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Crônica: A servidão dos cabelos

ro-Ã
Por ro-Ã
Túlio Carapiá | Editoria de Arte de A TARDE
Túlio Carapiá | Editoria de Arte de A TARDE - Foto: Túlio Carapiá | Editoria de Arte de A TARDE

Conheci Mirtes antes da idade de seis anos, quando éramos colegas na escola e eu invejava seu cabelo cacheado e brilhante como o da personagem da história em quadrinhos. O meu era lambido, sem graça, minha mãe se exaurindo para que eu me conformasse com aquela sorte. Não sei se me conformei, mas tampouco me acabei por causa disso. Permanece o sentimento como a primeira inveja que tive na vida.

Faz tempo que éramos crianças e cantávamos A linda rosa juvenil no recreio. O noivo da professora Lílian desapareceu num acidente aéreo, a filha primogênita de Mirtes teria o mesmo destino. Entretanto, o que Mirtes considera mais inescrutável não é a questão da morte nem a de onde viemos e para onde vamos, mas o porquê de estarmos aqui. Quem nos legou o sentimento de que é preciso uma serventia? Sim, ela já leu A vida não é útil, de Ailton Krenak, concorda com ele, porém crê que se na próxima encarnação voltar como celular ou pá-carregadeira será mais feliz. Ou mesmo jumento, que nasce com currículo estabelecido. Quem, desde a pré-história, viu jumento curtindo a liberdade de existir sem carga no lombo?

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Não há dúvida de que milhares neste planeta já terão pensado e pensam na utilidade ou não da vida. Não ocorre originalidade no que diz respeito às ideias: pela cabeça de alguém antes de nós já passou o que quer que seja imaginável. Outro dia, Mirtes leu uma frase sensacional de uma festejada escritora brasileira contemporânea; poucos meses após, descobriu, desapontada, que Herbert Marcuse dissera exatamente a mesma coisa, de maneira mais sucinta, num dia entre os que viveu, de 1898 a 1979. Fora os tantos pensantes que certamente terão refletido igualmente e quem sabe o externado também.

Tratava-se da presunção de que o tempo cura tudo, mas não: o tempo apenas afasta o incurável do centro das atenções. É verdade que existe quem atravesse a vida sem pegar nem piolho, porém a maioria sofreremos de condições asininas, ao menos pontualmente. E então não fará diferença se o tempo realmente cura ou apenas tira a dor de foco, como se miopia redentora.

Ah, Mirtes! Esse nome antigo e fora de moda. As meninas de hoje, inumeráveis Sofias, estranham Márcia, Sônia e Patrícia, tão comuns em minha geração. No entanto, a única Sofia que conheci até há poucos anos era minha amiga Suki, que tinha o mesmo nome da mãe – além de uma (finada) Sofia Costa Pinto pertencente à família do museu no Corredor da Vitória. E um único Lucas conheci também que esteja por volta dos 60.

Assim como os nomes, os pensamentos voltam à tona. Talvez, porém, eu esteja subestimando Cinderleias, Elivanderlsons e Usnavys nunca dantes navegados, bem como a criatividade incessante dos cérebros humanos. Vai que aparece um pensamento original e aí ficarão Mirtes e eu(s) com as caras demodês mexendo.

Estava lembrando Carl Sagan dizer que neste pálido ponto azul onde habitamos viveram também todos os poderosos, todos os fodidos, os alegres e tristes, os doentes e sadios. E quanto sangue já se derramou pelo propósito de dominar territórios e gentes dentro desse lugarzinho que tão pouca importância tem no universo, se é que alguma. Se o universo é a high society, somos a ralé, e ainda assim são promovidos massacres para que pretendamos uma ralé superior, com cobertura em frente ao mar e varanda gurmê. Será que não existe mesmo saída para essa condição, alguns poucos terão que espernear eternamente, tentando colocar palitos de fósforos nos olhos das pessoas a fim de que enxerguem só um bocadinho mais adiante?

Terá a vida outro significado que uma utilidade imediata e breve? Ai, Mirtes, você e seus cachos agora espichados, em vez de se deliciarem com a caminhada pela orla da nossa Salvador, admirando os movimentos de outros que podem se dar a esse luxo, ficam se consumindo em pensamentos vãos, que certamente seguirão o mesmo caminho que seu esqueleto quando não mais se bulir. Amiga que me assobio, aponto o jegue resignado que vem vindo tocado pelo Master, cascos pelejando na areia seca, curvado pelos quilos de tantos cocos de um e outro lado.

A água dentro dos cocos silenciosa, pois se fizer barulho é porque tem algum problema. Aproveite.

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