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Crônica - Uma Carta de amor

Publicado às | Atualizado em 02/10/2021, 12:58 | Autor: Clara Cerqueira
Ilustração: Túlio Carapiá | Editoria de Arte de A TARDE
Ilustração: Túlio Carapiá | Editoria de Arte de A TARDE -
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Meu amor,

Que vontade de te matar! Com minhas próprias mãos, com requintes de crueldade e com todo amor. Sim, mato porque amo e porque estou doida de vontade de matar qualquer um, não nego.

Todos dirão que é crime. Sim, irão me julgar, me achincalhar e me meter no xadrez de forma rápida e eficiente. Irão me expôr nas mídias sociais e impressas com manchetes falastronas que roubarão de mim a mulher e o humano, transformando-me em criatura amorfa e cruel. Farão de mim figura rentável, esse não é um mero detalhe, é antes de tudo o cerne real da questão. Quem quer saber da história de uma mulher estressada que depois de mais de um ano e meio isolada, dá aquela leve surtada? Não, não.

A gente quer caça às bruxas, a gente quer uma assassina com cara de doida varrida para apedrejar e queimar. A humanidade tem sede de sangue, por que não capitalizar?

Porque vocês sabem, se fosse o contrário o impacto não seria o mesmo. Ele seria chamado de jovem, embora já tenha passado um pouco da classificação, e a culpa do crime por ele praticado seria rapidamente transferida para mim e assim, como quem não quer nada, olha eu aí de novo no papel de bruxa endiabrada. Ao invés de manchetes sanguinárias, teríamos discursos atenuantes, enriquecidos por evidências comprovando, sem deixar sombra alguma de dúvida, a minha personalidade difícil e destemperada.

Mas para obter real destaque, para virar personagem de documentário e ir parar na cela das celebridades, eu teria que me esforçar. Não posso ficar só no arroz com feijão, vou precisar de um clímax melodramático seguido de um desfecho trágico, mas inventivo, para temperar. Um elemento surpresa, é disso que eu preciso.

Vejamos. Depois do fato consumado sem grande elaboração, gosto de pensar que sou uma pessoa espontânea, mas a verdade é que nada que eu planejo sai como deveria, eu recolheria cuidadosamente o sangue dele em um daqueles potes de vidro para tinta de caneta tinteiro e escreveria uma carta de amor de próprio punho, confessando o crime nos jornais. Que tal? Acho uma boa saída.

Na carta, eu diria que amar demais foi meu único crime, que eu nunca tive a intenção de agredir ninguém e que só buscava harmonia e respeito entre nós. Eu teria que especificar porém que boa parte de nossos desentendimentos foram causados por decisões tomadas por ele, mas que foram determinantes para nossa vida como casal. Deixaria claro que quando vivemos a dois, as pessoas não têm o direito de esticar a corda a ponto de prejudicar a vida e a economia do lar. Diria com grande carga dramática que minha ação passional e contundente foi fruto do calor do momento e dos embates para o nosso bem comum. Nessa hora evidenciaria as qualidades do meu amado, declarando meu respeito por ele, afinal casamento é isso, duas almas juntas em favor da família e em deferência aos votos. Terminaria agradecendo por tudo que ele me deu e reiteraria o meu amor.

Olha, se eu fosse homem e fizesse uma carta dessas acho até que sairia ilesa.

Mas pensando bem, essa carta está parecendo plágio e tudo isso vai dar muito trabalho. Onde é que eu vou arranjar pote de tinta e caneta tinteiro? Eu teria que ir na Av. Sete comprar? Desisti só de pensar. E a bagunça na casa, quem é que iria limpar? Ele já não é um grande faxineiro vivo, imagina morto. E em quem eu vou botar a culpa dos meus problemas? Melhor deixar essa ideia de assassinato pra lá. Prefiro odiá-lo vivo.

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