ouvido falar da Bahia aos 12 anos, quando deixou a família para estudar dança na capital de seu país, Montevidéu. A noção de uma cidade de cultura africana na América Latina seduzia o futuro artista, vindo de uma nação que tem menos de 10% de sua população negra, mas que ostenta como uma de suas grandes riquezas simbólicas o candombe, dança desenvolvida pelapopulação banto da região do Rio da Prata.

Alonso veio em 2019, a convite do consulado uruguaio em Salvador, para apresentações na cidade. O tempo passou, novas atividades foram surgindo, conexões foram feitas e a sua permanência foi além do consulado, desativado no início deste ano.“Eu sou um baiano nascido no Uruguai”, brinca Alonso, cuja única queixa em relação à cidade é a sensação de insegurança.

Entre as coisas que o seduziram, o mar, a comida, a noite do Rio Vermelho, as ruas com paralelepípedos do Pelourinho e o acolhimento baiano. “Eu renasci aqui e encontrei famílias dispostas a me adotar”, brinca o uruguaio, que durante a pandemia está dando aulas online de yoga e de candombe.

Nascida no outro lado da fronteira do Uruguai, no estado do Rio Grande do Sul, a cineasta Camila de Moraes descobriu Salvador na adolescência, durante uma visita a um parente. “O povo negro me encantava muito. Eu saía nas ruas e via pessoas com cabelo black, com rasta”, lembra a gaúcha, que naquela época voltou ao Sul depois das férias decidida a deixar o cabelo crescer.

As praias, o Carnaval e a alegria do verão ressoavam ao longo do ano na cabeça da cineasta, que decidiu mudar para a cidade com a mãe. A vida cotidiana revelou o outro lado do sonho. Camila passou a enxergar em detalhes a desigualdade social, a miséria, a violência. “Nesses altos e baixos, já estamos aqui há 11 anos”, conta Camila.

A gaúcha, hoje torcedora do Inter e do Bahia, afirma que se por um lado foi perdendo o encantamento com aquela ideia de cidade construída nas férias, Salvador tem lhe mostrado frequentemente o real motivo de ter escolhido morar aqui. Atualmente, por exemplo, está envolvida em dois projetos. O desenvolvimento de uma série chamada Nós somos pares, cujo episódio-piloto foi gravado em fevereiro de 2020, um mês antes de todo mundo se trancar em casa, e o documentário Beije sua preta em praça pública, baseado no poema homônimo de Lande Onawale.

A falta de reivindicação de sua latinidade por parte dos soteropolitanos é um ponto destacado pelo historiador norte-americano Ibrahim Sundiata como um diferencial em relação às comunidades afro-latinas dos Estados Unidos.

Enquanto os porto-riquenhos e demais latinos negros de lá não destacam a herança africana, Sundiata avalia que Salvador mostra-se ao mundo como um pedaço do continente africano nas Américas. “A cidade não reivindica sua latinidade, mas sua africanidade”, diz o historiador especialista em África, que está escrevendo sobre a negritude em Porto Rico.

O professor esteve em Salvador pela primeira vez em 1984 para ensinar em uma pós-graduação, sem falar português, tem vindo à cidade regularmente desde 2002 e se prepara para migrar à Bahia ao final da atual pandemia.

Do que mais gosta por aqui? Das pessoas. “Eu posso sair de casa e na esquina encontrar um amigo para tomar uma cerveja e conversar”, diz o historiador, que não se queixa das suas amizades em Boston, mas avalia que lá todo mundo mora longe e as pessoas estão menos disponíveis.

Estado de espírito

Se quem migra para São Paulo, Estados Unidos ou Europa normalmente sonha com ascensão profissional, uma melhor situação financeira e sucesso, a opção por Salvador pode ter componentes sensoriais e de despojamento. A ideia de que é possível viver e ser feliz com pouco. “Onde a gente não tem pra comer mas de fome não morre”, como romantiza a canção Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil que, sim, mudou-se para o Rio de Janeiro.

O professor de espanhol Blas Belmonte nasceu em Navas de San Juan, pequeno povoado na Andaluzia. Região conhecida pelas cidades de Sevilha e Málaga, e que sofre, do resto da Espanha, o mesmo preconceito que a Bahia e o Nordeste experimentam com o Centro Sul. Uma população catalogada como preguiçosa, atrasada e festeira.

A primeira parada de Belmonte no Brasil como professor do Instituto Cervantes no Brasil foi São Paulo, a cidade que, dizem, não pode parar. Apesar de ter gostado da Pauliceia, o espanhol estava em busca de mais qualidade de vida em uma cidade menor e em 2007 se tornou o primeiro professor contratado do Cervantes em Salvador.

Ao chegar sozinho e com a motivação de quem queria algo novo, Belmonte não teve dificuldades em se adaptar à nova cidade. Encontrou um apartamento na Barra, descobriu o Bar do Chico e, em pouco tempo, já se sentia em casa. Ficou apaixonado pelo azul do mar, pelo do céu também, pelas cores soteropolitanas.

Durante o período de isolamento social, sente falta de sair para beber com os amigos, de ir a restaurantes, do MAM e de ir ao Cinema do Museu com a namorada. De retoques à sua atual cidade, destaca apenas duas coisas: " Há uma imensa desigualdade social e os serviços públicos não são muito bons", pondera. Mas enxerga a mesma simpatia, calor humano e a cultura do toque, de estar perto do outro. “Eu vejo uma simetria entre o Nordeste do Brasil e o Sul da Espanha, são regiões culturalmente ricas, com tradição”.

Afetividade

Se Belmonte vê semelhanças entre a sua terra natal e Salvador, a cidade aniversariante também soa muito aconchegante à paraense Inez Leão, que mudou-se para cá antes de ingressar na universidade, acompanhando o então marido que veio trabalhar em uma empresa no Polo Petroquímico de Camaçari.

Formou-se em enfermagem pela Ufba, teve um filho na capital baiana, separou-se mas nunca se sentiu muito longe de casa. A beleza natural exuberante e afetividade do povo baiano são bem similares à sua vida em Belém do Pará.

As semelhanças entre os estados, aliás, incluem o cultivo de cacau e dendê. Mas Inez considera que o ingrediente essencial de aproximação dos estados são as pessoas, que descreve, nos dois casos, como amigas, carismáticas, de boa vontade. Pelo visto, não somos tão exclusivos assim quanto gostamos de pensar. “Os baianos só são um pouquinho menos desconfiados do que os paraenses”, compara.

Inez afirma que não teve qualquer dificuldade de adaptação às pessoas, aos costumes. “Mesmo quando meu marido estava viajando e eu ficava sozinha, não houve problemas. Os costumes foram introjetados de forma muito sutil, pelas semelhanças. Nós, do Norte e Nordeste, temos esse coração grande”, pontua. Descobriu um restaurante de comida paraense que a abastece de açaí, tacacá e vatapá paraense. De resto, quando sente saudade vai visitar Belém.

Todos os Santos

Em, 1944, bem antes que a Avenida Tancredo Neves existisse e começasse a se arvorar a ser uma versão soteropolitana da Avenida Paulista, com sua gente em roupas de escritório, Jorge Amado descrevia no livro Bahia de Todos os Santos o ideal de vida que permeia a velha Salvador, desde Itapuã ao Subúrbio ferroviário: “Baiano quer dizer quem nasce na Bahia, quem teve este alto privilégio, mas quer dizer também um estado, significa certa concepção de vida, quase filosofia”, diz o escritor, concluindo que “baiano é um estado de espírito”.

Aliás, nem a vertical e estressada região do Iguatemi, com seus prédios de nomes pomposos, escapa das rodas de conversa e baianidade profissional ao redor de um isopor cheio de cervejas e algumas cadeiras.

Depois de terminar de cursar em Salvador as aulas do seu mestrado em antropologia, e passar um tempo dividida entre as duas cidades, a alemã AnjuliRotter percebeu que, ao mesmo tempo em que era uma alemã na Bahia, estava se tornando baiana para os padrões de seu país.

De volta em definitivo à Europa, começou a adotar hábitos de seus amigos soteropolitanos, como se atrasar para um compromisso porque encontrou alguém na rua e foi tomar cerveja, puxar papo com desconhecidos e cantar e dançar na calçada quando escuta no fone de ouvido uma música que lhe agrada. “Na Bahia, a vida acontece em público, todo mundo participa. Aqui, as pessoas são muito ligadas à privacidade”, diz.

Mesmo a distância, quem morou numa cidade que um dia lhe pareceu estranha pode experimentar a sensação descrita por Rubem Braga na crônica A Viajante: de que essa cidade também já é, doce e suavemente, sua.

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