“Educação é poder”, diz fundador do Instituto Cultural Steve Biko

Lázaro Cunha começou seu trabalho ensinando gratuitamente matemática para jovens negros soteropolitanos

Publicado domingo, 31 de julho de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 30/07/2022, 16:49 | Autor: Gilson Jorge
Lázaro falou sobre possível criação da Faculdade Steve Biko
Lázaro falou sobre possível criação da Faculdade Steve Biko -

Quando esteve na Bahia, em novembro de 2021, o embaixador da África do Sul no Brasil, Vusi Mavimbela, 67 anos, conheceu o Instituto Cultural Steve Biko e declarou que ficou gratamente surpreso quando soube da existência da entidade. Biko, morto na cadeia aos 30 anos em 1977, durante o regime do Apartheid, foi o criador do Movimento da Consciência Negra, que mobilizava e formava jovens nas periferias de cidades sul-africanas. "Mavimbela disse que lia às escondidas os textos de Biko", conta Lázaro Cunha, 51, um dos fundadores do Instituto baiano, que começou seu trabalho ensinando gratuitamente matemática para jovens negros soteropolitanos quando tinha 22 anos e ainda estudava no Cefet.

Neste domingo, 31, completam-se 30 anos desde que o movimento surgido no Diretório Central dos Estudantes da Ufba começou o trabalho político de incentivar pessoas pobres e negras a ocuparem vagas na academia, mais de uma década antes da Lei de Cotas. Para comemorar o aniversário, foi marcada para a manhã deste domingo uma caminhada, batizada de Trilha ancestral, pelo Parque de São Bartolomeu. Mas a caminhada do Instituto é mais longa. No horizonte de 2025, está a possível criação da Faculdade Steve Biko, que oferecerá graduação em história, mas também em ciência e tecnologia.

Enquanto a sede no Forte de São Pedro ainda está em reforma, todas as atividades do Instituto estão concentradas no segundo andar de um casarão no Carmo, cedido pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos, Povos Indígenas e Culturas Negras da Universidade do Estado da Bahia. Para falar das três décadas de realizações e também do futuro, entrevistamos Cunha, um engenheiro mecânico, que atualmente coordena o Oguntec, programa que aproxima jovens negros da ciência e da tecnologia. 

Três décadas de inclusão de pessoas negras nas universidades.  O que foi possível atingir em termos de objetivos e o que ainda está na luta?

O Instituto não surgiu com um grande plano. O objetivo era atender a demanda imediata, que era a falta de pessoas negras na universidade.  Foi o desafio que a gente se propôs a enfrentar. A forma de perseguir esse objetivo foi a criação de um curso preparatório para dar aos estudantes negros a chance de competir no vestibular.  Isso teve êxito. À medida em que fomos colocando alunos nas universidades, outras iniciativas semelhantes foram construídas, não só na Bahia, como em todo Brasil.  Essa mobilização dos movimentos negros para dar acesso a jovens negros de baixa renda às universidades. Porque, de fato, educação é poder. Então, foi muito importante. Aquela ação imediata ganhou uma proporção que hoje você vê nas ações afirmativas, não só na educação, mas também na empregabilidade, nos concursos públicos.  Foi uma ação seminal que realmente teve uma amplitude que a gente considera extremamente positiva para o Brasil.

Quantos alunos já passaram pelo Instituto?

Mais de cinco mil. Há casos, por exemplo, de filhos que vieram estudar, depois vieram os pais. Também acontece o contrário.  Temos um professor que está dando aula para sua mãe. Então, você tem um impacto enorme dessa iniciativa.  Você vê nas universidades professores oriundos do Steve Biko. O Instituto, realmente, conseguiu ter um impacto e também fazer o enfrentamento do racismo dentro da academia.  Você confronta o eurocentrismo que concebe uma história única, a partir do branco europeu, e esquece o valor da diversidade.  Esses estudantes e professores do Instituto que vão para a Universidade também são responsáveis pela mudança na própria forma de conceber conhecimento. 

A aprovação da lei de Cotas afetou de alguma forma as ações do Instituto?

Sim. Antes da lei, teve ainda a Uneb que adotou o sistema de cotas. Mas com a lei houve uma mobilização do Movimento Negro, e o Steve Biko estava junto, para o convencimento do Conselho Acadêmico da Ufba apoiar o sistema. Isso foi uma conquista.  Ocupamos a reitoria para convencer o Conselho de que a Ufba precisava refletir a diversidade da sociedade baiana.  Isso foi um ganho de qualidade para a universidade, pois os estudantes do sistema de cotas não devem em nada em termos de rendimento aos outros estudantes.  A Ufba só ganhou com as cotas. Para começar, a preparação da infraestrutura para receber uma parcela da sociedade que tradicionalmente era excluída.  Diversidade é isso. Ganha-se sob o ponto de vista qualitativo. Diversos lugares de fala, de posicionamento, o que ajuda a enriquecer a construção do conhecimento na universidade.

Junto com a inclusão de negros na universidade e em outros espaços de poder, vem também a batalha por uma educação antirracista. Como fazer com que as escolas sejam cada vez menos racistas, tanto do ponto de vista do conteúdo didático quanto do racismo estrutural?

Aí o Movimento Negro tem um papel fundamental. Zumbi e outros heróis negros pularam os muros das escolas.  Essa pressão do movimento provocou políticas públicas como a Lei 10.639 (dispõe sobre o ensino da cultura afro na educação básica), e a Lei 11.645 tornou obrigatório o ensino de cultura e história indígena e afro-brasileira no ensino fundamental). A participação indígena no sentido de estar reivindicando uma presença no currículo das escolas também foi importante. O eurocentrismo que predomina nos currículos prejudica demais o aproveitamento de talentos oriundos dessa diversidade.

O Brasil tem uma capacidade enorme devido a essa multiplicidade étnica. Mas a gente corre o risco ainda hoje do desinteresse dos estudantes à medida em que não se veem no currículo.  É o papel histórico do Movimento Negro estar trazendo essas pautas. A história de contribuições da população negra tem que estar dentro dos currículos. Isso contribui bastante.  Ainda mais hoje, com essa necessidade de combater os discursos de ódio e a falta de respeito à diversidade.  A gente tem visto ganhos extraordinários.  A coisa da consciência negra, que era só o dia 20 de novembro, virou semana, mês e há uma provocação para que isso seja incorporado, de fato, à necessidade de combater o racismo e as formas de discriminação que tiram a dignidade das pessoas.

Vocês estão formatando a futura faculdade.  Quando vai começar a funcionar? Vai ser naquele prédio do Forte de São Pedro? Quais serão os cursos?

A nossa perspectiva é aproveitar aquela estrutura que está sendo reformada, no Forte de São Pedro. A faculdade é um desejo não apenas dos estudantes e professores do Steve Biko, mas também uma demanda do Movimento Negro de ter uma instituição de ensino superior que seja reflexo dessa luta. Alguns cursos são importantes para nós, como educação com pedagogia, história, mas também os de ciências, como ciências da computação, tendo em vista essa sociedade tecnológica, a indústria 4.0 que é totalmente lastreada em conteúdos científicos e tecnológicos e o nosso povo não pode ficar fora disso. Então, esses são cursos que estarão no início da Faculdade. Já estamos fazendo as tratativas com o MEC no sentido de estar preenchendo os requisitos para entrar em funcionamento, tanto na questão da infraestrutura física quanto na concepção política e filosófica.

Vocês estão recebendo apoio de quais instituições para fazer o planejamento da Faculdade?

Temos algumas consultorias na área acadêmica e alguns parceiros. Nós estamos fazendo diálogo com diversos atores.  A nossa sede tem a estrutura física sendo reformada pela Fundação Coca-Cola. Hoje estamos dialogando com a Embaixada da África do Sul no Brasil e a própria Fundação Steve Biko, daquele país.  São parceiros que estamos buscando.  E estamos abertos a empresas e pessoas físicas que queiram doar e contribuir com uma instituição que vai respeitar a diversidade e ser um espaço de cultura antirracista. Nós trabalhamos com parceiros.  Os projetos sociais, mais especificamente o Oguntec, têm o apoio da Basf,  Dow Química,  Instituto Serrapilheira e Instituto Ibirapitanga, por exemplo.

Os cursos serão gratuitos?

Uma das coisas que a gente tem pensado do ponto de vista da sustentabilidade é que os custos dos estudantes na universidade sejam lastreados pelas parcerias com empresas e com o próprio governo, através de programas que contemplem iniciativas privadas para o desenvolvimento do ensino superior.  Pleitear bolsas junto a fundações.  Há todo um pensar nesses estudantes, que não têm condições, às vezes, de se manter na universidade.  O planejamento está sendo feito no sentido de reconhecer essas vulnerabilidades e, por outro lado, pensar que nessas pessoas existe um potencial talento.

Como é a política de ingresso nos cursos do Instituto? Há alunos não-negros?

O público prioritário de nossos projetos é a juventude negra. Já tivemos a participação de indígenas e jovens considerados socialmente brancos. A proposta da faculdade é valorizar a diversidade étnico-racial do nosso país e priorizar a juventude negra, indígena e periférica, dado o seu maior grau de vulnerabilidade.

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