ABRE ASPAS
Especialista critica tour em favelas: "A pobreza tem que ser combatida"
Baiana referência mundial em turismo expõe a sua visão

Em sua primeira edição este ano, o Prêmio Embratur Visit Brasil, que homenageia quem promove o país no exterior, destacou o trabalho de três empreendedoras na categoria lideranças femininas. A carioca Karolynne Duarte, criadora do projeto Guiadas Urbanas, a indígena roraimense Karina Makuxi, que promove o turismo sustentável em Pacaraima, e a baiana Nilzete Araújo, uma ex-cristã que se interessou pelo Candomblé por meio do seu companheiro, que é do axé, e se tornou referência na recepção de turistas interessados na cultura afro-brasileira.
Em 2005, Nilzete se matriculou em um curso de agente de turismo e de viagens no Senac, com duração de dois anos. O projeto de conclusão do curso era a criação do protótipo de uma agência. Com o mergulho que tinha realizado no universo da cultura negra, a empreendedora não teve dúvidas em conceber um modelo de negócio que contribuísse para a disseminação da cultura baiana no exterior. Surgia, assim, a Afrotours.
Nesta entrevista, Nilzete expõe a sua visão do turismo como alternativa de progresso das pessoas negras e cobra do Estado brasileiro reparação efetiva pela escravização das pessoas negras, cujos antepassados construíram a estrutura que tornaram o Brasil o que é hoje, incluindo o patrimônio histórico que fez de Salvador um importante destino turístico.
Qual a importância desse prêmio e como é o seu trabalho de divulgação do Brasil no exterior?
Esse prêmio foi importante porque durante 20 anos parecia que eu não estava fazendo um trabalho importante. Eu vim fazendo narrativas, transformando o turismo no segmento em que eu apresento, um turismo real, apresento a história real do Brasil. Isso cresceu muito depois da pandemia. Antes da pandemia, eu sabia que estava fazendo um trabalho relevante. Porque quando eu coloco o nome da minha agência Afrotours eu já começo com um viés internacional.
Eu começo fazendo apresentações a pedido dos afro-americanos que estavam vindo para a Bahia, mas queriam ser guiados por afro-baianos. Eles começaram a questionar a Secretaria de Turismo, cadê a história do povo e cadê os apresentadores e as agências negras. Eu decidi colocar Afrotours, direcionando esses dois vieses. Primeiro, receber pessoas, não só negras, que tivessem interesse na história do povo negro, através do entretenimento que é o turismo. E, segundo, fazer viagens para a África.
Hoje, eu continuo fazendo pacotes, mandando pessoas para o continente africano, Egito, Togo, Benin, países que são muito próximos da cultura baiana, principalmente no contexto afrorreligioso. Países que todo mundo tinha interesse em conhecer, mas havia um bloqueio na oferta. Eu começo a oferecer e isso cresce. Todo mundo começa a ter interesse em Angola, Gana. Eu comecei a fazer pacotes para Gana em 2014. Só que as passagens aéreas são caras. Para sair da Bahia, você tem que ir à Europa ou ao Catar para depois adentrar o continente africano.
Eu comecei ousadamente a questionar como não havia voos que facilitassem o acesso ao continente. Eu furei essa bolha. A Cabo Verde Airlines chegou a fazer voos para Recife e Salvador direto para Praia. Veio a South African Airlines com voos de Guarulhos para a África do Sul. E tantas outras propostas, como o presidente de Benin que esteve aqui no ano passado, propondo uma ponte aérea. Eu sei que não vai ser fácil assim. Eu comecei fazendo isso e outros estados passaram a fazer também. No Rio de Janeiro, não havia a Pequena África. O que se apresentava no Rio de Janeiro eram o Cristo e as praias. A negritude estava lá, dentro dos roteiros de favela.
Houve esse incidente em que turistas ficaram sob fogo cruzado no Morro dos Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. Como a senhora avalia as excursões turísticas?
Eu, particularmente, não estou de acordo. Primeiro, por causa da segurança. Eu jamais colocaria minha vida nem a vida de alguém que estivesse passeando em uma situação duvidosa de sofrer algum acidente. Eu sou cuidadosa no trânsito, sou cuidadosa em via aérea, sou cuidadosa no mar. E, segundo, eu entendo que dentro da favela tem toda uma culturalização que é nossa. Fantástica. Música, religião, comportamento, inovação.
Mas o que se apresenta dentro da favela normalmente não é isso. O que se apresenta é um tipo de curtição noturna ou diurna, onde você vai ver a pobreza. Eu acho que a pobreza tem que ser combatida, ela não tem que ser comemorada, romantizada. De jeito nenhum. Basta essas pessoas lerem o Quarto de despejo: diário de uma favelada [livro de Carolina Maria de Jesus], que vão entender rapidamente o que é fazer o tour na favela. Eu sempre recebi pedidos de pessoas que queriam conhecer o Nordeste de Amaralina. Eu criava as condições para coisas que elas fossem ver.
Eu procurava sempre apresentar um centro cultural. Eu acho que a favela pode ser apresentada, mas tem que haver condições e equipamentos que levem a gente a adentrar esse lugar porque o turismo transforma. Eu acredito na transformação, eu transformei muitas vidas. Tirei muita gente da margem.

Como assim?
Gente que só fazia emissão de passagem e eu coloquei na Embratur ou na Secretaria de Turismo da Bahia, porque não havia negros. Eu questionei o Ministério do Turismo porque não havia negros na estrutura. O que eles fazem? Criaram uma coordenação de afroturismo. Isso não existia. Eu, inclusive, quase estava na margem pelo trade.
Eles achavam que eu estava dando murro em ponto de faca. Não sabiam que eu estava gerando renda e emprego. Formando guias, para fazer uma narrativa real, para construírem novos roteiros, que é tudo isso que está acontecendo, as imersões. Quando eu olho as imersões, eu digo que foi tudo que eu falei. Antes, no Pelourinho só se apresentavam as igrejas. Eu impacto, boto gente para chorar quando digo o que significa pelourinho. Porque mesmo o soteropolitano muitas vezes não sabe o que significa.
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Um lugar de castigo...
Isso, as pessoas acham que é um lugar de música. As pessoas não sabem que foi uma pedra de castigo. Eu pergunto se as pessoas sabiam que foi a gente que trouxe da Cidade Baixa para a Cidade Alta, pedra por pedra, o material para construir esse lugar. E a gente não está recebendo nada por isso. Eu começo a apresentar historicamente os blocos afros. Eu transformo a ideia de que o Olodum é um bloco qualquer, de que o Ilê Aiyê não influenciou a nossa estética. Essas apresentações e narrativas ajudaram a trazer centenas de universitários americanos para ver o que nós estamos fazendo no Brasil.
Falar da importância que tem você conhecer as comunidades quilombolas e as comunidades de terreiros. A intolerância estava existindo porque não se sabia o que acontecia lá. Qual era o cotidiano dos terreiros de Candomblé. Eu comecei a furar essa bolha, a falar sobre sincretismo religioso. Falo da importância de algumas igrejas, do islamismo, a Revolta dos Malês, a Revolta dos Búzios. Dá a impressão de que durante 350 anos a gente ficou parado, sem nenhuma revolução. No dia a dia, as pessoas não comentam sobre isso. A gente nunca aceitou estar no sistema escravizado.
A gente precisa falar sobre isso, eu levo as pessoas à Praça da Piedade para falar sobre a Revolta dos Búzios e de tantas outras revoltas que aconteceram. Eu falo disso sem excluir os outros dois povos, os portugueses e os indígenas. Eu coloco o português no lugar dele, coloco em má situação.
Você trabalha aquele roteiro de monumentos aos colonizadores feito pelo site Salvador Escravista?
Quando eu comecei a fazer isso, eu já lia os grandes intelectuais, os caras que já estavam anos à frente falando disso. João José Reis, Júlio Braga, a própria Vilma Reis. Como diz João José Reis, você precisa ter domínio do assunto para falar sobre a escravização. Tem uma moça me pedindo para apresentar esses pontos. Tem que saber como apresentá-los, senão a pessoa vai sair de lá triste e deprimida, achando que foi só aquilo.
Se a gente soubesse o que nossos irmãos trabalharam para chegarmos aqui...nós, homens e mulheres negras não deveríamos pagar impostos. Eu fui a Brasília na semana passada para começar esse discurso. Querem reparar? Não fiquem reparando fazendo festinha, dinheirinho para projeto aqui, ali e acolá, não. Repare na íntegra. Tirem os impostos das nossas vidas! Eles são desleais! O nosso grupo passou anos sem receber nada. Eu sou uma pessoa crítica. Os governos não gostam de me chamar para conversar porque eu sou uma pessoa que diz as coisas na cara.
Muitos turistas que a senhora guia têm conhecimento prévio da nossa história. Além de ver de perto, que tipo de informação eles buscam?
Elas querem ver na prática, querem inclusive ver como nós homens e mulheres pretas falamos sobre isso. Esse é o grande desafio. A gente ter autonomia e conhecimento para falar sorrindo. Quando eu estou guiando, eu sorrio. Outro dia, um cara branco me falou assim: eu nunca imaginei uma mulher negra me dizer tudo isso o que você me disse hoje.
Foi fantástico! Um grupo de oito homens bem brancos, do Rio de Janeiro. Todos médicos, doutores. Eu disse para eles tratarem as assistentes negras deles de forma diferente a partir de então. Elas podem ser iguais a mim. Desde que deem condições, não as oprimam. Eu olho as pessoas e já vou imaginando as suas equipes negras, as empregadas domésticas deles. O que eu faço no meu projeto é incluir, porque a gente já foi excluído por muito tempo.
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