Crônica: Juntando as peças

Publicado domingo, 13 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 12/06/2021, 16:33 | Autor: Luisa Sá Lasserre

Com 13 ou 14 anos? Tentava lembrar da viagem que fiz com uma tia. Como foi mesmo que aconteceu? Me vem a imagem da Kombi da companhia aérea, cujo voo de conexão havia sido cancelado, nos conduzindo para um hotel distante e o medo que me deu. Aonde aquele homem estaria mesmo nos levando? Sei que fui e voltei, mas um pedaço dessa história já se perdeu pelo caminho. O quebra-cabeça vive faltando peça.

Recompor a nossa história é a tentativa de encaixar os milhares de pedacinhos espalhados no chão da sala até formar a figura exata tal qual a caixa do jogo. Tarefa que requer paciência, raciocínio, atenção aos detalhes, olhar minucioso. Tem coisa mais chata do que uma peça faltando no quebra-cabeça que a gente tenta montar?

Da minha vida, muita coisa se resume a cenas soltas boiando nas águas das minhas lembranças. Tantas outras imagens estão submersas e não as vejo mais. O que vai e o que fica? Quem decide, afinal? Por que, entre as minhas memórias, permaneceram os registros do gesto triste do coleguinha a quem neguei um pirulito ou do short xadrez que ganhei de aniversário quando adolescente?

Em uma conversa com minha mãe, descobri que meus avós maternos moraram na Bahia por um período. Como assim eu não sabia disso? A data exata havia desaparecido. Eu devia ter entre dois e quatro anos de idade. Segundo minha mãe, ia com ela à casa deles, lanchava por lá. Lembro de nada, uma cena guardada sequer. Não é um grande desperdício de nós mesmos não recordar um pedaço tão significativo da nossa história, os primeiros anos da nossa vida?

Da minha primeira infância ficou pouca coisa. Cenas acalentadas no balanço da maré da memória: meu pai me colocando pra dormir na rede quadriculada da varanda; a cantiga Se essa rua fosse minha que aprendi ali e jamais esqueci; meu berço cheio de bonecas no quarto dos meus pais; a bolacha Maria no lanche da escolinha maternal. A memória é um baú afundado cheio de objetos antigos que vão sendo sobrepostos pelos mais novos. Quando a gente o abre, se depara com os guardados mais recentes por cima. É preciso submergir as mãos lá dentro para vasculhar as lembranças do passado até retirar de lá uma relíquia. Mas vale dizer: nem sempre a peça é a mesma de quando entrou no baú.

O que temos acesso é muito mais uma imagem, e não o acontecido em si. Algo como uma pintura sobre fotografia. Tiramos o retrato dos fatos, e depois colorimos do nosso jeito com as tintas que temos. Reforçamos um traço aqui, atenuamos outro acolá. Daquela parte, acabamos apagando um pedaço. Tudo ganha efeito único a partir da nossa percepção mais íntima.

Eu não sei você, mas já aconteceu comigo. Eu jurava lembrar da cena de um amigo cantando Beatles. Anos depois, descobri o engano. Beatles que nada, ele cantava Guns’n Roses. Acho que eu quis melhorar o repertório e passei tempos acreditando naquilo como verdade. Quantas vezes nos apegamos a lembranças que podem nem ser a realidade?

Às vezes tudo o que temos são pistas – de quem fomos, do que fizemos ou nos fizeram, de quem somos. Juntamos as sinalizações da trilha para chegar a algum lugar. Encaixamos as peças, formamos um quadro e o penduramos na parede. Emolduramos os trechos da nossa história. Volta e meia, passeamos para rever a galeria das nossas impressões.

De hoje o que restará, anos mais tarde? Lembraremos desse dia, se fazia sol ou chovia? O que comemos no jantar? O que sentimos? Como era mesmo aquele texto que eu li? Muito do que vivemos escorre feito água, corre pro mar. Vastidão é dentro. Sei que tudo está aqui guardado, mora em mim. Memória é assim.

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