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Crônica - Músculo rubro

Publicado domingo, 05 de dezembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 04/12/2021, 16:08 | Autor: Ró-Ã
Ilustração: Túlio Carapiá | Editoria de Arte de A TARDE
Ilustração: Túlio Carapiá | Editoria de Arte de A TARDE -
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Já faz uns bons anos, fui diagnosticada com prolapso da válvula mitral, que o próprio Dr. Gilberto Rebouças me disse ser “doença de rico”, ou seja, não causa maiores problemas ao funcionamento do coração. Parece que, em tal caso, esse componente móvel, que deveria se fechar completamente após cada batimento cardíaco, é meio frouxo e deixa escapar um bocadinho do sangue – a que eu adicionaria a obviedade de “rubro”, fosse destemida o bastante para ser poeta.

E os médicos que me perdoem se estou dizendo besteira. Admito minha preguiça em pesquisar, neste instante, dentro do vasto campo da biologia, ciência que adoro. Contudo, pra ser sincera, tanto em nada me incomoda esse defeito na minha válvula mitral que nem lembro de ser sofrente dessa condição. Ao contrário: os exames a que periodicamente me submeto sempre vêm acompanhados de elogiosas exclamações: Coração bom! Coração jovem! embora eu tenha acabado de completar 64 anos e ser fumante inabalável há pelo menos cinquenta.

Outras questões me doem o músculo cardíaco, incandescentes, pouco relacionadas à boa forma, ou fitness, deste que ainda bate em meu peito. Têm mais afinidade com a compaixão que sempre senti por nós todos e as dores a que estamos expostos na vida e no mundo. E que dinheiro algum será jamais capaz de compensar, ainda que seja principalmente o dinheiro a estrela em volta da qual giram todos os movimentos humanos.

E foi por isso que, já adulta, criei hamsters por dez anos. Hamster é bicho de criança, todo o mundo sabe; a retardada sou eu. Começou com um camundongo que me roeu um bombom de chocolate, presente de um aluno. Fiquei possessa, mas admirei o fato de ele ter conseguido farejar a delicinha no amplo espaço da inóspita sala dos professores. Caí de amores pela criatura, descobri que se escondia debaixo da estante na sala ao lado, onde ficavam os computadores. Passei a alimentá-lo com doces e salgados da cantina, sem medo de que pudesse lhe causar diabetes ou hipertensão. Pensava: que vida infeliz deve ser ter que se esconder o dia inteiro e só à noite poder se permitir sair da toca a fim de investigar se alguma comida é possível.

Após algum tempo, fui intimada à sala do diretor:

- Soube que você está alimentando o rato na sala dos professores.

- Estou.

- Já dei ordem a Reinaldo pra botar chumbinho.

- Certo.

Comprei uma gaiola de hamster e passei a esperar todas as noites, depois da minha última aula, que o danado do camundongo entrasse nela. Coloquei uma isca e um cordão que fecharia a porta da gaiola no instante já! Sentava numa cadeira atrás da arapuca e segurava a ponta do cordão, pronta pra puxá-la assim que ele se aventurasse. Duas ou três semanas teimei, paciência de Jó. Ouvia o bichinho se movendo atrás da estante, por vezes arriscando o focinho pra fora. Mas nada de me dar moleza e penetrar o que eu achava que lhe daria uma vida digna, de casa e comida e direito a rodar em círculos sem chegar a lugar nenhum.

Ele nunca veio e acabou por comer o veneno. Reinaldo me disse que era preto e tão pequeno. Foi jogado ao lixo pelo rabo.

Em homenagem a ele, adquiri meus primeiros hamsters, Frisco e Fofo. Aos dois se seguiram muitos outros. Houve tempo em que dez gaiolas se exibiam na sala de casa, cada uma com um hamster – porque, territorialistas, se ficarem juntos eles se matam. Alguns eram adoráveis, outros nem tanto. E Moleque permaneceu como o absolutamente inesquecível: me deixava fazer tudo, sem a menor suspeita de que eu pudesse lhe fazer mal. Dava banho, secava com secador, penteava, e ele quietinho, seguro do amor da mamãe. Eu lhe agradecia pela confiança e crescia meu encantamento. Começou a ter pus no pintinho, eu espremia todas as noites – o que deve ter lhe rendido alguns meses extras de vida, ao passo que me causava duplo prazer: cuidar dele e espremer o pus. Adoro espremer tudo. Acabou morrendo com a barriga cheia d´água: insuficiência renal, imagino, mas a barriga eu não podia furar nem espremer. Tive que assistir, com paciência semelhante à da tentativa de capturar o ratinho, tendo sido a primeira numa expectativa de chegada e a outra antecipando a despedida.

Esta crônica vai pra vocês, grandes amores: Indigente e Moleque.

*É autora de Dor de facão & brevidades

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